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O capitão Nash saiu para o corredor. Respondeu: — Sim, até logo. — Virou à esquerda e caminhou pelo corredor, equilibrando-se bem com o balanço do trem, com as mãos enfiadas nos bolsos das calças e a luz incidindo sobre as ondas miúdas do cabelo louro, colado à nuca.

Bond seguiu Tatiana pelo corredor. Os vagões estavam repletos de pessoas que voltavam para casa após as férias. Nos corredores da terceira classe, muitos sentavam sobre a bagagem enquanto chupavam laranjas e comiam sanduíches de salame. Os homens lançaram olhares admirados a Tatiana, quando ela passou. As mulheres analisaram Bond, enquanto imaginavam se ele seria bom amante para a companheira.

Chegados ao carro-restante, Bond pediu dois sanduíches americanos e uma garrafa de "Chianti Broglio". Foram servidos os excelentes "hors d'oeuvres" europeus. Tatiana começou a animar-se.

— Tipo engraçado, aquele — disse Bond, enquanto ela tirava a comida das travessas. — Mas estou satisfeito que tenha vindo. Terei oportunidade de dormir um pouco. Quando chegar em casa. vou dormir durante uma semana, a fio.

— Não simpatizei com ele — observou a jovem, com indiferença. — Não é "kulturny". Não confio nos olhos dele.

Bond riu. — Ninguém é suficientemente "kulturny", para você.

— Já o conhecia antes?

— Não, mas pertence à mesma organização que eu.

— Qual foi mesmo o nome que ele deu?

— Nash. Norman Nash.

Ela soletrou: — N,A,S,H? É assim?

— Certo.

A jovem parecia intrigada. — Espero que saiba o que isso quer dizer em russo. "Nash", significa "nosso". Nos nossos serviços, quando um homem é "Nash", é dos "nossos". É "svoi" quando pertence ao inimigo. E esse homem diz chamar-se Nash. Isso não é bom.

Bond riu. — Ora, Tatiana. Você arranja motivos extraordinários para não gostar das pessoas. Nash é um nome muito comum na Inglaterra. Não há perigo. Pelo menos, ele é suficientemente forte para o fim desejado.

Tatiana fez uma careta. Continuou a almoçar.

Foi servido um prato de "tagliatelli verdi", acompanhado de vinho, e seguido por um gostoso "escalope". — Oh, que delícia! — disse ela. — Desde que saí da Rússia, só penso no estômago. — Seus olhos se arregalaram. — Não deixe que eu engorde muito, James. Vai deixar que eu engorde ao ponto de não servir mais para ser amada? Você precisa tomar cuidado. Do contrário, não farei outra coisa senão comer e dormir. Você me baterá, se eu comer demais?

— É claro que a espancarei.

Tatiana enrugou o nariz. Ele sentiu os tornozelos dela roçarem nos seus. Os grandes olhos fitaram-no, longamente. As pestanas baixaram com modéstia. — Por favor, pague a conta — disse ela. — Estou com sono.

O trem estava chegando a Maestre. Via-se o começo dos canais. Uma gôndola cheia de legumes atravessava, vagarosamente, um deles em direção à cidade.

— Mas, logo estaremos em Veneza — protestou Bond. — Não quer ver?

— Será apenas mais uma estação. Poderei ver Veneza em outra oportunidade. Agora, quero que me ame. Por favor, James. — Tatiana inclinou-se para a frente. Colocou sua mão sobre a dele. — Dê-me o que desejo. Temos pouco tempo.

Voltaram à cabine cheia da maresia que entrava pela vidraça meio aberta, de cortina agitada pelo vento. Novamente, formaram-se duas pilhas de roupas, no chão, e os dois corpos uniram-se em cima do banco, as mãos acariciando vagarosamente. E permaneceram unidos até o angustiado grito final, no momento em que o trem, ingressando nos desvios, chegava à estação de Veneza.

Fora da cabine, houve uma confusão da chamados, ruídos metálicos e passos abafados que se confundiram no sono.

Passaram por Pádua e Vicenza, até que um fulgurante por do sol dardejou em ouro e rubro pelas frestas da cortina. A sineta tornou a soar ao longo do corredor. Bond vestiu-se, saiu para o corredor e apoiou-se no corrimão. Contemplou a luz que se esvaía sobre a planície da Lombardia e pensou sobre Tatiana e o futuro.

O rosto de Nash apareceu refletido ao lado do seu. Ele chegou tão perto que o seu cotovelo tocou no de Bond. — Parece que descobri um dos vermelhos, meu velho — disse, baixinho.

Bond não se surpreendeu. Tinha a impressão de que, se algo devia acontecer, seria nessa noite. Quase com indiferença, perguntou: — Quem é?

— Não sei o nome certo, mas já passou uma ou duas vezes por Trieste. Creio que é da Albânia. Deve ser o diretor-residente de lá. Viaja com passaporte norte-americano: "Wilbur Frank". Faz-se passar por banqueiro. Está no n.° 9, bem ao seu lado. Não creio estar enganado a respeito dele.

Bond fitou os olhos que se destacavam no rosto moreno. A porta da fornalha estava aberta, novamente. O clarão vermelho surgiu e tornou a extinguir-se.

— Foi bom que o descobrisse. Esta noite pode ser perigosa. É melhor que fique conosco, daqui por diante. Não podemos deixar a moça sozinha.

— Foi o que pensei.

Jantaram. A refeição foi feita em silêncio. Nash sentou-se ao lado da jovem e conservou os olhos fixos no prato. Segurava a faca como se esta fosse uma caneta e limpava-a, frequentemente, ao guardanapo. Seus movimentos eram desajeitados. Em meio ao jantar, foi pegar o saleiro e derrubou o copo de "Chianti" de Tatiana. Desculpou-se profusamente. Fez questão de pedir outro copo e de enchê-lo.

O café foi servido. Dessa vez, a desastrada foi Tatiana. Derramou a xícara. Ficou muito pálida e respirava com dificuldade.

— Tatiana! — Bond começou a levantar-se, mas foi o capitão Nash quem se ergueu de um salto e a socorreu.

— A senhora não se sente bem — disse. — Com licença. — Passou um braço em volta da jovem e ajudou-a a erguer-se. — Eu a acompanho à cabine. Traga a maleta. E não se esqueça da conta. Ficarei com ela até que você chegue.

— Estou bem, protestou Tatiana, articulando as palavras com a dificuldade produzida pela semi-inconsciência. — Não se preocupe, James. Vou-me deitar. — Sua cabeça pendeu sobre o ombro de Nash. Este passou-lhe o braço pela cintura e conduziu-a, rápida e eficientemente, pelo corredor apinhado do carro-restaurante.

Bond chamou o garçom, com impaciência. Pobre pequena! Devia estar exausta. Por que não pensara no esforço que ela estava dispendendo? Recriminou-se por seu egoísmo. Graças a Deus, havia Nash. Sujeito eficiente, embora desajeitado.

Bond pagou a conta. Pegou a pesada maleta e caminhou o mais rápido que pôde pelos vagões repletos.

Bateu de leve na porta do n.° 7. Nash abriu-a. Saiu, tendo o indicador junto aos lábios. Tornou a fechar a porta. — Ela desmaiou — disse. — Agora, já está bem. As camas já haviam sido feitas. Ela dorme no leito superior. Creio que o esforço foi demasiado para ela.

Bond concordou. Entrou na cabine. Uma das mãos de Tatiana pendia muito pálida, por sob o casaco de marta. Bond subiu no leito inferior e delicadamente cobriu a mão dela com a ponta do casaco. A mão estava gelada. A jovem nem se mexeu.

Bond desceu cuidadosamente. Era melhor que ela dormisse. Saiu para o corredor.

Nash dirigiu-lhe um olhar vago. — Bem, acho melhor nos acomodarmos para a noite. Já peguei o meu livro. — Ele ergueu-o. — "Guerra e Paz". Há anos que tento terminá-lo. Durma no primeiro turno. Parece estar exausto. Irei acordá-lo, quando não aguentar mais ficar acordado. — Fez um gesto com a cabeça, em direção ao n.° 9. — Ainda não apareceu. Não creio que o faça, se estiver planejando alguma coisa. — Fez uma pausa. — A propósito: tem alguma arma?

— Sim. Por quê? Você não tem?

Nash fez um gesto de desculpas. — Sinto, mas não trouxe. Tenho uma "Luger" em casa, mas é volumosa demais para se usar.

— Está bem — disse Bond, com certa hesitação. — É melhor que fique com a minha. Entre.

Passaram à cabine. — Bond fechou a porta. Pegou a "Beretta" e deu-a ao outro. — Tem oito balas — disse em voz baixa. —. É semi-automática. Está travada.

Nash pegou a arma e examinou-a com ar de entendido, como se a pesasse. Destravou a arma e tornou a travá-la.