Athor olhou para o repórter com indiferença. Os cinco minutos estavam quase acabando.
— E o que o senhor propõe para remediar a situação?
— Bem… — Theremon sorriu -…o que tenho em mente é o seguinte: a partir de amanhã, serei o seu relações públicas extraoficial. Em outras palavras, farei o que estiver ao meu alcance para aplacar a ira do público, assim como tenho feito o que posso para aliviar a tensão que tomou conta do nosso povo nos últimos tempos. Se for necessário, cuidarei para que apenas o lado ridículo, o lado do humor apareça. Vai ser difícil de agüentar, reconheço, porque terei que fazer com que vocês todos fiquem parecendo um bando de idiotas, mas se eu conseguir que as pessoas riam, pode ser que esqueçam de ficar zangadas. Tudo que peço em troca é o direito de cobrir com exclusividade o que se passar no Observatório esta noite.
Athor não disse nada. Beenay fez que sim com a cabeça e desabafou:
— Professor, é uma proposta justa. Sei que consideramos todas as possibilidades, mas há sempre uma probabilidade de um em um milhão, de um em um bilhão, de que haja um erro em nossa teoria ou em nossos cálculos. E se houver…
Houve um murmúrio entre os funcionários reunidos na sala, e Athor teve a impressão de que concordavam com a opinião de Beenay. Será que todo o departamento se havia voltado contra ele? A expressão de Athor foi a de um homem que está com a boca cheia de uma substância amarga e não consegue se livrar dela.
— Deixá-lo ficar para que amanhã nos exponha ao ridículo? Deve estar pensando que fiquei senil, rapaz.
— Já expliquei ao senhor que minha presença aqui não fará a menor diferença — argumentou Theremon. — Se houver um eclipse, se a Escuridão realmente vier, darei a mão à palmatória e farei o que puder para ajudá-los a superar os momentos de crise que na certa se seguirão. E se nada acontecer, sou a pessoa mais indicada para protegê-los da ira popular…
— Por favor, deixe-o ficar, Dr. Athor — disse uma nova voz.
Athor virou a cabeça, surpreso. Siferra havia entrado sem ser notada.
— Desculpe o atraso. Tivemos um probleminha de última hora no departamento de arqueologia e… — Ela e Theremon trocaram olhares. — Por favor, não se ofenda — disse para Athor. — Sei que ele nos atacou de forma impiedosa. Mesmo assim, pedi-lhe para vir aqui esta noite, para constatar pessoalmente que estávamos com a razão. Ele é… ele é meu convidado, Dr. Athor.
Athor fechou os olhos por um momento. Convidado de Siferra! Era demais. Por que não convidar Folimun, também? E por que não, Mondior?
Mas ele tinha perdido a vontade de discutir. O tempo estava passando, e os outros pareciam não se incomodar com a presença de Theremon. Que importava?
Que importava qualquer coisa, agora?
Athor disse para o repórter, em tom resignado:
— Está bem. Fique, se é isso que quer. Fica entendido, porém, que sua presença não deve prejudicar de nenhuma forma nossas atividades normais. Lembre-se também de que sou o diretor deste Observatório, a despeito de sua opinião a meu respeito, que deixou tão clara em seus artigos, espero total cooperação e respeito…
21
Siferra aproximou-se de Theremon e disse:
— Na verdade, não esperava que viesse aqui esta noite.
— Por que não? Estava falando sério quando me convidou, não estava?
— É claro que sim. Mas você nos atacou com tanta veemência em seus artigos… de forma tão… cruel…
— “Irresponsável” foi a palavra que você usou — declarou Theremon.
Siferra enrubesceu.
— Irresponsável, também. Não imaginei que tivesse coragem de encarar o Dr. Athor depois das coisas horríveis que andou dizendo a respeito dele.
— Se as sombrias previsões do diretor se cumprirem, vou fazer mais do que encará-lo. vou ajoelhar-me diante dele e pedir perdão com toda a humildade.
— E se as previsões do Dr. Athor não se cumprirem?
— Nesse caso, ele vai precisar de mim — disse Theremon.
— Vocês todos vão. Este é o lugar certo para mim, esta noite.
Siferra olhou surpresa para o jornalista. Ele estava sempre dizendo coisas inesperadas. Ainda não sabia ao certo o que pensar dele. Não simpatizava com Theremon, é claro… e isto bastava. Sua profissão, sua maneira de falar, as roupas espalhafatosas que usava, tudo lhe parecia superficial e vulgar. Para ela, o repórter era um símbolo do mundo rude, grosseiro, árido, ordinário, repelente que havia do lado de fora dos muros da universidade e que sempre detestara.
No entanto, no entanto…
Havia algumas coisas em Theremon que era forçada a admirar, apesar de tudo. Por exemplo: o jornalista não descansava enquanto não conseguia o que queria. Isso agradava a Siferra. Era sincero a ponto de ser grosseiro, muito diferente dos intelectuais melífluos, hipócritas, sequiosos de poder com os quais estava habituada a conviver no campus. Era inteligente, também, quanto a isso não havia a menor dúvida, embora tivesse aplicado sua inteligência viva, especulativa, a um campo trivial como o jornalismo de escândalo. E respeitava seu vigor físico. Theremon era alto, forte e parecia estar em ótima forma. A arqueóloga jamais apreciara tipos franzinos.
Ela própria sempre praticara exercícios.
Na verdade, tinha que reconhecer (por mais estranho que fosse, por mais que isso a incomodasse) que sentia uma certa atração pelo jornalista. Uma atração de opostos? pensou. Sim, sim, talvez fosse isso. Mas não inteiramente. Por trás das diferenças superficiais, Siferra sabia que ela e Theremon tinham muita coisa em comum, mais do que estava disposta a admitir. Olhou pela janela, nervosa.
— Está ficando escuro. Não me lembro de um dia tão escuro.
— Está com medo? — perguntou Theremon.
— Medo da Escuridão? Oh, não. Mas estou com medo do que pode acontecer. Você devia estar, também.
— O que vai acontecer é que Onos vai nascer e depois os outros sóis, e tudo voltará a ser como antes.
— Você parece muito confiante.
Theremon riu.
— Onos nasceu em todas as manhãs de minha vida. Por que amanhã seria diferente?
Siferra sacudiu a cabeça. A teimosia do repórter estava começando a irritá-la. Era difícil acreditar que há poucos momentos estava dizendo a si própria que o considerava atraente.
— É claro que Onos vai nascer amanhã — disse, em tom glacial. — E seus raios vão iluminar uma cena de devastação que uma pessoa com sua imaginação limitada é evidentemente incapaz de conceber.
— Tudo em chamas, você quer dizer? E as pessoas babando e murmurando palavras sem nexo enquanto as cidades queimam?
— De acordo com os achados arqueológicos…
— Incêndios, sim. Vários holocaustos. Mas apenas em uma região limitada, a milhares de quilômetros daqui e há milhares de anos atrás. — Os olhos de Theremon brilharam com súbita vitalidade. — E onde estão as provas arqueológicas de que tenha havido uma insanidade coletiva? Está extraindo esta conclusão apenas dos incêndios? Como pode estar certa de que não se tratava de fogueiras rituais, acendidas por homens e mulheres em seu juízo perfeito, na esperança de que expulsassem a Escuridão e trouxessem os sóis de volta? Fogueiras que talvez tenham escapado de controle e causado grandes incêndios, sim, mas sem que isso implicasse em nenhuma perturbação mental dos habitantes…
Siferra olhou-o nos olhos.
— Nós temos as provas arqueológicas que você está reclamando. De que os habitantes sofreram algum tipo de perturbação mental, quero dizer.