"Ouve, Sheila", disse. "Precisamos de ti aqui."
"Mas porquê eu, doutor?"
"Um dia hás-de compreender."
A observação deixou Sheila sem saber o que dizer. Um dia haveria de compreender?
Compreender o quê? Tudo o que sabia é que tinha dezanove anos, estava grávida e o director e a enfermeira-chefe a haviam arrastado para um campo de batalha. Mas também percebia que naquele instante não havia nada a fazer, encontrava-se ali e não tinha volta a dar. Deixou-se por isso levar sem oferecer mais resistência.
A paisagem revelava-se de uma desolação desconcertante. O silêncio da bicharada era total; apenas o ronco teimoso do jipe preenchia o vazio perturbador. Mas o mais inquietante era a atmosfera que ali reinava. O ar parecia denso, quase misterioso, tão pesado que dava até impressão de oferecer resistência à lenta progressão da viatura. Custava respirar e uma certa coloração amarelo-torrado toldava o dia, pintando-o de tonalidades sinistras.
A atmosfera pesada parecia conferir àquele local um ambiente místico. O jipe progredia em esforço e aos solavancos, quase contrariado, e no meio daquela desolação, à medida que desfilavam mais e mais palhotas queimadas e corpos carbonizados, os três ocupantes da viatura pressentiam que nada voltaria a ser o mesmo nas suas vidas. Haviam cruzado uma fronteira invisível e penetrado numa nova dimensão, surreal e temível; um ponto para além do qual tudo mudava. O
médico e a freira percebiam o que estavam a ver, percebiam-no bem de mais, mas nenhum transformava esse entendimento em palavras, como se a simples articulação verbal do que observavam lhes estivesse vedada.
"Doutor."
A voz com sotaque espanholado da freira rompeu o silêncio pesado, devolvendo um traço de humanidade àquele momento irreal.
"O que é, Lúcia?"
A enfermeira-chefe apontou para uns destroços à direita.
"Está a ver aquele ali? Dios, parece que se mexeu..."
"Você viu?"
"Sim. Pienso que bay sobreviventes."
José Branco deteve o jipe, puxou o travão de mão e desligou-o. O silêncio mais absoluto instalou-se naquele troço; nem os pássaros nem os insectos se faziam ouvir, como se também eles tivessem sido exterminados. Parecia que o ar se enchera de vazio. O médico e a freira apearam-se e caminharam em direcção aos destroços, os passos a reverberarem com sons surdos na terra castanho-escura. Fazia calor, mais ainda do que em Tete, e a paisagem árida e quente do solo, recortada pelo perfil hercúleo dos embondeiros, contrastava com o céu azul-claro que as tiras brancas das nuvens rasgavam nas alturas.
Perturbada por se ver arrastada para aquele local infernal, Sheila deixou-se ficar no seu lugar, a observar os acompanhantes afastarem-se. Enquanto caminhava, José Branco examinava o vulto que a enfermeira-chefe lhe indicara. O corpo parecia imóvel, mas, quando se chegou a uns cinco metros de distância, apercebeu-se de que tremia como se estivesse enregelado.
"Tem razão!", constatou. "Está vivo!"
Precipitaram-se para o corpo. Tinha queimaduras graves e a pele esfolada, sobretudo nas costas em carne viva, mas não havia dúvidas de que não estava morto.
"É una mujer, doutor", constatou a irmã Lúcia.
Assim era, confirmou o médico, que estranhou a posição da sobrevivente. Encontrava-se de cócoras e enroscada sobre si mesma. Apercebendo-se de que ela estava consciente, José Branco pôs-lhe com cuidado as mãos no tronco e tentou erguê-la, mas aquela posição tornava a tarefa muito difícil.
"Assim não é possível!", exclamou em frustração. "Ela tem de se desenrolar para a podermos levar para o jipe."
Percebendo o problema, a irmã Lúcia tentou que ela se desenroscasse, começando por lhe puxar um braço, mas a mulher gemeu de medo e lutou por permanecer enrolada sobre si mesma.
"No entiendo."
O médico endireitou-se e olhou para o jipe.
"Sheila!", chamou, fazendo um gesto peremptório com a mão. "Anda cá!"
A enfermeira apeou-se com relutância e aproximou-se da palhota onde se acumulavam os corpos. A devastação era absoluta e Sheila teve de fazer um esforço para dominar o medo e continuar a caminhar.
"O que é, doutor?"
José Branco fez sinal em direcção à mulher de cócoras.
"Temos de pô-la no jipe mas ela está a resistir", explicou. "Explica-lhe que a queremos ajudar.
Ela que se desenrosque para a podermos levar."
Sheila pousou os olhos na mulher e constatou, pasmada, que aquele corpo em carne viva ainda respirava; tremia descontrolada, como se tivesse frio. A posição era estranha e a enfermeira percebeu que a paciente teria de facto de a desfazer para poder ser transportada para a viatura.
Ajoelhou-se diante da mulher e inclinou-se para a cabeça, junto ao ouvido direito.
"Tabuera d'zacutandizani" , murmurou. "Viemos aqui para ajudar. Deixa-nos levar-te para o carro."
A mulher permaneceu imóvel, embora os tremores tivessem abrandado; era evidente que estava consciente e entendera o que lhe fora dito. Encorajada, Sheila voltou a inclinar-se na direcção do ouvido da paciente.
"O doutor Branco é um homem de paz e a irmã Lúcia também", murmurou de novo em nhungué. "Queremos levar-te para o hospital para tratar de ti. Anda, vem comigo."
O gemido voltou um pouco mais prolongado. A mulher começara a chorar baixinho e Sheila trocou um olhar aliviado com o médico. Ambos perceberam que era um choro de rendição; a sobrevivente acreditara nas palavras que lhe haviam sido ditas na sua língua.
A enfermeira pegou numa mão da paciente e puxou-a com cuidado. Dessa feita ela não resistiu e deixou o braço abrir-se. Depois foi a vez de deixar ir o outro braço. A mulher soluçava de mansinho e as três figuras que a rodeavam viram emergir do seu corpo dobrado um vulto sombrio.
"Que é isto?", assustou-se Sheila, dando um salto para trás.
José Branco inclinou-se ainda mais e tentou identificar aquele vulto.
"O filho!", exclamou. "Ela estava a proteger o filho!"
Um menino escuro e delgado rolou para fora, os olhos remelosos e assustados. José pegou nele e estudou-o. Aparentava um ano de idade e tinha o cabelo chamuscado e as mãos e os pés com queimaduras ligeiras, mas à parte isso parecia intacto.
"Pobrecita!" , disse Lúcia. "Protegia o nino!"
A criança deu uns passos titubeantes e voltou para trás, agarrando-se à mãe. O médico fez um sinal a Sheila e a enfermeira pegou na mulher e ajudou-a a caminhar para o jipe enquanto segurava a criança com a outra mão.
"Vai falando com ela para lhe dar estímulo", recomendou José. "Mantém-na desperta, ouviste?"
Era difícil transportar os dois sobreviventes naquelas condições e, após uns passos, a jovem enfermeira voltou-se para trás, num gesto de protesto, mas viu o médico já de costas a auscultar um segundo corpo. Sheila virou-se para a irmã Lúcia, que entretanto se afastara, e ia pedir-lhe ajuda quando se apercebeu, com horror, de que a freira estava com um bisturi a abrir o ventre de uma grávida morta. Com um movimento rápido, a espanhola tirou das entranhas do cadáver um corpo minúsculo e sentiu-lhe a pulsação. Um longo instante depois pousou o corpo do bebé, sinal de que constatara que estava morto, desenhou uma cruz no ar, ergueu o hábito e limpou as mãos ensanguentadas às vestes brancas.
Sheila tomou consciência nesse momento de que cada um tinha ali a sua função; a sua era levar os dois sobreviventes para o jipe e ajudá-los o melhor que podia, o que enfim fez com calma.