— Suspeito que você e a moça são peões num grande tabuleiro, e que seus movimentos ainda não foram contrariados porque não perturbam o jogo dos russos.
— Mas qual é o objetivo do plano? — Bond olhava para a escuridão. Dirigiu-se ao seu reflexo na vidraça.
— Que pretendem eles? Batemos sempre nessa mesma tecla. É lógico que, desde o início, suspeitamos de uma conspiração. E é possível que a moça nem saiba do que se trata. Sei que ela me oculta algo, mas creio que é apenas algum segredinho que ela julga de menor importância. Disse-me que me contará tudo quando chegarmos a Londres. Tudo? Que quer dizer com isso? Diz apenas que devo ter confiança, que não há perigo algum. Deve admitir, Darko, que ela tem correspondido à versão que nos deu da história. — Procurou a resposta nos olhos astutos do amigo. Eles, porém, não demonstravam entusiasmo. Kerim não respondeu.
Bond encolheu os ombros. — Admito que fiquei gostando dela. Mas não sou idiota, Darko. Tenho procurado uma pista, qualquer indício que nos ajude. Você sabe que é possível conhecer-se muita coisa quando se derrubam certas barreiras. Pois bem, elas foram derrubadas, e acredito que ela seja sincera. Pelo menos em noventa por cento do que diz. Se está-nos enganando, é porque também foi enganada. Segundo sua analogia com o xadrez, isso é possível. Mas, voltamos, sempre, ao mesmo ponto: qual é o motivo? — A voz de Bond tornou-se enérgica. — E, se lhe interessa saber, pretendo continuar até o fim.
Kerim sorriu ante a teimosia expressa pelo rosto de Bond. Deu uma súbita risada. — Se eu fosse você, meu amigo, deixaria o trem em Salônica. Levaria o aparelho e a moça também, se desejasse, embora isso seja de some-nos. Fretaria um carro até Atenas e de lá tomaria o primeiro avião para Londres. Mas, não fui habituado a ter "espírito esportivo". — A voz de Kerim era irônica.
— Isto para mim não é um jogo. É trabalho. Com você é diferente. É um jogador. M. também: se não fosse, não lhe teria dado carta branca. Ele também quer saber qual a solução para este enigma. Pois seja. Mas eu prefiro ir pelo certo, sem deixar grande margem para o duvidoso. Acha que a sorte está do seu lado, que tem boas probabilidades? — Darko Kerim voltou-se e encarou Bond. Seu tom de voz era insistente. — Escute, meu amigo — e pousou a mão enorme sobre o ombro de Bond.
— Este caso é uma mesa de bilhar: mesa plana, lisa e verde. Você bateu na bola branca e esta rola facilmente em direção à vermelha. A caçamba está por trás. É fatal, é inevitável, que a branca bata na vermelha e que esta caia dentro da caçamba. É a regra do jogo. Mas, lá fora, o piloto de um avião a jato desmaiou, e a aeronave projeta-se sobre o salão de bilhar, ou um carro de gás está a ponto de explodir, ou, ainda, um raio está na iminência de cair. O edifício desmorona sobre você e sobre a mesa de bilhar. E, então, o que sucedeu àquela bola branca que não podia deixar de bater na vermelha, e com esta que certamente cairia na caçamba? A bola branca não podia errar, de acordo com as regras. Mas essas regras não são as únicas, assim como as que regem o movimento deste trem, que o levará ao seu destino, não são as únicas regras do jogo.
Kerim fez uma pausa. Encolheu os ombros e deixou de lado os conselhos. — Você já sabe de tudo isso, meu amigo — disse, como a desculpar-se. — Fiquei com sede, de tanto falar. Diga à pequena que se apresse e vamos jantar. Mas, peço-lhe que se acautele contra os imprevistos. — Fez uma cruz com o dedo, no centro do paletó. — Não faço uma cruz sobre o coração. Isso é levar a coisa demasiadamente a sério. Mas, faço uma cruz sobre o estômago, o que para mim é muito importante. Temos algumas surpresas pela frente. O cigano recomendou-nos cautela. Faço a mesma advertência. Podemos jogar nossa partida de sinuca, desde que nos lembremos que existe um mundo exterior. — Deu um tapinha no nariz. — Meu faro não me engana.
O estômago de Kerim fez um barulho semelhante ao receptor desligado, de um telefone, com alguém muito zangado do outro lado da linha. — Vamos — disse ele em tom apaziguador. — Não lhe disse? Precisamos comer.
Terminavam de jantar quando o trem chegou à moderna e horrível Salônica. Sempre carregando a pesada bolsa, Bond despediu-se antes de se recolher para a noite. — Logo seremos novamente incomodados — avisou Kerim. — Chegaremos à fronteira à uma hora. Os gregos não serão problema, mas os iugoslavos gostam de acordar os que dormem sossegados. Se o molestarem, mande-me chamar. Até mesmo nesse país tenho algumas relações. Estou no segundo compartimento do próximo
vagão. Viajo sozinho. Amanhã, vou mudar-me para a cabine n.° 12, que foi do nosso amigo Goldfarb. Por enquanto, a primeira classe serve.
Bond cochilava quando o trem subiu o vale enluarado do Vardar, em direção ao interior da Iugoslávia. Tatiana dormia novamente, com a cabeça sobre o colo dele. Pensou no que Darko dissera. Talvez fosse melhor mandar o amigo de volta a Istambul, assim que chegassem a Belgrado. Não era justo que ele atravessasse toda a Europa para participar de uma aventura que estava fora do seu território e pela qual não tinha grande simpatia. Darko, sem dúvida, suspeitava que Bond estava tão interessado pela jovem que já não enxergava direito o rumo a tomar. Bem, não deixava de ter certa razão. Era evidente que seria mais seguro mudar o caminho de volta. Mas Bond precisava admitir que não suportava a idéia de fugir do plano, se é que este existia. Se não, de modo nenhum podia tolerar o fato de perder esses três dias em companhia de Tatiana. M. deixara a decisão a seu cargo. Como Darko dissera, também ele estava curioso para saber o que resultaria disso tudo. A viagem prosseguia normalmente. Ainda uma vez, por que temer?
Dez minutos depois de haverem chegado à estação de Idomeni, na fronteira grega, alguém bateu insistentemente à porta. A moça acordou. Bond retirou-lhe a cabeça de sobre o seu colo. Colou o ouvido à porta. — Quem é?
— "Le conducteur, Monsieur". Houve um acidente com seu amigo Kerim Bey.
— Espere — respondeu Bond, violentamente. Colocou a Beretta no coldre e vestiu o paletó. Escancarou a porta.
— Que foi?
O rosto do guarda estava pálido sob a luz do corredor. — Venha. — Correu em direção à primeira classe.
Alguns funcionários aglomeravam-se à porta do segundo compartimento. Estavam parados e olhavam fixamente.
O chefe do trem abriu passagem para Bond. Esse chegou à porta e olhou.
Seu cabelo arrepiou-se. No assento da direita havia dois corpos. Estavam unidos num abraço macabro que parecia ter sido posado para um filme.
O que estava em baixo era Kerim, com os joelhos dobrados num último esforço para se erguer. O cabo de um punhal saia do seu pescoço, à altura da jugular. Sua cabeça pendia para trás e os olhos arregalados fitavam o teto. A boca estava contorcida numa careta. Um file-te de sangue escorria-lhe pelo queixo.
Sobre o seu corpo estava o de Benz, o agente da M.G.B., que fora enlaçado, pelo pescoço, pelo braço de Kerim. Bond conseguiu divisar uma ponta do bigode à Stalin e um lado do rosto arroxeado. O braço direito de Kerim estava atravessado nas costas do outro, numa posição quase natural. A mão empunhava o cabo de uma faca, e sob ela havia uma grande mancha de sangue no paletó. Bond reviveu a cena. Parecia-lhe assistir a um filme. Darko, adormecido, sendo golpeado na jugular pelo homem que entrara sorrateiramente pela porta. Depois, o derradeiro espasmo do moribundo quando, então, lançou um braço para cima, agarrando o assassino contra si, ao mesmo tempo que lhe cravava a faca à altura da quinta costela.