Imaginou quanto tempo duraria. Ainda não sentia vontade de ir para a cama com o jornalista, mas o engraçado é que a ideia também não lhe desagradava totalmente.
Há muito tempo que não se sentia assim em relação a um homem.
Foi então que saiu o primeiro da série de artigos em que Theremon. questionava as teorias do Observatório, punha em dúvida a sanidade mental de Athor e comparava a previsão do eclipse às ridículas profecias dos Apóstolos do Fogo.
A princípio, Siferra recusou-se a acreditar. Aquilo seria algum tipo de piada?
O amigo de Beenay, ou por outra, o seu amigo, atacando os cientistas de forma tão impiedosa?
Passaram-se dois meses. Os ataques continuaram. Theremon não voltou a procurá-la. Afinal, não agüentou mais.
Telefonou para ele na redação do jornal.
— Siferra! Que prazer! Acredite ou não, ia telefonar para você esta tarde, para perguntar se estava interessada em ir comigo ao…
— Não estou — disse ela. — Theremon, que é que você está fazendo?
— Fazendo?
— As coisas que anda escrevendo sobre Athor e o Observatório. Houve um silêncio prolongado do outro lado da linha. Afinal, ele disse:
— Ah! Você não gostou!
— Não gostei? Estou revoltada!
— Acha que estou sendo muito agressivo. Escute, Siferra, quando você escreve para um público simplório, tem que colocar as coisas muito claras, ou corre o risco de não ser compreendido. Não posso somente dizer que acho que Athor e Beenay estão errados. Tenho que dizer que eles são malucos. Está me entendendo?
— Desde quando você acha que eles estão errados? Conversou com Beenay a respeito?
— Bem…
— Você está investigando este assunto há vários meses. De repente, dá uma reviravolta de 18O graus. A julgar pelo que você diz, todos no campus são discípulos de Mondior. Se precisava de um bode expiatório para suas brincadeiras, por que não foi procurá-los em outro lugar?
— Isto não é brincadeira, Siferra.
— Você acredita no que vem escrevendo?
— Acredito. Sinceramente. Acho que não vai haver nenhum cataclismo. Para mim, Athor está fazendo soar o alarme contra incêndio em um cinema lotado, sem que haja nenhum perigo que justifique uma medida tão arriscada. Através das minhas piadas, estou tentando mostrar às pessoas que não precisam levá-lo a sério. Minha intenção é evitar o pânico, a perturbação da ordem…
— O quê? Mas o perigo é real, Theremon! Ridicularizando os cientistas, você está pondo por terra nossa única esperança de sobrevivência. Preste atenção: eu vi as cinzas de antigas cidades, com milhares de anos de idade. Eu sei o que vai acontecer. O Fogo vai chegar. Quanto a isto, não há a. menor dúvida. Você mesmo viu as provas. A posição que assumiu é a mais destrutiva possível. Você está sendo cruel, insensato, desumano. E irresponsável, também.
— Siferra…
— Pensei que você fosse um homem inteligente. Compreendo agora que é exatamente como os outros.
— Sifer…
Ela desligou. E se recusou a falar de novo com o repórter, até faltarem poucas semanas para o dia fatídico. No início do mês de Theptar, Theremon tornou a telefonar, e Siferra atendeu sem saber quem era.
— Não desligue! — apressou-se a dizer o repórter. – Dê-me um minuto!
— Não vai adiantar nada.
— Escute, Siferra. Pode me odiar à vontade, mas quero que saiba de uma coisa: não sou insensato e não sou irresponsável.
— Quem disse que era?
— Você mesma, faz alguns meses, na última vez que falou comigo. Mas não é verdade. Tudo que escrevi sobre o eclipse corresponde exatamente ao que eu penso.
— Nesse caso, você é tolo. Ou, pelo menos, estúpido. O que pode ser um pouco diferente, mas não é melhor.
— Examinei as provas. Acho que vocês estão tirando conclusões apressadas.
— Saberemos a verdade no dia 19, não é mesmo? — disse Siferra, friamente.
— Eu gostaria de acreditar em vocês. Afinal, você, Beenay e os outros são pessoas simpáticas, inteligentes, dedicadas, preparadas etc. Infelizmente, não posso. Sou cético por natureza. Sempre fui assim. Não aceito nenhum tipo de dogma que as pessoas tentem me impingir. Talvez seja uma falha de caráter, que me faz parecer uma pessoa frívola. Talvez eu seja frívolo. Mas pelo menos sou honesto. Simplesmente não acredito que vá haver nenhum eclipse, nenhum incêndio, nenhuma loucura coletiva.
— Não se trata de um dogma, Theremon, e sim de uma hipótese.
— Isso não passa de um jogo de palavras. Sinto muito se ficou ofendida com o que eu escrevi, mas é exatamente o que eu penso, Siferra.
A moça ficou em silêncio por um momento. Alguma coisa na voz do repórter mexera com ela. Afinal, disse:
— Dogma, hipótese, seja o que for, ficará tudo esclarecido daqui a algumas semanas. vou passar a noite do dia 19 no Observatório. Vá para lá, também, e ficaremos sabendo quem está com a razão.
— Beenay não lhe contou? Athor me declarou persona non grata no Observatório.
— Ele proibiu a sua entrada?
— Ele se recusa até a falar comigo. Sabe, eu tinha uma proposta para ele. Acho que poderia ajudá-lo a enfrentar a ira da população quando o dia 19 chegar e nada acontecer. Entretanto, Beenay disse-me que o velho não quer nem falar comigo ao telefone, quanto mais permitir que eu esteja presente no dia 19.
— Vá como meu convidado. Como meu acompanhante — disse Siferra, em tom irônico. — Athor vai estar muito ocupado para se importar. Quero que você esteja naquela sala quando o céu ficar escuro e os incêndios começarem. Quero ver a cara que você vai fazer. Quero vê-lo pedir desculpas, Theremon.
22
Isso tinha acontecido três semanas atrás. Afastando-se, zangada, de Theremon, Siferra foi para o outro lado da sala e viu Athor, solitário, consultando uma listagem de computador. Folheava as páginas, muito sério, como se esperasse encontrar uma salvação para o mundo no meio das colunas de números. O diretor levantou os olhos e a viu.
Siferra enrubesceu.
— Dr. Athor, quero pedir desculpas por ter convidado aquele homem para vir aqui esta noite, depois das coisas que escreveu sobre nós, sobre o senhor, sobre… — sacudiu a cabeça. — Pensei realmente que ele poderia aprender alguma coisa. se estivesse conosco quando… quando… mas agora vejo que estava errada. Ele é ainda mais cínico e insensível do que eu imaginava. Jamais deveria tê-lo convidado.
— O que está feito, está feito, não é mesmo? – replicou Athor. — Contanto que não interfira no meu trabalho, não importa que esteja aqui ou não. Daqui a algumas horas, nada mais vai importar. — Apontou para o céu, visível através da janela. — Está tão escuro! Tão escuro! E, no entanto, vai ficar muito mais escuro ainda. Estou sentindo falta de Faro e Yimot. Sabe onde estão? Não? Quando chegou, Dra. Siferra, a senhora disse que tinha havido um problema de última hora no seu departamento. Espero que não tenha sido nada sério.
— As tabuinhas de Thombo desapareceram.
— Desapareceram?
— Estavam no cofre, é claro. Pouco antes de eu sair para vir para cá, o Dr. Mudrin me procurou. Ele estava a caminho do Abrigo, mas queria verificar um último detalhe de sua tradução, uma ideia nova que lhe ocorrera. De modo que abrimos o cofre e… não encontramos nada. Todas as seis tabuinhas tinham sumido. Temos cópias, naturalmente. Mas os originais, os objetos autênticos…
— Como isso pôde acontecer?
— Não é óbvio? — disse Siferra, em tom amargo. — Foram roubados pelos Apóstolos. Provavelmente para serem usados como talismãs, quando a… quando a Escuridão chegar e fizer o seu trabalho.