— Sr. Diretor — disse Theremon -, se me deixar explicar as razões…
— Nada do que tem a dizer poderia compensar o que escreveu diariamente em sua coluna durante os últimos dois meses. O senhor comandou uma vasta campanha jornalística com o objetivo de impedir que eu e meus colegas preparássemos o mundo para o perigo que teremos que enfrentar daqui a pouco. Fez o que pôde, com seus ataques altamente pessoais, para ridicularizar os funcionários deste Observatório.
Pegou na mesa um exemplar da Crônica e o brandiu, furioso, na direção de Theremon.
— Mesmo uma pessoa com a sua conhecida desfaçatez deveria hesitar antes de vir aqui pedir permissão para cobrir os acontecimentos de hoje para o seu jornal. De todos os repórteres, logo o senhor!
Athor jogou o jornal no chão, aproximou-se da janela e colocou os braços atrás das costas.
— Beenay, tire-o daqui.
A cabeça de Athor estava latejando. Era importante, ele sabia, manter a raiva sob controle. Não podia permitir que nada distraísse sua atenção do evento cataclísmico que estava para ocorrer. Olhou, pensativo, para a silhueta dos edifícios da cidade de Saro e procurou acalmar-se. Onos estava se pondo. Sua luz já era fraca por causa da proximidade do horizonte.
Athor sabia que jamais tornaria a vê-lo, em seu juízo perfeito.
A luz branca e fria de Sitha também era visível, baixa no céu, muito longe da cidade, no lado oposto do horizonte. Tano, o sol gêmeo de Sitha, já havia se posto.
Estava agora iluminando o céu do outro hemisfério, onde em breve ocorreria o fenômeno extraordinário de um dia de cinco sóis. O próprio Sitha estava para se pôr. Mais alguns momentos e desapareceria.
Atrás dele, ouviu Beenay e Theremon conversando em voz baixa.
— Esse homem ainda está aí? — perguntou, em tom ameaçador.
— Professor, acho que deveria ouvir o que ele tem a dizer — argumentou Beenay.
— Acha mesmo? Acha que eu deveria ouvi-lo? — Athor voltou-se para encarar o assistente. Seus olhos brilhavam de raiva. — Oh, não, Beenay. Não, é ele que vai me escutar! Fez um gesto peremptório para o jornalista, que não havia feito nenhuma menção de se retirar. — Venha cá, rapaz! Vai ter a sua reportagem.
Theremon aproximou-se devagar. Athor apontou para fora.
— Sitha vai se pôr a qualquer momento. Não, já se pôs. Onos também vai desaparecer em breve. Dos seis sóis, vai ficar apenas Dovim. Está vendo Dovim?
A pergunta era desnecessária. O pequeno sol vermelho parecia ainda menor naquela noite. Entretanto, estava quase no zênite, e sua luz rubra inundava a paisagem, produzindo um efeito extraordinário, enquanto os raios brilhantes de Onos desapareciam. O rosto de Athor refletia a luz de Dovim.
— Em pouco menos de quatro horas, a civilização, como a conhecemos, vai desaparecer — disse para o repórter. — Isto porque, como está vendo, Dovim será o único sol no céu. — Olhou para o horizonte com os olhos semicerrados. Os últimos raios amarelos de Onos haviam desaparecido. — Pronto. Dovim está só! Temos quatro horas, apenas, até tudo terminar. Escreva isto! Infelizmente, não haverá ninguém para ler.
— E se as quatro horas se passarem… e outras quatro… e nada acontecer? — perguntou Theremon, tranquilamente.
— Não se preocupe. Vai acontecer muita coisa, eu lhe asseguro.
— Talvez. E se não acontecer?
Athor parecia a ponto de perder a paciência.
— Se não for embora agora, e se Beenay se recusar a tirá-lo daqui, vou chamar os guardas da universidade e… Não. Na última noite de civilização, devemos agir de maneira civilizada. Tem cinco minutos, rapaz, para dizer o que deseja. Depois de ouvi-lo, caberá a mim decidir se pode ficar para ver o eclipse. Se eu decidir que não, irá embora na mesma hora. Entendeu?
Theremon hesitou apenas por um momento.
— É justo.
Athor tirou o relógio do bolso.
— Cinco minutos.
— Ótimo! Primeira coisa: que diferença faria se o senhor me permitisse assistir pessoalmente ao que está para acontecer? Se sua previsão se concretizar, minha presença não causará mal algum, pois, nesse caso, minha coluna jamais será escrita. Por outro lado, se nada acontecer, o senhor será forçosamente exposto ao ridículo ou coisa pior. Seria mais sábio deixar esse ridículo em mãos amigas.
Athor fez um muxoxo.
— Você quer dizer as suas?
— Claro que sim! — respondeu Theremon, sentando-se na cadeira mais confortável da sala e cruzando as pernas. Meus artigos podem ter sido um pouco agressivos, mas, sempre que possível, concedi à sua equipe o benefício da dúvida. Afinal de contas, Beenay é meu amigo. Foi através dele que fiquei sabendo o que estão fazendo aqui. O senhor deve lembrar-se que no começo encarei a pesquisa deste Observatório com muita simpatia. O que não compreendo, Dr. Athor, é como o senhor, um dos maiores cientistas de nossa história, pode voltar as costas ao fato de que o século atual representa o triunfo da razão sobre a superstição, dos fatos sobre as fantasias, do conhecimento sobre o medo. Os Apóstolos do Fogo são um anacronismo absurdo. O Livro das Revelações é um amontoado de bobagens infantis. Todas as pessoas inteligentes, todas as pessoas modernas, sabem disso. Por isso, as pessoas ficam surpresas, e até mesmo irritadas, quando os cientistas mudam de ideia e declaram que o que esses fanáticos estão pregando é verdade. Eles…
— Não me venha com essa — protestou Athor. — Embora parte dos nossos dados tenha sido fornecida pelos Apóstolos, nossas conclusões nada têm a ver com o seu misticismo. Fatos são fatos, e a chamada mitologia dos Apóstolos realmente se baseia em certos fatos. Não pense que esta descoberta nos trouxe prazer. Mas procuramos colocar as coisas nas devidas proporções e fizemos o possível para separar as advertências dos Apóstolos quanto a um desastre iminente, que consideramos legítimas, de seu programa absurdo para transformar e “reformar” a sociedade. Asseguro-lhe que os Apóstolos me odeiam ainda mais do que o senhor.
— Não odeio o senhor. Estou apenas tentando explicar-lhe que o público está de mau humor. Eles estão zangados.
Athor torceu a boca em um esgar de desdém.
— Que fiquem zangados!
— Está bem, mas e amanhã?
— Não haverá amanhã!
— E se houver? Imagine que haja, só para argumentar. Esse aborrecimento pode se transformar em algo mais sério. Afinal de contas, o senhor sabe, os negócios despencaram nos últimos dois meses. A bolsa de valores quebrou três vezes. Os investidores mais sensíveis não acreditam que o mundo esteja chegando ao fim, pensam que outros investidores podem começar a pensar assim, e os mais espertos vendam antes do pânico ter início… embora eles próprios desencadeiem esse início. Então eles compram de volta para vender de novo tão logo o mercado dê sinais de recuperação, reiniciando assim todo o ciclo. E o que acha que está ocorrendo com os negócios? O público também não acredita no senhor, mas a nova mobília também pode esperar alguns meses, por via das dúvidas. O senhor está vendo onde quero chegar. Assim que tudo estiver terminado, os comerciantes vão querer a sua pele. Vão alegar que se qualquer maluco, com o perdão da palavra, pode pôr em risco a economia da nação na hora que quiser, simplesmente fazendo uma previsão extravagante, está na hora de as autoridades tomarem alguma providência a respeito. A coisa vai ficar feia, diretor.