Tudo isso passou pela imaginação de Bond enquanto observava as roupas do homem e sua aparência geral. Disse, então: — Prazer em vê-lo. Como soube?
— Recebi um recado. Ontem, à noite. Foi M. pessoalmente. Você me assustou, velho.
Sotaque estranho. Que seria? Um pouco de sotaque regional, da classe baixa. E mais alguma coisa que Bond não sabia definir. Talvez fosse por viver há muito tempo no exterior e ter de falar línguas estrangeiras, durante o tempo todo. E esse cacoete do "meu velho". Devia ser por timidez.
— Acredito — concordou Bond. — Que foi que ele disse?
— Apenas que eu tomasse o Expresso, esta manhã, e entrasse em contato com um casal que viajava no vagão-dormitório. Deu-me uma breve descrição da sua aparência. Disse ainda que devia acompanhá-los até Paris. E foi só, meu velho.
Haveria precaução na sua maneira de falar? Bond olhou-o de soslaio. Os olhos claros encontraram os seus. Havia neles um brilho avermelhado. Parecia que a porta de segurança de uma fornalha fora aberta. A chama extinguiu-se. A porta que levava ao íntimo desse homem fora novamente fechada. Os olhos haviam-se tornado, novamente, inexpressivos: era o olhar de um introvertido, de um homem que raramente observa o mundo, mas está sempre focalizando o seu próprio íntimo.
"Realmente, há sinais de loucura", pensou Bond, surpreso ante o que via. "Talvez seja choque de guerra, ou então, esquizofrenia. Pobre rapaz! Com esse físico tão exuberante! Qualquer dia terá, certamente, uma crise. A loucura tomará conta dele." Bond achou que devia avisar a Secção de Pessoal. Era bom fazer um exame médico. A propósito: qual seria o nome dele?
— Bem, estou muito satisfeito com a sua vinda. Provavelmente, não terá muito que fazer. Quando partimos, havia três vermelhos na nossa pista. Já nos livramos deles, mas pode haver outros no trem. Ou pode ser que outros embarquem. Preciso levar a moça até Londres, sem percalços. É bom que nos acompanhe. Hoje à noite, será melhor que fiquemos juntos, a fim de nos revezarmos na vigília. Esta é a última noite, e eu não quero facilitar. A propósito: meu nome é James Bond. Viajo sob o pseudônimo de David Somerset. A moça que está na cabine é Caroline Somerset.
O homem tirou de um bolso interno uma carteira muito gasta, que parecia recheada de dinheiro, e dela tirou um cartão de visitas, passando-o a Bond. Lia-se nele: "Capitão Norman Nash". E no canto inferior, à esquerda: "Real Automóvel-Clube".
Enquanto Bond guardava o cartão, passou o dedo por sua superfície. As letras eram em relevo. — Obrigado — disse. — Vamos agora ver a senhora Somerset, Não há motivo para não viajarmos juntos parte do tempo. — Deu um sorriso para animar o outro.
Tornou a notar o clarão vermelho que logo se extinguiu. Os lábios se comprimiram por sob o bigodinho louro. — Com todo o prazer, meu velho.
Bond virou-se para a porta, bateu e disse quem era. A porta abriu-se. Bond fez sinal a Nash para que entrasse e tornou a fechá-la.
A moça pareceu surpresa.
— Este é o capitão Nash, Norman Nash. Foi encarregado de nos proteger.
— Muito prazer. — A mão foi estendida com certa hesitação. O homem apertou-a rapidamente. Seu olhar era fixo. Não disse nada. A jovem deu um risinho embaraçado. — Não quer sentar-se?
— ... obrigado. — Nash sentou-se, muito perfilado, na beira do banco. Pareceu lembrar-se de uma coisa, de algo que se faz quando não se tem nada a dizer. Tirou um maço de "Players", do bolso interno do paletó. — Aceita um... cigarro? — Abriu o maço com a unha não muito limpa, tirou o papel prateado e puxou os cigarros para fora. A moça aceitou. A outra mão de Nash apresentou um isqueiro com a rapidez obsequiosa de um vendedor de carros.
Nash olhou para Bond, que pensava, encostado à porta, como por à vontade um sujeito tão desajeitado. Nash ofereceu-lhe os cigarros e o isqueiro, como se oferecesse colares de contas para um cacique. — E você, meu velho?
— Obrigado — respondeu Bond. Detestava fumo da Virgínia, mas estava disposto a fazer qualquer coisa para por o outro à vontade. Aceitou um cigarro e acendeu-o. O Serviço Secreto estava utilizando uns tipos muito esquisitos. Como se sairia esse tipo na sociedade semidiplomática que precisava frequentar em Trieste?
Bond disse, um tanto desajeitado: — Você parece estar em boa forma, Nash. Pratica tênis?
— Natação.
— Está há muito tempo em Trieste?
O lampejo vermelho tornou a surgir. — Há três anos.
— Trabalho interessante?
— Às vezes. Sabe como é, meu velho.
Bond procurou um jeito de fazer com que Nash parasse de chamá-lo de "meu velho". Não conseguiu. Fez-se o silêncio.
Nash achou que era novamente a sua vez. Tirou do bolso um recorte de jornal. Era a primeira página do "Corriere delia Será". Passou-o a Bond. — Já viu isto? — Os olhos faiscaram e tornaram a ficar inexpressivos.
Era o cabeçalho principal. As letras em negrito ainda estavam frescas. Dizia:
TERRIBILE ESPLOSIONE IN ISTANBUL
UFFICIO SOVIÉTICO DISTRUTTO
TUTTI I PRESENTI UCCISI
Bond não conseguiu compreender o resto. Dobrou o recorte e devolveu-o. Quanto saberia esse homem? O melhor era tratá-lo como simples guarda-costas, e nada mais. — Que tragédia — disse. — Devia ter sido o encanamento de gás. — Bond reviu o bojo da bomba presa ao teto da saleta no túnel, os fios que passavam pelas paredes úmidas até ao detonador fixado na gaveta da escrivaninha de Kerim. Quem o teria acionado na tarde anterior, depois de haverem recebido o aviso de Tampo? O "chefe dos escriturados"? Ou teriam feito um sorteio e depois visto o detonador ser acionado e ouvido a tremenda explosão na rua dos Livros, situada na colina próxima? Deviam estar todos reunidos na sala. Com os olhos brilhantes de ódio. As lágrimas seriam reservadas para a noite. Primeiro, era necessária a vingança. E os ratos? Quantos teriam explodido junto com o túnel? A que horas teria acontecido? Mais ou menos às quatro. Estariam os russos na sua reunião habitual? Três haviam sido mortos. Quantos mais estariam no edifício? Talvez fossem amigos de Tatiana. Era preciso ocultar-lhe essa notícia. E Darko teria visto de alguma janela no além? Bond podia ouvir a grande gargalhada de triunfo ecoar pelas paredes. De qualquer forma, Kerim estava vingado.
Nash o encarava. — É, deve ter sido um encanamento de gás — disse sem interesse.
Ao longo do corredor, ouviram o tilintar de uma sineta que se aproximava. "Deuxième Service. Deuxième Service. Prenez vos places, s'il vous plait."
Bond olhou para Tatiana. O rosto dela estava pálido. Havia em seus olhos um apelo para que a livrasse daquele sujeito desajeitado e pouco "kulturny". Bond falou: — Que tal almoçarmos? — Ela ergueu-se, imediatamente. — E você, Nash?
O capitão Nash já se levantara. — Já almocei, obrigado. Quero fazer a inspeção do trem. O chefe é... sabe? — Fez um gesto com os dedos, como se contasse dinheiro.
— Oh, sim, ele está pronto a cooperar — respondeu Bond. Apanhou a pequena maleta pesada. Abriu a porta para Nash. — Até logo.