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José suspirou, percebendo a fúria da enfermeira-chefe mas sentindo-se impotente para resolver o problema. Deu meia volta e regressou devagar ao seu gabinete para concluir as consultas. Logo que chegara a Tete havia percebido que o distrito era demasiado vasto para a capacidade da assistência sanitária de que dispunham e esse problema começou a pesar-lhe sobremaneira a partir do momento em que, semanas antes, assumira a direcção do hospital.

A responsabilidade inerente às suas novas funções fazia-o voltar uma e outra vez à mesma questão, em particular quando se perdia uma vida que se teria podido salvar se a assistência tivesse sido mais célere. A solução evidente seria aumentar a capacidade do serviço, mas o problema é que isso era incomportavelmente caro. Além do mais, onde encontraria ele pessoal com qualificações suficientes para reforçar os quadros e distribuir em número adequado por todo o distrito? Tudo isso lhe parecia irrealista. Porém, sentia que não tinha o direito de se conformar com aquela situação. Que fazer? Será que poderia...

"Docíor!?"

A voz num inglês nasalado arrancou-o das suas cogitações e trouxe-o de volta ao presente.

Encontrava-se no corredor do hospital e uma fila de pacientes aguardava o momento da consulta no seu gabinete. O homem que o interpelara estava a meio da fila de espera e tinha ar de rodesiano ou sul-africano, com cabelo branco e um chapéu à cowboy.

"Diga."

O homem dedilhava o chapéu com movimentos nervosos.

"Doctor, eu sou American e trabalho no Cabora Bassa", apresentou-se, num português trapalhão e com sotaque muito forte. "Apanhei um diarreia e preciso ser vista."

"Com certeza", indicou José. "Quando chegar a sua vez vamos ver isso com cuidado, está bem?"

O americano indicou a dezena de pessoas que se encontravam à sua frente na fila.

"Mas eles vão ser vistas primeiro que eu?"

"Chegaram antes de si?"

"Sim, mas... mas são niggers", exclamou, elevando a voz num crescendo de indignação. "Onde já se viu os brancos ficarem atrás dos niggers? Isto no América não é possible! Como podem vocês atender os niggers primeiro que um branco?"

José Branco revirou os olhos. Ainda instantes antes havia aguentado a fúria de Lúcia em luso-castelhano pela cobertura sanitária deficiente do distrito e agora tinha de aturar um camone em luso-bife que queria passar à frente dos restantes pacientes. Que mais lhe reservaria o dia?

Respirou fundo e, ignorando o americano, seguiu para o seu gabinete e sentou-se à secretária, de onde pousou o olhar subitamente fatigado no idoso cuja consulta havia interrompido minutos antes.

"Onde íamos nós?"

O calor na rua era uma constante em Tete e, como o interior dos automóveis se tornavam verdadeiros fornos durante o dia, desceu a janela e contemplou o Zambeze. A tomada de posse nas novas funções implicou várias alterações na sua vida, a mais agradável das quais foi a mudança de casa. O casal Branco largou o apartamento na esquina perto do Hotel Zambeze e transferiu-se para a residência do director, uma agradável vivenda no topo da colina onde fora erguido o hospital.

Diante da nova casa podia ver-se a cidade lá em baixo e apreciar uma deslumbrante vista sobre o rio.

Ligou o motor e pôs o Opel em movimento. Passou diante do hospital e desceu a rua até ao centro da cidade. O calor era insuportável, pelo que esticou a cabeça para fora. O vento da viatura em movimento bateu-lhe quente na face, como se fosse soprado pelo próprio Sol, mas sempre constituía um alívio para o ardor inclemente que parecia incendiar o ar.

Tinha nessa tarde uma consulta na PIDE, a cujos funcionários dava assistência médica regular, mas antes precisava de satisfazer um compromisso de última hora. Meteu pela Avenida Armindo Monteiro, a estrada junto ao rio, e dirigiu-se ao seu destino, os olhos atentos às direcções, a mente a divagar pelo problema dessa manhã. Havia perdido um paciente porque a assistência sanitária no distrito era uma boa porcaria. A questão obcecava-o, sobretudo desde que assumira a direcção do hospital, mas tinha plena consciência de que não havia solução para ela.

A imagem de um hangar à direita despertou-o dos seus pensamentos. Viu o portão aparecer de repente e enfiou o Opel por ali.

"Então, doutor?", saudou-o o engenheiro Pontes, que o esperava junto ao portão. "Não teve dificuldade em dar com o nosso aeroporto internacional, pois não?"

O médico reagiu à ironia com um sorriso e apeou-se do carro.

"Em Tete não é difícil dar-se com nada", disse, esticando-se para descontrair os músculos.

Depois varreu o hangar com os olhos, apreciando a dimensão dos edifícios. "Então é aqui que a Missão de Fomento esconde os seus tecotecos?"

"E verdade", anunciou o director da Missão. "Quer dar uma olhada às nossas instalações?"

"Presumo que o vosso doente tenha pressa de ser atendido..."

Era essa a razão pela qual José havia sido chamado de urgência ao hangar da Missão de Fomento e Povoamento do Zambeze. A pessoa que lhe telefonara para casa tinha falado em suspeitas de paludismo, mas o engenheiro Pontes não se mostrava particularmente preocupado naquele momento.

"O tipo pôs-se a dormir", disse, puxando pelo braço do médico. "Enquanto o gajo não acorda, venha daí! Ande ver a maravilha que são as nossas engenhocas voadoras."

O braço largo do rio descia ali perto, vasto e majestoso, reflectindo o Sol numa miríade trémula de cintilações, como se o espelho da água fosse coberto por um manto reluzente de jóias. Pisaram o alcatrão da pista e José contemplou vários aparelhos imóveis na placa. Havia dois helicópteros na berma e, mais adiante, dois aviões, um pequeno com um motor no nariz dentro do hangar e no exterior um maior, com dois motores; no seu silêncio e imobilidade pareciam cavalos a dormir de pé.

"Caramba", exclamou o médico. "Isto é que é uma frota! Qualquer dia a Missão de Fomento faz concorrência à DETA e aos táxis aéreos do Guerra, hem?"

"E isto não é tudo", disse o engenheiro. "Temos ainda um outro avião, mas agora está em Chicoa."

"Para que precisam vocês de tanta geringonça?"

Entraram no hangar e o engenheiro conduziu-o na direcção de um pequeno gabinete. Na parede havia um grande mapa a representar o distrito de Tete.

"Por causa das nossas brigadas", respondeu Pontes, aproximando-se do mapa. "Não sei se sabe, mas por causa de Cabora Bassa a Missão vai mudar de nome. Daqui a uns tempos passaremos a ser o GPZ, ou Gabinete de Planeamento do Zambeze. A nossa função é inventariar os recursos existentes no vale e, dada a situação de guerra, reorganizar o povoamento das populações do distrito."

"Não percebo. Que quer dizer com isso?"

"Quero dizer que vamos erguer aldeamentos por toda a parte e meter lá as populações. Os militares dizem que é para as proteger melhor, mas quer-me cá parecer que isso é conversa. O que eles pretendem é controlar o pessoal, está a ver? Mas, enfim..."

"E se as pessoas não quiserem ir para lá?"

O engenheiro encolheu os ombros.

"Isso é um problema dos militares", esclareceu. "A nós compete-nos apenas planear e construir os aldeamentos. Para fazer esse trabalho espalhámos brigadas por toda a parte. Temos malta no Furancungo, em Chicoa, no Chinde... em todo o lado. O chato é que o distrito é enorme, como já deve ter reparado. De modo que arranjámos esta frota para reabastecer as nossas brigadas. Uma vez que as estradas são péssimas e o território gigantesco, os aviões fazem o serviço na perfeição.