"O senhor está a falar de Nicole?"
"Doutora Thorn", corrigiu-o. "Doutora Nicole Thorn. Uma prenda dos serviços secretos rodesianos. Boa médica, boas tetas, boa informadora. Como acha o senhor que eu soube imediatamente da assistência que prestou ao turra que encontrou no mato, do pretinho que pôs num quarto particular do hospital... eu sei lá, de tudo?" Suspirou, simulando melancolia. "é pena que o doutor a tenha largado. Perdeu umas grandes quecas e nós ficámos sem uma magnífica informadora."
José abanou a cabeça.
"O senhor devia ter vergonha..."
Aniceto Silva afinou a voz.
"Quem devia ter vergonha era o doutor." Endireitou-se na cadeira. "Mas chega desta conversa, que não nos leva a lado nenhum. O que foi o senhor fazer à aldeia?"
O médico sentia-se atordoado com a descoberta do papel de Nicole e a magnitude da dissimulação de que fora vítima. Como pudera ser tão parvo? Mas, ao ouvir a pergunta do inspector, a imagem do que vira em Wiriyamu varreu-lhe a rodesiana da mente.
"Qual aldeia?", perguntou sibilino, recuperando o sangue frio. "Aquela onde a tropa matou uma data de civis inocentes?"
Com um gesto brusco e quase instantâneo, o homem da DGS apontou-lhe o dedo, como se o tivesse apanhado a dar um passo em falso.
"Vê como está a fazer política?"
O tom acusador suscitou um esgar de espanto no médico.
"A fazer política? Qual política? Fui ontem a uma aldeia prestar assistência médica a uma população que foi massacrada pela tropa. O que eu fui lá fazer foi simplesmente o meu trabalho.
Nem mais, nem menos. Agora não escondo que fiquei chocado com o que lá vi. Mataram civis inocentes a tiro e à granada, e isso..."
"Como sabe que eram inocentes?"
"Bem... eu vi crianças mortas. Eram culpadas de quê?"
O inspector abanou a cabeça, recusando-se a deixar que a discussão seguisse por aquele caminho.
"A aldeia estava contaminada pelo in, doutor. Neste momento os turras encontram-se por todo o distrito e os únicos sectores não infectados são, ao que sabemos, a cidade de Tete e o perímetro de Cabora Bassa. A tropa faz o que pode para tentar readquirir o controlo da situação."
"Mas... matar crianças?"
Aniceto Silva encolheu os ombros.
"Bem sei, é terrível. Aqueles homens andavam já há muito tempo no mato e vieram tresloucados. Ainda por cima, apanharam na véspera uma emboscada naquele sector e, sendo comandos, estavam furiosos. Como é evidente, ninguém os mandou matar civis, não é verdade?
Nem é assim que o exército português combate. Mas o que está feito está feito. Agora queremos pôr uma pedra sobre este assunto."
Fez-se silêncio no gabinete, apenas quebrado pelo rumor letárgico do aparelho de ar condicionado na sua interminável batalha contra o calor.
"Não percebo o que deseja de mim", disse por fim José. "Agora vai repreender-me por ter tratado dos sobreviventes?"
O inspector da DGS prendeu um cigarro entre os lábios e acendeu-o com um isqueiro prateado.
"Quero pedir-lhe que não conte a ninguém o que viu", disse enquanto exalava uma baforada cinzenta. "O senhor fez o seu trabalho, aceito isso perfeitamente. Agora mantenha o bico calado."
A ordem fez José sorrir sem vontade.
"O senhor sabe muito bem que sou obrigado a escrever um relatório sobre tudo o que faço enquanto médico. Considerando a gravidade do que observei, diria que a minha obrigação é acrescida pelas circunstâncias."
"A sua obrigação é com a pátria."
"Talvez, mas não só. E, porém, também por causa da pátria que tenho de escrever o relatório."
Aniceto Silva aspirou de novo o cigarro, os olhos perdidos no infinito enquanto contemplava as suas opções. Depois desprendeu o fumo devagar e deixou-o adejar paulatinamente no ar, como se se deslocasse em câmara lenta.
"O senhor não percebe que um relatório desses vai embaraçar as Forças Armadas?", disse então.
"Pior ainda, vai embaraçar Portugal."
O médico abanou a cabeça.
"O que embaraça Portugal não é o meu relatório, mas o comportamento dos nossos soldados."
"Alguns soldados, doutor", corrigiu-o o homem da DGS, sempre num registo tranquilo, a ameaça contida no tom falsamente sereno que imprimia às palavras. "Desvairados."
"Admito que sim. Mas não há modo de negar que fizeram o que fizeram."
"Não lhe peço que negue. Peço-lhe apenas que se cale. A bem da nação."
José Branco baixou os olhos e contemplou as unhas, como se de repente a sujidade que trazia entranhada nos dedos fosse o grande problema do momento.
"Sabe, inspector, desde miúdo que ando a tentar perceber o que é isso do bem", disse de forma pausada, meditando em cada palavra que pronunciava. "De certo modo foi essa busca que me levou a esta profissão. Apercebi-me de que um médico é uma pessoa que faz o bem. O bem das pessoas ou, como o senhor diz, o bem da nação. O bem, porém." Inclinou-se na cadeira, os olhos presos no inspector. "Mas afinal o que é isso do bem? Se antes da guerra Hitler estivesse a morrer e eu o tivesse salvo, será que tinha praticado o bem? Se eu ajudar um amigo a obter um emprego, estarei a fazer o bem? Então e a outra pessoa que deixa de ir para esse emprego só porque pus lá o meu amigo? Ao fazer o bem a uma pessoa não estou a fazer o mal à sua concorrente ou às suas futuras vítimas?"
O inspector remexeu-se no seu lugar, impaciente.
"Onde quer o senhor chegar com essa conversa?"
"O que quero dizer é que a questão do bem e do mal sempre gerou mais perplexidades do que certezas." José recostou-se na cadeira. "O que é o bem e o que é o mal? Todos nós intuímos estes conceitos, mas a sua definição precisa escapa-nos. Até hoje." Apontou para a janela. "Tive a resposta a este enigma no momento em que vi o mal naquela aldeia. Vi-o impregnado nos corpos carbonizados que se espalhavam pelos escombros, vi-o quando me questionei sobre o que levaria os homens a fazerem uma coisa tão cruel. E depois deparei-me com uma criança que saiu viva e intacta de baixo do corpo queimado de uma desgraçada que os soldados quase haviam morto e percebi que há coisas que o mal, por mais que tente, não poderá conquistar. O amor daquela mãe foi mais poderoso do que o mal daqueles homens. Mas só agora, enquanto estava aqui a ouvi-lo falar, é que consegui transformar em palavras a ideia que desde então me andava a ruminar na mente." Cravou de novo os olhos penetrantes no seu interlocutor. "Sabe o que na verdade é o mal?"
Sentindo-se incomodado com a intensidade daquele olhar, Aniceto Silva abanou a cabeça.
"O doutor, agora não", disse. "Poupe-me a essa conversa."
"É a incapacidade de nos pormos no lugar do outro. Quando os soldados matam mulheres e crianças como quem mata formigas, estão possuídos pelo mal porque não conseguem pôr-se no lugar das vítimas, não conseguem perceber a posição delas nem sentir o que elas sentem. O mal é a incapacidade de imaginar os sentimentos do outro e de os sentir como se pudéssemos ser nós."
Deixou o olhar vaguear pelo gabinete, detendo-se aqui e ali. "O bem é por-mo-nos no lugar do outro. E actuar em conformidade, claro." José voltou a mirar o seu poderoso interlocutor. "E é por isso, caro inspector Silva, que não posso deixar de escrever o meu relatório. Esse texto será um acto de amor e quero escrevê-lo para que as pessoas se possam pôr no lugar das vítimas. Para que os responsáveis por aquele horror se envergonhem. Para que o amor derrote o mal."
O chefe distrital da DGS em Tete revirou os olhos com enfado e respirou fundo, como um saco que se esvazia. Abriu as mãos em sinal de impotência e deixou-as tombar sobre a mesa; parecia um juiz a martelar a madeira no momento soberano da sentença.