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"Vou chamar o enfermeiro Moscoso", prometeu. "Aparece no posto daqui a meia hora, está bem?"

A patrulha saiu ao princípio da tarde com um guia do aldeamento. Apesar de ter chegado poucas semanas antes ao Chioco e de ser Chaparro o furriel com mais experiência, Diogo assumiu o comando da patrulha. A frente ia o guia e logo atrás seguia ele, a G3 sem bandoleira e sempre apoiada nos antebraços com um dedo colado ao gatilho, e depois vinham os restantes soldados.

Chaparro transportava uma pesada HK 21, uma metralhadora de tripé com tiro particularmente nutrido, embora de manuseamento menos fácil devido ao volume e ao peso.

Meteram por um trilho em fila indiana, os olhos sempre atentos a qualquer mina ou movimento suspeito no capim. Caminharam durante uma hora em silêncio, as raras palavras sopradas em sussurro. Diogo ia embrenhado nos seus pensamentos, e sobretudo na visão que tivera junto do arame farpado quando fora levar a comida ao mainato. A negra do pilão ficara- lhe na retina, mas não sabia ainda lidar com a situação.

"Olha lá, ó Chaparro", disse de repente, voltando-se para trás. "Como é no aquartelamento com... com as gajas?"

O furriel de Redondo fez um ar admirado.

"Quais gajas?"

"Ó pá, nós temos um aldeamento ao lado do aquartelamento, não temos? O aldeamento está cheio de gajas. Qual é o esquema com elas?"

"As pretas? Não há esquema nenhum. Se te meteres com uma delas, vais contra as normas."

Diogo fez uma careta descrente.

"Oh, isso são as normas... Mas como é a coisa na verdade? Consegue-se dar umas pinocadas?"

"Conseguir, consegues", disse Chaparro com um encolher de ombros. "As tipas não se armam em esquisitas e se puderem ferram-te mesmo o dente. Um branco é um passaporte para outra vida, não é? O problema é se a coisa se sabe. O capitão chama-te logo e vais ter chatices por violares as normas."

Diogo meditou um instante sobre o que acabara de ouvir.

"Mas que raio de normas são essas?", quis saber. "Quando fiz a recruta na Metrópole li os regulamentos de uma ponta à outra e não me lembro de ver lá nada sobre isso. Onde estão essas normas escritas?"

Chaparro riu-se baixinho.

"Ó palerma, estou a falar de normas de conduta. Um militar decente não se mete com as indígenas."

A observação deixou Diogo a pensar. Caminharam mais algum tempo num silêncio pensativo, o furriel com os olhos no caminho mas a mente na negra do pilão. O corpo exigia-lhe que se aproximasse dela, mas percebia que se o fizesse a coisa saber- se-ia, num meio tão pequeno. Isso pelos vistos não o ajudaria a conquistar a simpatia do capitão, o que lhe poderia valer chatices e talvez alguns trabalhos indesejáveis, a começar pela limpeza das latrinas.

"Portanto", disse cinco minutos depois, retomando a conversa como se ela nunca tivesse sido interrompida, o que até era verdade no que dizia respeito ao diálogo que não cessara na sua mente.

"Quanto a gajas, não há nada para ninguém!..."

"Quer dizer... podes sempre arriscar, não é? O problema não é comer uma preta, é ser apanhado a comê-la."

"Já despachaste alguma?"

O furriel voltou a rir-se.

"Não posso dizer!..." "Vá lá."

"Olha, se queres comer uma gaja sem arranjar chatices com a hierarquia, vai ao Maxim."

"Que é isso?"

"E a boite de Tete." Sorriu. "O local preferido dos camaradas que a ditosa pátria desterrou neste buraco. Entras no Maxim e aquilo é um mar de fardas. E gajas boas, claro."

"Costumas ir lá?"

Foi a vez de Chaparro se manter momentaneamente calado, como se ponderasse o que podia ou devia revelar.

"Ó Paulo de Carvalho", acabou por dizer, "onde pensas tu que apanhei a porra destes chatos?"

O guia ergueu de repente a mão, fazendo sinal para parar. O grupo de combate imobilizou-se, a atenção aguçada e os olhos a dardejarem em todas as direcções. Diogo aproximou-se do homem.

"Que se passa?"

"Picada minada, patrão."

O furriel examinou o trilho, esforçando-se por destrinçar a presença de qualquer dispositivo suspeito, mas nada detectou.

"Onde?"

"À frente", indicou o guia, dizendo o óbvio. Fez sinal para o capim em redor. "Melhor dar volta pelo mato."

Diogo lançou um novo olhar perscrutador ao trilho, mais uma vez sem resultados. Na dúvida, porém, parecia-lhe melhor fazer o que o guia dizia; a mina podia estar escondida por baixo de folhas ou ser accionada por um fio esticado no caminho. A verdade é que não tinha maneira de saber e se o guia dizia que via ali uma mina talvez não fosse má ideia admitir essa possibilidade.

Ergueu o braço e fez sinal ao grupo de combate para que o seguisse fora da picada. Indicou ao guia que mostrasse a direcção e acompanhou-o pelo capim, contornando o trilho. Andaram assim pelo mato cerrado em fila indiana durante algumas centenas de metros até que o guia retomou a picada num ponto mais à frente e prosseguiram caminho.

Ainda intrigado, o furriel tomou nota do troço no mapa e inquiriu Chaparro.

"Viste ali alguma mina?"

"Não."

"Então como pode ele ter dito que aquele troço estava minado?"

Chaparro suspirou, como se achasse a pergunta ingénua, e fez uma curta pausa para considerar o melhor modo de explicar as coisas àquele furriel checa.

"Olha lá, onde é que o guia vive?"

"No aldeamento."

"Que está infiltrado pelos turras, pá."

Mais do que surpresa, a revelação gerou no rosto de Diogo uma expressão de absoluta incredulidade.

"Estás a gozar!..."

"Achas que sim? Nunca ouviste os cães do aldeamento ladrar à noite? Nunca te interrogaste sobre o motivo por que o fazem?"

"Confesso que não..."

"Os cães ladram porque sentem os turras a entrar no aldeamento para dormir, pá. Os gajos dormem ao lado do nosso aquartelamento!"

A afirmação deixou Diogo perplexo. Todas as noites ouvia de facto os cães a ladrar, ainda na véspera isso havia acontecido, mas nunca prestara grande atenção ao caso.

"Ai sim? E o capitão sabe?"

"Finge que não sabe", sorriu Chaparro. "Mas toda a malta no Chioco tem perfeita noção do que se passa."

"Então porque não vamos lá buscá-los?"

"A quem? Aos turras? Para quê?"

Embora Diogo estivesse atónito com a sucessão de revelações, o que o deixava verdadeiramente estarrecido era sobretudo o facto de aquele militar se comportar como se tudo aquilo que estava a dizer fosse normal.

"Para os prender, claro!", exclamou, quase a elevar a voz. O guia lançou-lhe um olhar de repreensão e o furriel, percebendo que violara perigosamente as regras de silêncio da patrulha, baixou o tom. "Se sabemos onde os turras estão", sussurrou, "temos de os ir lá buscar!..."

"Achas que sim? E depois sabes o que nos acontece? Os gajos retaliam e põem-se a lançar morteiradas para o aquartelamento todas as noites e a vida torna-se um inferno."

"E então? A malta manda uma patrulha localizar os morteiros e acaba com eles."

"E os tipos montam-nos uma emboscada no caminho e depois cavam. Quando a patrulha chegar ao local já não estão lá os morteiros e quando regressar ao aquartelamento as granadas começam outra vez a cair. Toda a noite. E na noite seguinte também."

Apanhado no fogo cruzado da argumentação, Diogo sentiu- se enredado num colete-de-forças que lhe tolhia os movimentos. Suspirou de frustração e impotência.