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— Mas, por que escolher a mim?

— Não sei. Dizem que você é muito cotado na sua organização. A maneira pela qual vai ser morto vai desmoralizá-la por completo. Levaram três meses para organizar o plano, e saiu uma lindeza. Só podia. A SMERSH tem cometido alguns erros, ultimamente. O caso Khoklov foi um. Lembra-se da cigarreira que explodiu e todo o resto? Deram o cargo ao homem errado. Deviam tê-lo dada a mim. Eu não teria passado para o lado dos norte-americanos. Mas voltemos ao caso. Temos um grande planificador na SMERSH: é um homem chamado Kronsteen. Grande jogador de xadrez. Ele disse que o melhor seria explorar a sua vaidade e ambição e dar uns toques de audácia ao plano. Disse, também, que todos vocês são loucos por um toque audacioso, em Londres. E foi verdade, não foi, meu velho?

Fora mesmo? Bond lembrou-se de como a excentricidade do caso lhe despertara a curiosidade. E a vaidade? Sim, devia admitir que a idéia de que uma jovem russa estava apaixonada por ele havia ajudado. E também o "Spektor". Fora o toque finaclass="underline" a ambição de consegui-lo. Disse, em tom casuaclass="underline" — Estávamos interessados.

— A seguir, veio a execução do plano. Nossa chefe de Operações é um tipo estranho. Creio que já matou mais gente do que qualquer outra pessoa no mundo. Ou, pelo menos, mandou matar. Sim, é mulher. O nome dela é Klebb: Rosa Klebb. Um verdadeiro animal. Mas conhece todos os truques.

Rosa Klebb. Então, a chefe da SMERSH era mulher! Se ele, ao menos, pudesse escapar desta situação e chegar até ela! Os dedos da mão direita de Bond crisparam-se.

A voz monótona continuou: — Bem, ela descobriu a Romanova. Treinou-a para desempenhar o seu papel. A propósito, que tal é ela na cama? É boa?

Não! Bond não podia crer. A primeira noite podia ter sido planejada. Mas, e depois? Não. Depois, fora sincero. Aproveitou a oportunidade para sacudir os ombros. O movimento foi exagerado. A fim de acostumar o outro àquele gesto.

— Bem. Não me interesso, pessoalmente, por essas coisas. Mas eles tiraram lindos flagrantes de vocês dois. — Nash bateu no bolso do paletó. — Tenho um rolo completo de 16 milímetros. Depois, vou colocá-lo na bolsa da pequena. Vai ser um sucesso quando for reproduzido nos jornais. — Nash riu: sua risada era áspera e metálica. — Naturalmente, terão de cortar os melhores pedaços.

A mudança dos quartos no hotel. O apartamento nupcial. O grande espelho atrás da cama. Tudo isso era parte do plano! Bond sentiu as mãos úmidas pela transpiração. Enxugou-as nas calças.

— Calma, meu velho. Quase levou, agora. Avisei-o para não se mover, lembra-se?

Bond tornou a colocar as mãos sobre o livro que estava em seu colo. Como poderia aumentar, gradualmente, os seus movimentos? Até que ponto poderia ir? — Prossiga com a história — disse. — A jovem sabia que estávamos sendo filmados? Sabia que a SMERSH estava por trás de tudo isto?

Nash grunhiu. — É lógico que ela ignorava estar sendo filmada. Rosa não lhe depositava a menor confiança. É demasiado sentimental. Mas não sei muito a esse respeito, Todos nós trabalhamos em secções separadas. Hoje, foi a primeira vez que a vi. Sei, apenas, o que ouvi falar. Sim, ela sabia que estava trabalhando para a SMERSH. Disseram-lhe que ela precisava ir a Londres para, de lá, fornecer informações.

"Pobre tolinha", pensou Bond. Porque não o avisara de que a SMERSH estava envolvida no caso? Devia ter medo de, até mesmo, pronunciar esse nome. Pensou que ele a prenderia, ou coisa desse gênero. Dizia sempre que lhe contaria tudo quando chegassem à Inglaterra. Que devia ter fé e não temer. Fé! Quando ela mesma não tinha a menor idéia do que a aguardava! Pobre pequena! Fora tão ludibriada quanto ele. Mas qualquer informação teria sido suficiente. Talvez houvesse poupado a vida de Kerim. E quanto à dela e à sua própria?

— Depois, foi preciso eliminar o seu amigo turco. Deve ter dado trabalho. Sujeito valente. Deve ter sido o seu grupo que fez explodir o nosso centro em Istambul, na tarde de ontem. Isso vai causar um certo pânico.

— É lamentável.

— Não me preocupo. O meu serviço vai ser fácil.

— Nash lançou um rápido olhar ao seu relógio de pulso.

— Dentro de uns vinte minutos entraremos no túnel Simplon. É o lugar marcado para a execução. Mais noticiário para os jornais. E uma bala para você, quando entrarmos no túnel. Apenas uma, no coração. O barulho do túnel ajudará, no caso de você ser dos tipos barulhentos para morrer: cirro e coisas desse estilo. Depois, meto uma bala na nuca da pequena, com a sua arma e, atiro-a pela janela. Depois, outro tiro em você, dessa vez com a sua arma. Naturalmente, o revólver estará na sua mão. Haverá bastante pólvora na sua camisa. Suicídio. É o que irá parecer a princípio. Mas haverá duas balas no seu coração. Isso será descoberto mais tarde. O mistério aumenta! Tornam a dar uma busca no túnel Simplon. Quem era o homem louro? Encontrarão o filme dentro da bolsa dela e, no seu bolso, haverá uma carta da moça para você, em estilo ameaçador. Foi muito bem feita. Foi escrita pela SMERSH. Nela está escrito que ela está disposta a entregar o filme aos jornais, a menos que se case com ela. Diz, também, que lhe prometeu casamento, se ela roubasse o "Spektor"... — Nash fez uma pausa e aduziu: — A propósito, o "Spektor" contém uma armadilha. Quando os técnicos começarem a manejá-lo, voarão todos pelos ares. Será uma boa colheita. — Nash deu um risinho inexpressivo. — A carta diz ainda que tudo que ela tem a oferecer-lhe é o aparelho e o seu corpo; e descreve, então, as intimidades de vocês dois. Esse trecho é de pegar fogo! Compreendeu? Que tal a história que vai ser publicada nos jornais da ala esquerda, que serão avisados para esperar o trem? Essa história tem de tudo: Expresso do Oriente. Linda espiã russa assassinada no túnel Simplon. Filme pornográfico. Aparelho secreto para decifrar códigos. Simpático espião inglês, com a carreira arruinada, mata a amante e comete suicídio. Sexo, espionagem, expresso de luxo, o sr. e a sra. Somerset!... Vai dar assunto para muitos meses. Qual caso Khoklov, qual nada! Este vai abafá-lo. E que golpe para o famoso Serviço Secreto Britânico! Logo o melhor agente, o famoso James Bond! Que confusão! Depois, lá se vai pelos ares o aparelho de código! O que é que o seu chefe vai pensar de você? E o público, que pensará? E o governo? E os norte-americanos? Quem ousará falar em segurança? Os ianques deixarão de tantos segredos atômicos. — Nash fez uma pausa para causar mais efeito. Acrescentou, com uma pontinha de orgulho: — Esta será a história do século!

Sim, pensou Bond. Ele tinha absoluta razão. Os jornais franceses fariam tamanho alarido que não seria mais possível encobrir o fato. Não teriam escrúpulos quanto à publicação das fotos e dos detalhes. A imprensa mundial os seguiria. E o "Spektor!" Será que os auxiliares de M., ou a "Deuxième", terão o bom-senso de desconfiar de uma armadilha? Quantos dos melhores criptógrafos ocidentais seriam destruídos ao lidarem com ele? Meu Deus, precisava sair dessa encrenca. Mas como?

A parte superior da lombada de "Guerra e Paz", o livro de Nash, bocejava em sua direção. Era preciso planejar. O trem faria um barulho ensurdecedor, ao entrar no túnel. Depois, ouviria o "click" abafado que detonaria a bala. Os olhos de Bond procuraram, em meio à semi-obscuridade violácea, o vulto sentado a um canto do leito inferior, ao mesmo tempo que localizava seu estojo de viagem, que estava no chão. Imaginava qual seria o primeiro gesto de Nash, depois que houvesse disparado.

Perguntou: — Você se arriscou muito vindo procurar-me em Trieste. E como conhecia o código do mês?

Nash respondeu, pacientemente. — Você não parece compreender, meu velho. A SMERSH é eficiente, realmente eficiente. Não há organização melhor. Conhecemos os seus códigos do mês, para o ano inteiro. Se os componentes do seu departamento prestassem mais atenção, como nós fazemos, veriam que, todo o mês de janeiro, perdem um dos seus agentes de menor importância, em lugares como Tóquio ou Timbuctu. A SMERSH escolhe um, ao acaso, e o rapta. Depois, consegue obrigá-lo a dizer o código para o ano todo. Naturalmente, ele dirá tudo o que sabe, além disso. Mas é o código o que realmente interessa. Depois, todos os centros são notificados. Como vê, é muito simples.