Mais tarde, depois de haverem se alimentado de "slivovic", presunto defumado e pêssegos, Tampo veio buscá-los e levou-os até à estação, onde o trem aguardava sob intensas luzes. Ele despediu-se, rápida e friamente, e desapareceu no fim da plataforma, voltando à sua vida obscura.
Pontualmente, às nove horas, a locomotiva começou a mover-se, puxando a longa composição na sua viagem pelo vale de Sava. Bond dirigiu-se à cabine do chefe do trem, a fim de lhe dar uma gorjeta, antes que ele iniciasse a vistoria nos passaportes de todos os novos passageiros.
Bond conhecia a maioria dos indícios de um passaporte falsificado: escrita borrada, carimbo demasiadamente nítido, vestígios de cola velha nas bordas das fotografias, leve transparência das páginas rasuradas para alterar letras e números. Mas os cinco novos passageiros (três norte-americanos e dois SUÍÇOS) pareciam inofensivos. Os passaportes suíços, favoritos dos falsificadores russos, pertenciam a marido e mulher, ambos de mais de setenta anos, e Bond, deixando-os de lado, voltou à cabine e preparou-se para mais uma noite em claro, com a cabeça de Tatiana sobre o colo.
Passaram por Vincovi, Brod e, ao raiar de uma aurora flamejante, avistaram o feio contorno de Zagreb. O trem parou por entre fileiras de locomotivas enferrujadas que haviam sido capturadas aos alemães e que permaneciam abandonadas, nos acostamentos, por entre touceiras de mato. Bond leu o dístico de uma delas: "BERLINER MASCHINENBAU GMBH", enquanto percorriam aquele cemitério de aço. Seu longo "chassis" preto fora perfurado por balas de metralhadora. Bond imaginou o ruído do avião de bombardeio e viu os braços erguidos do maquinista. Por um instante, comparou, nostálgica e despropositadamente, a excitação e o torve-linho da guerra declarada com a sua atividade sub-reptícia desde que ela se tornara fria.
Subiram pelas montanhas da Eslovênia, onde as macieiras e os chalés pareciam austríacos. O trem seguiu vagarosamente até Liubliana. A jovem acordou. Como. primeira refeição, comeram ovos fritos e pão de centeio, acompanhados de café feito quase exclusivamente de chicória. O carro-restaurante estava repleto de exuberantes turistas ingleses e norte-americanos, vindos da costa do Adriático. Bond pensou com alívio, que à tarde ultrapassariam a fronteira da Europa Ocidental. E teria fim uma terceira etapa perigosa.
Dormiu até Sezana. Um funcionário iugoslavo, feições enérgicas, subiu no trem. Deixaram a Iugoslávia e chegaram a Poggioreale, onde encontraram os primeiros indícios de uma vida calma, no vozerio dos funcionários italianos e nas faces despreocupadas do povo aglomerado na estação. A nova locomotiva, "Diesel", elétrica, deu um alegre apito e mãos morenas se agitaram num adeus. Partiram para Veneza, em direção a Trieste e ao azul Adriático.
"Conseguimos", pensou Bond. "Estou certo de que conseguimos". Afastou da mente a lembrança dos três últimos dias. Tatiana observou as linhas do seu rosto se relaxarem. Pegou-lhe a mão. Ele sentou-se ao lado dela. Contemplaram as aldeias alegres do Corniche, os barcos de pesca e algumas pessoas que praticavam esqui-aquático.
O trem foi sacudido ao entrar nos desvios e deslizou mansamente pela bela estação de Trieste. Bond levantou-se, baixou a janela e ambos ficaram lado a lado, observando. Subitamente, Bond sentiu-se feliz. Pôs o braço ao redor da cintura da jovem e puxou-a, fortemente, contra si.
Contemplaram a multidão festiva. O sol entrava pelas vidraças limpas da estação, em raios dourados. A cena exuberante tornava mais vivo o contraste com a escuridão e a sujeira dos outros países que o trem atravessara. Bond observou com prazer quase sensual a multidão vestida de cores berrantes atravessando os trechos ensolarados em direção à porta da entrada e os veranistas bronzeados pelo sol que regressavam das férias. Corriam pela plataforma, a fim de tomar seus lugares no trem.
Um raio de sol iluminou a cabeça de um homem que parecia pertencer a esse mundo alegre e folgazão. A luz brilhou-lhe por um instante no cabelo louro, semicoberto por um boné, e no pequeno bigode também louro. Havia tempo de sobra para apanhar o trem. O homem caminhava sem pressa. Bond logo imaginou que fosse um inglês. Talvez fosse o formato familiar do boné, ou a capa de chuva bege, marca registrada do turista inglês, ou talvez, ainda, as calças de flanela cinza ou os sapatos marrons, já gastos. Mas os olhos de Bond sentiram-se atraídos por aquela figura, como se lhe fosse familiar, enquanto ela se aproximava da plataforma.
O homem carregava uma decrépita maleta e, sob o outro braço, um livro grosso e alguns jornais. Parece um atleta, pensou Bond. Possui os ombros largos e as feições saudáveis e atraentes de um jogador profissional de tênis que regressa ao lar, depois de uma série de competições no estrangeiro.
O homem aproximou-se. Encarou Bond. Demonstraria tê-lo reconhecido? Bond rebuscou na memória. Conheceria esse indivíduo? Não. Do contrário, lembrar-se-ia desses olhos tão frios, sob as pestanas descobridas. Eram opacos, quase sem vida. Eram os olhos de um homem afogado. Mas eles enviavam-lhe uma mensagem. Qual seria ela? Reconhecimento? Aviso? Ou apenas a reação de defesa contra o olhar insistente de Bond?
O homem passou pelo carro-dormitório. Seus olhos, agora, percorriam o trem. Seus sapatos de sola de borracha não faziam barulho algum. Bond viu-o segurar o balaústre e içar-se com facilidade para os degraus do vagão de primeira classe.
Subitamente, Bond percebeu o que queria dizer aquele olhar, quem era o homem. Naturalmente! Era um agente do Serviço Secreto. Afinal, M. decidira enviar-lhe reforços. Era essa a mensagem expressa por aqueles estranhos olhos. Bond apostaria como o homem logo se poria em contato com ele.
Como era própria de M. essa preocupação com a segurança!
Capítulo 25 — UMA GRAVATA COM NÓ À WINDSOR
A fim de facilitar o contato, Bond saiu para o corredor. Rememorou todos os detalhes do código do dia, as frases banais que eram alteradas no princípio de cada mês e que serviam como sinal de reconhecimento entre os agentes ingleses.
O trem deu um solavanco e saiu para a claridade.
No fim do corredor, a porta de comunicação foi fechada.
Não se ouviram passos, mas o rosto vermelho e dourado logo surgiu, refletido na vidraça.
— Por favor. Podia ceder-me um fósforo?
— Uso isqueiro. — Bond pegou o seu velho "Romson" e passou-o ao outro.
— Ainda melhor.
— Enquanto não falha.
Bond olhou para o rosto do seu interlocutor, esperando um sorriso após a troca de senha tão pueril.
Os lábios grossos moveram-se rapidamente. O sorriso não foi correspondido pelos olhos azuis-claros.
O homem tirou a capa. Usava um velho paletó de "tweed", calças de flanela, camisa-esporte amarelo claro e gravata tecida em azul-marinho e marrom da Artilharia Real. O nó fora dado no estilo Windsor. Bond desconfiava de todos aqueles que davam um nó de gravata nesse estilo. Demonstrava um excesso de vaidade. Era, frequentemente, a marca de um patife. Bond decidiu por de lado esse preconceito. No dedo mínimo da mão direita, que segurava o corrimão, destacava-se um anel de sinete, com um desenho indecifrável. No bolso da lapela, via-se a ponta caída de um lenço vermelho. No pulso esquerdo, usava um velho relógio de prata, preso com correia de couro, já gasta.
Bond conhecia o tipo: devia ter frequentado uma escola pública e fora depois convocado para a guerra. Talvez no setor da Segurança. Sem ter noção do que podia fazer depois, permaneceu com as tropas de ocupação. A princípio devia ter ficado com a polícia militar e, depois, quando os homens mais antigos começaram a ser repatriados, foi promovido para o Serviço de Segurança. Enviado a Trieste, provara sua eficiência. Preferia não enfrentar os rigores do clima inglês. Provavelmente, tinha namorada, ou talvez esposa, na Itália. O Serviço Secreto necessitava de um homem para ocupar o posto de Trieste, após a retirada das tropas. Esse homem estava à disposição. Foi utilizado. Devia prestar pequenos serviços de rotina: obter informações junto à polícia italiana e iugoslava e, também, nas suas redes de espionagem. Ganhava mil libras por ano. Tinha vida folgada, sem que lhe exigissem esforço demasiado. De repente, surgira essa missão. Devia ter sido um choque receber uma convocação de urgência. Provavelmente, ficaria pouco à vontade com Bond. Tinha um rosto fora do comum. Os olhos pareciam desvairados. Mas isso era comum entre os agentes do exterior. Era preciso ser um pouco louco para aceitar um lugar como esse. Sujeito grandalhão, talvez um tanto bronco, mas ideal para servir de guarda-costas. M. apenas avisara ao homem mais próximo que fosse procurá-lo no trem.