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Seria um golpe arriscado. Bond tentou, desesperadamente, lembrar-se de seus conhecimentos de anatomia. Quais eram os lugares mortais no corpo humano? Por onde corria a artéria principal, a femoral? Pelo lado interno da coxa. E a ilíaca externa, se é que era esse o seu nome, que se convertia na femoral? Pelo centro da virilha. Se errasse esses dois pontos, estaria perdido. Bond não tinha a pretensão de derrotar esse gigante, num combate a mão livre. O primeiro golpe da faca devia ser decisivo.

As pontas dos sapatos, moveram-se. Apontavam em direção ao leito. Que estaria ele fazendo? Não se ouvia outro som que não fosse o trepidar metálico produzido pelo trem ao atravessar o túnel Simplon, bem no âmago de Wasehorn e do Monte Leone. O copo, sobre a pia, tilintou. As madeiras rangiam baixinho. De ambos os lados da cabine, havia pessoas que dormiam, ou permaneciam acordadas pensando em suas vidas e seus amores, fazendo planos para o futuro, imaginando quem iria esperá-los na gare de Lyon. E, nessa mesma ocasião, no fundo do corredor, a morte viajava com eles. Através do túnel escuro, puxada pela mesma "Diesel", percorrendo os mesmos trilhos.

Um dos sapatos marrons levantou-se do solo. Devia ter atravessado por cima de Bond. O arco vulnerável devia estar bem acima de sua cabeça.

Os músculos de Bond retesaram-se como os de uma serpente. Sua mão direita aproximou-se da costura falsa do estojo. Apertou a mola. Apalpou o cabo estreito da faca. Puxou-a devagar para fora, sem mexer o braço.

O calcanhar marrom ergueu-se do solo. O peso do corpo apoiou-se sobre a ponta do pé.

Depois, o segundo sapato desapareceu do campo de visão.

Agora, era preciso dar o impulso certo, segurando a faca com firmeza, o fim de que ela não se desviasse ao encontrar um osso, e depois...

O corpo de Bond ergueu-se do chão, em violenta viravolta. A faca brilhou.

Bond lançou o punho armado com toda a violência, aumentada pelo impulso do braço e do ombro, para cima. Os dedos bateram contra a calça de flanela. Continuou a segurar a faca, empurrando-a mais para dentro.

Ouviu um desesperado grito de agonia. A "Beretta" caiu ao chão. A faca foi arrancada da mão de Bond, quando o outro se contorceu convulsivamente e caiu com violência.

Bond havia previsto a queda, mas, quando se desviou para perto da janela, foi alcançado por uma das mãos de Nash num golpe que o lançou ao leito inferior. Antes mesmo que pudesse recobrar-se, o rosto ameaçador do seu antagonista surgiu à sua frente, com os dentes arreganhados desferindo reflexos violáceos. As mãos imensas avançaram para agarrá-lo, no ritmo lento da agonia.

Meio deitado, Bond lançou o pé, às cegas. Seu pé encontrou o alvo, mas sentiu-se agarrado e puxado para baixo.

Os dedos de Bond procuraram segurar-se ao estofamento do leito. Sua coxa foi agarrada. Sentiu as unhas do outro cravarem-se nela.

O corpo de Bond estava sendo torcido e puxado para baixo. Temia os dentes que se aproximavam. Arremessou a outra perna. Mas não conseguiu nada. Continuou a cair.

De repente, os dedos de Bond encontraram algo sólido. O livro! Como funcionaria? Qual seria o lado certo? Quem seria o atingido: ele ou Nash? Em desespero, Bond ergueu-o em direção ao rosto suarento do outro. Calcou a base da lombada.

Clique! Bond percebeu o recuo da arma. Clique-clique-clique! Sentiu o calor sob os dedos. As mãos que lhe aprisionavam as pernas tornaram-se frouxas. O rosto suarento afastou-se. Da sua garganta ergueu-se um som gargarejante e medonho. Depois, o corpo escorregou e despencou ao chão, a cabeça batendo violentamente contra a madeira.

Bond permaneceu deitado respirando com dificuldade, por entre os dentes. Olhou para a lâmpada violeta que brilhava sobre a porta. Reparou que o filamento da mesma piscava. Passou-lhe pela mente a idéia de que o dínamo do vagão devia estar com defeito. Apertou os olhos para poder focalizar melhor a luz. O suor que escorria fê-los arder. Continuou deitado sem fazer coisa alguma.

O ruído das rodas do trem mudou. Parecia agora menos intenso. Com um último rugido, o Expresso do Oriente tornou a sair para o luar e diminuiu de velocidade.

Bond levantou, vagarosamente, a ponta da cortina. Viu armazéns e desvios. Algumas luzes brilhavam refletidas nos trilhos. Luzes fortes. As luzes da Suíça.

O trem parou pouco a pouco.

O silêncio pesado foi cortado por um pequeno barulho oriundo do chão. Bond amaldiçoou-se por não se haver certificado. Curvou-se para a frente e escutou. Segurou o livro, fazendo pontaria, como medida de precaução. Não viu nenhum movimento. Bond pôs a mão sobre a jugular de Nash. Não sentiu pulsação. O homem estava realmente morto. O ruído fora provocado pelo enrijecimento do cadáver.

Bond tornou a sentar-se e esperou com impaciência que o trem recomeçasse a andar. Havia muito que fazer. Até mesmo antes de socorrer Tatiana, precisava providenciar a limpeza.

Depois de um solavanco, o expresso começou a deslizar. Em breve, estaria percorrendo rapidamente a região dos Alpes, ingressando no Canton Vaiais. Podia-se notar um novo som nas suas rodas, um novo ímpeto, como se estivesse satisfeito de ter deixado o túnel.

Bond pôs-se de pé, passou por cima das pernas do cadáver e acendeu a luz.

Que imundície! A cabine parecia um açougue. Quantos litros de sangue haveria no corpo humano? Lembrou-se. Cinco litros. Em breve, estariam todos derramados no chão. Contanto que não passasse para o corredor! Bond retirou os lençóis do leito inferior e pôs-se a trabalhar.

Finalmente, deu por terminado o serviço: as paredes haviam sido lavadas em volta do vulto coberto no chão e as maletas estavam prontas para o desembarque em Dijon.

Bond bebeu uma jarra de água. Depois, subiu no leito inferior e sacudiu, delicadamente, o ombro coberto pelo casaco de peles.

Não obteve resposta. Teria o homem mentido? Teria ela sido morta pelo veneno?

Colocou sua mão contra o pescoço da jovem. Estava quente. Bond pegou-lhe o lóbulo da orelha e beliscou-o com força. Ela mexeu-se, preguiçosamente, e resmungou. Bond tornou a beliscar a orelha por diversas vezes. Finalmente, uma voz abafada protestou: — Não faça isso.

Bond sorriu. Sacudiu-a. Continuou a sacudi-la, até que Tatiana se voltou para ele. Seus grandes olhos azuis, sonolentos, fitaram-no e tornaram a fechar-se. — Que é que você quer? — A voz era pastosa e irritada.

Bond falou com ela, ralhou e praguejou. Sacudiu-a com mais violência. Afinal, ela sentou-se. Olhou-o de maneira vaga. Bond puxou-lhe as pernas para fora, de maneira a penderem do leito. Conseguiu arrastá-la até ao leito inferior.

A aparência de Tatiana era péssima: a boca flácida, os olhos mortiços e pesados, o cabelo revolto e úmido. Bond procurou ajeitá-la, usando uma toalha molhada e um pente.

Passaram por Lausanne e, uma hora depois, chegaram à fronteira francesa de Vallorbes. Bond deixou Tatiana e saiu para o corredor, como medida de precaução. Mas os fiscais da Alfândega e dos passaportes passaram por ele em direção à cabine do chefe do trem e, depois de cinco minutos, dirigiram-se para outro vagão.

Bond voltou à cabine. Tatiana tornara a adormecer. Bond consultou o relógio de Nash, que usava agora em seu pulso: 4h30. Faltava, ainda uma hora para chegarem a Dijon. Bond reiniciou seu trabalho.

Por fim, os olhos de Tatiana abriram-se, despertos. As pupilas estavam mais ou menos centradas. Disse: — Pare com isso, James — Tornou a fechar os olhos.

Bond enxugou o suor que lhe escorria pelo rosto. Levou as malas, uma a uma, até ao fim do corredor, e empilhou-as perto da porta de saída. Depois, dirigiu-se ao chefe do trem e disse-lhe que "Madame" não se sentia bem e, portanto, desceriam em Dijon.

Bond deu ao chefe uma última gorjeta. — Não se incomode — disse. — Já tirei toda a bagagem, a fim de não perturbar "Madame". Meu amigo, aquele homem louro, é médico. Passou a noite toda conosco. Está dormindo no meu leito. Estava exausto. Peço o obséquio de não acordá-lo senão quando faltarem dez minutos para chegar a Paris.