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O caos foi intenso, mas breve. Em poucos minutos os aldeãos perceberam que o cerco se havia fechado em definitivo sobre eles e que qualquer tentativa de fuga era de imediato travada pelas balas punitivas. As pessoas ergueram as mãos com os corpos encolhidos por instinto, os olhares assustados a tentarem interpretar as intenções dos soldados.

"Tudo para o centro!", ordenou Angelino, sentindo que a situação estava enfim controlada.

"Vamos!"

Samuel repetiu a ordem em nhungué e os comandos começaram a empurrar os aldeãos na direcção indicada. A multidão, resignada, convergiu obedientemente para a grande clareira; um mar de mãos estendidas para o céu juntava-se no centro da aldeia, como se ali se ensaiasse uma estranha coreografia de adoração ao Sol.

"Homens para ali!", ordenou o comandante da 6.a Companhia, apontando para a direita.

"Mulheres para o outro lado!"

Samuel traduziu e a multidão obedeceu. Naquela mistura desordenada de gente estabeleceu-se um esboço de organização; os homens afluíram para o lado que lhes havia sido indicado e as mulheres e as crianças seguiram para o outro, deixando um corredor livre a separar os dois grupos.

"Sentem-se!"

Homens, mulheres e crianças acomodaram-se no chão da clareira; os poucos que falavam faziam-no em voz baixa. Percebendo que a população estava domada e completamente submetida, Angelino olhou à volta e cobriu todo o espaço ao alcance do seu campo de visão, preocupado com assegurar-se de que os seus homens cumpriam o plano previamente estabelecido. Alguns comandos cercavam a multidão, as armas ameaçadoramente em riste, enquanto outros se mantinham de guarda atrás das cubatas no limiar da aldeia, de modo a evitarem qualquer ataque pelos flancos.

Percebeu que tinha homens a mais a controlar uma multidão já passiva e que havia outras tarefas prioritárias que era necessário completar o mais depressa possível.

"O que estão vocês aí parados a fazer?", perguntou a um punhado de subordinados. "Revistem as palhotas!

Os comandos afastaram-se em passo de corrida, espraiando- se pela aldeia. O comandante da 6.a Companhia passou os olhos atentos em redor e constatou que estava tudo finalmente em ordem.

Satisfeito, fez sinal aos dois homens da DGS e depois olhou interrogadoramente para Diogo.

"Vens?"

"Onde?"

"Vou inspeccionar as posições do meu pessoal", explicou Angelino. "Não quero cá surpresas."

O amigo hesitou. Estava tentado a seguir o comandante, conforme aliás ficara combinado previamente, mas nunca tinha visto a DGS em acção num interrogatório e queria saber como era.

"Deixa estar", decidiu. "Eu fico."

*Os dois operacionais da DGS, Francisco e Maurício, aguardaram que Angelino se afastasse para cruzarem o cordão de comandos. Passaram mesmo ao lado de Diogo e só se detiveram quando chegaram à beira dos habitantes da aldeia. O silêncio na clareira de Wiriyamu tornara-se absoluto.

"Viram bandido aqui?", perguntou Francisco.

As cabeças dos populares abanaram num movimento de negação que parecia sincronizado.

"Não, patrão."

"Isso é mentira!", rugiu o homem da DGS, erguendo a voz e falando com o sotaque local para facilitar a compreensão. "Há bandido aqui! Os turra andam aqui na aldeia! Atacam a tropa!

Disparam sobre avião! Eles andam aqui! Onde estão os turra?"

A multidão permaneceu silenciosa, receando provocar a ira daquele homenzarrão branco com fama de ter um temperamento violento. Francisco esperou ainda um instante, os olhos pequenos a saltitar entre um aldeão e outro, como se tivesse o poder de assim lhes arrancar a verdade. Nem um único olhardos aldeãos se cruzou porém com o seu; todos evitavam o contacto com os olhos do interrogador.

"Há turra na aldeia!", insistiu Francisco. "Onde está ele? Aponta para mim quem aqui é bandido!"

Os populares mantiveram-se calados, os olhos pousados no chão ou a passear apreensivamente pelos soldados que os cercavam. O homem da DGS impacientou-se e carregou as sobrancelhas, assumindo uma expressão ainda mais ameaçadora.

"Se vocês não apontam é porque vocês também são bandido! Ouviram? Se não dizem onde estão os turra é porque vocês são os turra!" Fez uma pausa, deixando a ameaça assentar. "Onde estão os turra?"

Sentindo a tensão crescer, a multidão agitou-se, nervosa, mas ninguém disse nada. Cruzavam-se olhares e apenas isso. Francisco respirou fundo, preparando-se para avançar para os grandes meios, e estudou o rosto dos homens mais velhos. Um deles parecia ocupar uma posição dominante e, pela forma como os restantes o rodeavam, o interrogador percebeu que só podia ser o chefe da aldeia.

"Tu aí", indicou. "Como te chamas?"

"Wiriyamu."

"Es o fumo Wiriyamu?"

"lá, patrão."

Fez-lhe com o dedo sinal de que se levantasse e aproximasse. O homem obedeceu e foi ter com o interrogador da DGS.

"Onde estão os turra?"

"Aqui não há turra, patrão."

"Claro que há turra!", cortou Francisco com rispidez. "Maningue turra, até!" Mudou de repente o tom de voz, como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer. "Disseram-me que o Raimundo anda por aqui. Onde está ele?"

O homem abanou a cabeça com ênfase.

"Eu não vi, patrão."

"O Mendes dos cabritos diz que marcou encontro com o Raimundo ali junto à pedra tombonhapangara."

O fumo hesitou um tudo-nada, evidentemente surpreendido por essa informação estar na posse do seu interrogador.

"Eu... eu não sei nada, patrão."

Francisco fixou o chefe da aldeia com intensidade, tornando claro que não se sentia minimamente satisfeito com as respostas que até ali lhe haviam sido dadas e muito menos convencido de tanta ignorância em relação à presença de guerrilheiros no sector. E a hesitação do fumo quando lhe falou no encontro de Mendes com os guerrilheiros provava que os aldeãos lhe estavam a ocultar coisas.

"Não sabes nada de nada?...", murmurou com uma tranquilidade sinistra, o tom de voz carregado de sarcasmo ameaçador. "Não viste o Raimundo por aqui? Não viste nenhum turra?"

"Nada, patrão."

"Estás-me a partir a vista!"

"Não estou, patrão. Aqui não tem turra."

O agente da DGS voltou a cabeça para a clareira, como se procurasse alguma coisa, e indicou um espaço vazio molhado por água tirada de um poço.

"Vai para ali e rebola no matope."

O homem arregalou os olhos, sem entender.

"Como, patrão?"

Francisco indicou o local com veemência, o braço estendido a apontar para o espaço.

"Rebola no matope!"

Espantado com a ordem, o fumo caminhou para a abertura na clareira e deitou-se no solo molhado. Olhou para Francisco para ver se era aquilo que queria e o interrogador fez-lhe sinal com o dedo de que girasse. O homem começou a virar-se para um lado e para outro, rolando pela terra enlameada. Os soldados desataram a rir, divertidos com o caricato de ver um chefe a rebolar e a dar cambalhotas, a pele negra coberta já de lama cor de laranja. Não havia muitas diversões no mato e aquele espectáculo inesperado era do mais engraçado que haviam presenciado nos últimos tempos.

Francisco deixou correr a cena durante alguns momentos, também ele divertido com a figura do fumo da aldeia a cabriolar pela lama, até que, percebendo que não podia desperdiçar muito tempo, fez ao homem sinal para parar.

"Levanta-te!", ordenou. "Se queres viver, foge!"

O fumo não percebeu o sentido da última frase, mas parou as cambalhotas e ergueu-se, expectante.