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— Têm?

— Estão nas tabuinhas. Esta manhã, conseguimos traduzir algumas delas, com o auxílio dos Apóstolos do Fogo, e…

Theremon deu uma gargalhada.

— Com o auxílio dos Apóstolos do Fogo! Excelente! Quer dizer que você também se tornou uma deles! É uma pena, Siferra. Uma mulher com um corpo como o seu, e de agora em diante terá que se esconder por baixo daquelas vestes horrorosas…

— Theremon! — exclamou a arqueóloga, furiosa. — Você não leva nada a sério, não é? Está tão convencido de que é o dono da verdade que, ao ser confrontado com alguma coisa que não lhe agrada, arranja jeito de fazer uma piada sem graça! Você é mesmo impossível!

Deu-lhe as costas e foi para o outro lado da sala.

— Siferra… Siferra, espere…

Ela o ignorou. Estava tremendo de raiva. Agora compreendia que fora um erro convidar alguém como Theremon para estar com eles na noite do eclipse. Na verdade, fora um erro ter qualquer coisa a ver com o repórter.

A culpa era de Beenay, pensou. Era tudo culpa de Beenay. Afinal, tinha sido Beenay que a apresentara a Theremon, no Clube Universitário, alguns meses antes. Aparentemente, o astrônomo e o jornalista se conheciam há muito tempo, e Theremon consultava Beenay a respeito de questões científicas que se tornavam notícia.

O que estava nas manchetes dos jornais na ocasião era a previsão de Mondior 71 de que o mundo acabaria no dia 19 de Theptar, dali a aproximadamente um ano. É claro que ninguém na universidade sentia a menor simpatia por Mondior e seus Apóstolos, mas tinha sido mais ou menos na mesma ocasião que Beenay observara irregularidades na órbita de Kalgash e Siferra encontrara, na colina de Thombo, indícios de incêndios que ocorriam a intervalos de dois mil anos. As duas descobertas, infelizmente, apoiavam as alegações dos Apóstolos.

Theremon parecia conhecer de perto o trabalho de Siferra em Beklimot. Quando o jornalista entrou no Clube Universitário (Siferra e Beenay já estavam lá, por mera casualidade), Beenay teve apenas que dizer:

— Theremon, esta é minha amiga, a Dra. Siferra, do departamento de arqueologia.

E Theremon respondeu em seguida:

— Sim. A pilha de cidades incendiadas naquela colina.

Siferra sorriu friamente.

— O senhor ouviu falar?

— Fui eu que contei — Beenay apressou-se a explicar. — Sei que prometi não comentar com ele, mas depois que você revelou tudo a Athor, Sheerin e os outros, achei que não havia mal em contar a Theremon, contanto que ele se comprometesse a guardar segredo. Eu confio neste homem, Siferra. Tenho certeza de que…

— Tudo bem, Beenay — disse Siferra, esforçando-se para não demonstrar o aborrecimento que sentia. — Você realmente não devia ter dito nada. Mas eu perdôo você.

— Não se preocupe — disse Theremon. — Beenay fez-me jurar solenemente que não publicarei uma única palavra respeito. Mas é fascinante! Fascinante! Quantos anos tem cidade mais antiga? Cinquenta mil anos?

— Não mais que quinze mil — corrigiu Siferra. — O que, mesmo assim, é muito, considerando que Beklimot… já ouviu falar de Beklimot, não é? Pois é. Beklimot tem apenas dois mil e poucos anos de idade, e era considerada até agora a cidade mais antiga do planeta. O senhor não está pretendendo escrever uma reportagem a respeito das minhas descobertas, está?

— Na verdade, não estava. Como disse, dei minha palavra a Beenay. Além disso, a questão me parecia um pouco remota para os leitores da Crônica. Agora, porém, acho que talvez valha a pena aprofundar o assunto. Gostaria de me encontrar de novo com a senhora para discutir os detalhes de sua descoberta.

— Isso não será possível — declarou Siferra.

— O quê? Encontrar-se comigo ou discutir os detalhes de sua descoberta?

A observação fez a arqueóloga encarar toda a conversa por um novo prisma. Percebeu, surpresa e levemente irritada, que o repórter se sentia atraído por ela como mulher. E se deu conta de que, nos últimos minutos, Theremon devia estar imaginando se havia alguma coisa entre ela e Beenay, já que estavam juntos quando ele entrara no clube. Devia ter chegado à conclusão de que eram apenas amigos e aproveitara a primeira oportunidade para demonstrar seu interesse.

Ora, o problema era dele, pensou Siferra. Respondeu, em tom deliberadamente neutro:

— Ainda não publiquei minha descoberta em nenhuma revista científica. Até que o faça, não seria ético permitir que ela seja divulgada pela imprensa.

— Compreendo perfeitamente. E se eu prometer que a reportagem só será publicada quando a senhora autorizar? Concordaria em me revelar mais detalhes sobre o que descobriu?

— Bem.

Olhou para Beenay. Não estava acostumada a acreditar em promessas de repórteres.

— Pode confiar em Theremon — assegurou Beenay. — Já lhe disse: é o jornalista mais honrado que conheço.

— O que não quer dizer muita coisa — observou Theremon, com um sorriso. — Mas eu jamais quebraria minha palavra em um caso como este, que envolve a questão de prioridade em uma descoberta científica. Se eu publicasse sua história imediatamente, Beenay faria com que a universidade me colocasse na lista negra. E muitas das minhas reportagens mais interessantes são conseguidas através dos meus contatos na universidade. Posso, então, contar com uma entrevista com a senhora? Depois de amanhã, digamos?

Foi assim que tudo começou.

Theremon era muito persuasivo. Siferra finalmente concordou em almoçar com ele e, pouco a pouco, sem pressa, ele conseguiu extrair todos os detalhes da descoberta de Thombo. Depois, a moça ficou preocupada — esperava encontrar uma reportagem sensacionalista na Crônica logo no dia seguinte — mas Theremon manteve a palavra e não escreveu uma única linha a respeito. Entretanto, pediu para visitar o laboratório da arqueóloga. Mais uma vez, ela concordou, deixando que o jornalista examinasse os mapas, as fotografias, as amostras de cinzas. Ele fez algumas perguntas inteligentes.

— Você não vai publicar isso amanhã, vai? — perguntou Siferra, preocupada.

— Nós temos um trato, não temos? Não vou publicar nada até você dizer-me que o seu artigo foi aceito por uma revisa científica. Que acha de jantarmos juntos amanhã no Clube Seis Sóis?

— Bem…

— Ou depois de amanhã?

Siferra não costumava frequentar lugares como o Clube Seis Sóis. Detestaria dar a alguém a falsa impressão de que estava interessada em aparecer nas colunas sociais. Entretanto, não era fácil recusar um convite de Theremon com habilidade e persistência, praticamente obrigou-a a concordar em sair com ele, dali a dez dias. E daí?, pensou a arqueóloga. Tinha boa aparência. Estava mesmo precisando se distrair um pouco, depois de tanto trabalho. Encontrou-se com ele no Seis Sóis, onde todos pareciam conhecê-lo. Pediram aperitivos e depois um jantar regado a vinho, um vinho excelente da província de Thamian. Ele conduziu a conversa para cá e para lá, com muita habilidade: um pouco sobre a vida de Siferra, sua paixão pela arqueologia, suas escavações em Beklimot. O repórter descobriu que ela nunca se casara nem pensara em se casar. Falou com ela sobre os Apóstolos, suas fantásticas profecias, a surpreendente relação que havia entre as descobertas de Thombo e as previsões de Mondior. Tudo que ele dizia era razoável, sensato, interessante. Era um homem encantador… e também muito seguro de si, pensou a moça.

No final da noite, perguntou-lhe (com toda a gentileza, elegância e simplicidade) se podia acompanhá-la até em casa. Siferra disse que não.

Ele não pareceu ficar aborrecido, limitou-se a convidá-la para sair de novo.

Tinham saído mais duas ou três vezes, em um período de cerca de dois meses. O formato era sempre o mesmo: jantar em um bom restaurante, uma conversa agradável e no final, um convite sutil para dormirem juntos. A arqueóloga recusou-se todas as vezes. Aquele assédio bem-humorado estava se tornando um jogo agradável para ela.