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O rosto de Beenay revelava a sua preocupação.

— Se você soubesse, Theremon, como Athor fala com desprezo dos Apóstolos…

— Nesse caso, por que quer se encontrar com eles?

— Você mesmo não foi falar com Folimun?

— Isso é diferente. Certos ou não, os Apóstolos são notícia. Faz parte do meu trabalho descobrir o que pretendem.

— Pode ser que Athor pense da mesma forma — argumentou Beenay.

Foi nessa altura que decidiram encerrar a discussão. Ela estava ameaçando se transformar em uma briga, coisa que nenhum dos dois queria. Como Beenay de fato não tinha nenhuma ideia do tipo de entendimento a que Athor e Folimun pudessem ter chegado, Theremon não via nenhuma razão para insistir no assunto.

Mais tarde, porém, Theremon se deu conta de que tinha sido depois daquela conversa com Beenay que sua atitude com relação a Beenay, Sheerin e o resto do pessoal do Observatório começara a mudar. De um espectador simpático e curioso, transformara-se em um crítico impiedoso. Embora ele próprio tivesse ajudado a promover o encontro do diretor do Observatório com o Apóstolo, esse encontro agora lhe parecia uma rendição da pior espécie, uma capitulação ingênua por parte de Athor às forças da ignorância cega.

Embora jamais tivesse realmente chegado a acreditar nas teorias dos cientistas, apesar das supostas “provas” que lhe foram oferecidas, Theremon assumira uma posição neutra na sua coluna quando as primeiras notícias a respeito do eclipse começaram a aparecer na Crônica.

“É uma previsão notável”, escrevera ele, “e também assustadora — se verdadeira. Como afirma Athor 77, e com toda razão, uma Escuridão em escala mundial poderia levar a uma catástrofe de dimensões incalculáveis. Esta manhã, porém, do outro lado do mundo, uma voz discordante se fez ouvir. “Com todo o respeito pelo grande Athor 77”, declarou Heranian 1104, Astrônomo Real do Observatório Imperial de Kanipilitiniuk, “ainda não existem provas concretas da existência do astro chamado Kalgash Dois e muito menos de que esse astro seja capaz de causar um eclipse como o que foi previsto pelo grupo de Saro. Não devemos nos esquecer de que os sóis, mesmo um sol pequeno como Dovim, são necessariamente muito maiores do que qualquer corpo sem luz própria, como o suposto satélite. Considero extremamente improvável que um satélite possa bloquear por completo a luz de qualquer dos nossos sóis ……

Pouco depois, porém, veio o discurso de Mondior 71, no dia treze de Umilithar, no qual o Sumo Apóstolo declarou com orgulho que o maior astrônomo do mundo havia confirmado as palavras do Livro das Revelações. “A voz da ciência e a voz do céu agora são uma única voz”, dissera Mondior. “Em verdade eu vos digo: não depositeis vossa esperança em sonhos e milagres. O que tem que ser, será. Nada pode salvar o mundo da ira dos deuses, nada exceto o desejo sincero de renunciar ao pecado e à maldade e voltar ao caminho do bem e da virtude. ”

O pronunciamento bombástico de Mondior pusera fim à neutralidade de Theremon. Em consideração à amizade de Beenay, ele se esforçara para levar a sério a hipótese do eclipse. Agora, porém, começava a vê-la com outros olhos. Parecia que um grupo de cientistas, deixando-se levar pelo próprio entusiasmo e por uma série de coincidências e provas circunstanciais, estava apoiando a teoria mais absurda e sensacionalista da história da ciência.

No dia seguinte, a coluna de Theremon comentava: “O leitor deve estar se perguntando, como eu: como foi que os Apóstolos do Fogo conseguiram o apoio de Athor 77?

De todas as pessoas do mundo, o velho astrônomo deveria ser a última a concordar com as alegações pouco científicas daqueles fanáticos. Será que algum Apóstolo muito persuasivo conseguiu convencer o mestre com seus argumentos? Ou será simplesmente o caso, como andam cochichando atrás dos muros cobertos de hera da Universidade de Saro, de alguém que continuou na ativa quando já devia ter sido aposentado há algum tempo?

E aquilo foi apenas o começo.

Theremon agora sabia qual era o seu dever. Se as pessoas começassem a levar a sério aquela história de eclipse, os casos de colapso nervoso se multiplicariam, mesmo sem a Escuridão para provocá-los.

Se todos acreditassem que o mundo iria realmente acabar no dia 19 de Theptar, haveria pânico nas ruas muito antes daquela data, histeria universal, um colapso da lei e da ordem, um período prolongado de instabilidade e apreensão generalizada, seguidos por sabe lá que tipo de convulsão social, quando o dia temido passasse sem que nada acontecesse. Ele, como jornalista, tinha o dever de neutralizar o medo do Cair da Noite, da Escuridão, do Fim do Mundo, submetendo-o à lança afiada do ridículo.

Assim, quando Mondior vociferou que a vingança dos deuses estava a caminho, Theremon 762 replicou com imagens bem-humoradas de como seria o mundo se os Apóstolos conseguissem “reformar” a sociedade de acordo com sua doutrina: as pessoas indo à praia com trajes de banho até os tornozelos, longas sessões de oração antes dos eventos esportivos, todos os grandes livros e peças clássicas submetidos ao crivo impiedoso da censura para eliminar as passagens consideradas profanas.

E quando Athor e seu grupo divulgaram diagramas mostrando a órbita do invisível Kalgash Dois a caminho do seu encontro fatídico com a luz vermelha de Dovim, Theremon falou de dragões, gigantes invisíveis e outros monstros mitológicos cabriolando pelo céu.

Quando Mondior mencionou a autoridade científica de Athor 77 como argumento em apoio aos ensinamentos dos Apóstolos, Theremon respondeu perguntando como alguém poderia levar a sério as teorias de Athor 77, agora que o velho astrônomo havia perdido totalmente o juízo.

Quando Athor propôs um programa de emergência para armazenar alimentos, informações técnicas e científicas e tudo mais que pudesse ser necessário depois que a insanidade se disseminasse, Theremon observou que, em alguns lugares, a insanidade já se havia disseminado, e publicou uma lista de artigos essenciais a serem guardados no porão de todas as residências (“abridores de latas, percevejos, cópias da tabuada de multiplicar, dois baralhos… Escreva o seu nome em uma etiqueta e amarre-o no pulso direito, porque depois da Escuridão pode ser que você não se lembre mais dele… Amarre no pulso esquerdo uma etiqueta com os dizeres: Para saber qual é o seu nome, consulte a etiqueta que está no outro pulso… “)

Depois que Theremon escreveu vários artigos na mesma linha, ficou difícil para os leitores decidir que grupo era mais absurdo: os fanáticos profetas do desastre dos Apóstolos do Fogo ou os crédulos cientistas da Universidade de Saro. Uma coisa, porém, era certa: graças a Theremon, ninguém acreditava que algo fora do comum fosse ocorrer na noite do dia 19 de Theptar.

20

Athor olhou, furioso, para o repórter da Crônica. Conseguiu controlar-se com esforço.

— O senhor aqui? Depois de tudo que disse? É muita audácia!

Theremon havia estendido a mão como se realmente esperasse que Athor a apertasse. Logo, porém, recolheu-a e ficou olhando para o diretor do Observatório com surpreendente despreocupação.

Com a voz trêmula de raiva contida, Athor exclamou:

— Sua presença aqui esta noite é uma afronta!

De um canto do quarto, Beenay, depois de passar a língua nos lábios, interveio nervosamente:

— Professor, apesar de tudo…

— Foi você quem o convidou? Não sabe que proibi expressamente…

— Professor, eu…

— Quem me convidou foi a Dra. Siferra — disse Theremon. — Ela insistiu para que eu viesse.

— Siferra? Siferra? Não acredito. Ela disse-me há pouco tempo que o considerava um tolo irresponsável. Falou do senhor usando termos que eu não gostaria de repetir. – Athor olhou em volta. — A propósito: onde está ela? Devia estar aqui, não devia? — Ninguém disse nada. Voltando-se para Beenay, Athor disse: — Foi você que trouxe este jornalista, Beenay. Seu comportamento é inexplicável. Este não é momento para insubordinações. O Observatório está fechado para repórteres esta noite. E faz muito tempo que está fechado para este repórter em particular. Por favor, mostre-lhe a saída.