Выбрать главу

— Encontraram alguma pista?

— Não sou detetive, Dr. Athor. Não saberia como iniciar uma investigação. Mas só podem ter sido os Apóstolos. Estão interessados nessas tabuinhas desde que souberam que estavam comigo. Oh, por que fui comentar com eles! Eu não devia ter falado a ninguém sobre as tabuinhas!

Athor segurou-lhe as mãos.

— Não precisa ficar tão nervosa, minha filha.

Minha filha! Olhou para ele, surpresa. Fazia muito tempo que ninguém a chamava assim! Procurou disfarçar sua estranheza. Afinal, ele era bem mais velho do que ela e estava apenas procurando ser gentil.

— Deixe para lá, Siferra — disse Athor. — Não faz diferença. Graças àquele homem ali, nada mais faz diferença, não é mesmo?

A arqueóloga deu de ombros.

— Mesmo assim, detesto pensar que algum ladrão vestido de Apóstolo esteve vasculhando meu escritório, remexendo em meu cofre, levando objetos que desenterrei com minhas próprias mãos. É quase como se violassem o meu corpo. O senhor compreende, Dr. Athor? O roubo dessas tabuinhas, para mim, é quase como um estupro.

— Sei como se sente — disse Athor, em um tom que mostrava que ele absolutamente não sabia. — Olhe… olhe só. Como Dovim está brilhante esta noite! Como tudo vai estar escuro daqui a pouco!

Siferra conseguiu responder com um vago sorriso e afastou-se.

Em volta dela, as pessoas estavam indo para cá e para lá, verificando isto, discutindo aquilo, olhando pela janela, apontando, murmurando. De vez em quando, alguém chegava com notícias recentes da cúpula onde se encontrava o telescópio. Sentia-se como uma completa estranha no meio daqueles astrônomos. E totalmente sem esperanças.

O pessimismo de Athor deve ter passado para mim, pensou. Ele estava tão deprimido, tão distante! Nem parecia a mesma pessoa. Teve vontade de lembrar a ele que não era o mundo que estava para acabar naquela noite, mas apenas um ciclo de civilização.

O mundo seria reconstruído. Os sobreviventes começariam tudo de novo, como já acontecera uma dúzia de vezes (ou uma centena, ou um milhão) desde o começo dos tempos.

Entretanto, dizer isso a Athor era o mesmo que o diretor dizer-lhe que não se preocupasse com a perda das tabuinhas. Athor tivera esperanças de que o mundo se preparasse para a catástrofe. Em vez disso, apenas um grupo minúsculo de pessoas dera importância a suas advertências. Apenas os que tinham ido para o Abrigo da universidade e para outros abrigos de que não tinham conhecimento…

Beenay se aproximou.

— É verdade o que Athor me contou? As tabuinhas foram mesmo roubadas?

— Foram, sim. Eu sabia que não devia ter aceito as propostas dos Apóstolos.

Acha que foram eles que roubaram?

— Tenho certeza — disse ela com amargura. — Quando a existência das tabuinhas de Thombo foi divulgada pela imprensa, eles me procuraram, dizendo que possuíam informações que me poderiam ser úteis. Não lhe contei? Não, acho que não. Eles queriam fazer um trato semelhante ao que Athor havia feito com aquele sacerdote, Folimun 66. “Temos um certo conhecimento da linguagem antiga”, afirmou Folimun. “A linguagem que era falada no Ano de Divindade anterior ao nosso.” E parece que tinham mesmo: alguns textos, dicionários, alfabetos da velha escrita, talvez muito mais.

— E essas informações foram passadas para Athor?

— Algumas, pelo menos. O suficiente para convencer Athor de que os Apóstolos tinham registros astronômicos autênticos do último eclipse. O suficiente para provar que o mundo tinha passado por um cataclismo semelhante pelo menos uma vez.

Athor, explicou a moça a Beenay, tinha emprestado a ela as cópias de alguns textos antigos fornecidos por Folimun. Ela os mostrara a Mudrin, que os considerara de extrema utilidade para a tradução das tabuinhas. Entretanto, Siferra relutara em compartilhar com os Apóstolos as informações contidas nas tabuinhas, pelo menos nas condições propostas por eles. Os Apóstolos alegavam ser capazes de traduzir as tabuinhas mais antigas, e talvez fossem mesmo. Folimun queria, porém, que a arqueóloga lhe cedesse as tabuinhas originais, para que fossem copiadas e traduzidas, em vez de fornecer à moça os dados necessários para a tradução. Ele também não se contentava com transcrições do texto contido nas tabuinhas. Tinham que ser as tabuinhas originais ou nada feito.

— Mas você fez pé firme — disse Beenay.

— É claro. As tabuinhas não podiam sair da universidade. “Forneçam-nos as informações necessárias para a tradução”, eu disse para Folimun, “e nós lhes daremos uma transcrição do texto das tabuinhas. Assim, poderemos traduzí-Ias de forma independente e comparar nossos resultados.”

Folimun não concordara com a proposta. Não estava interessado em transcrições, pois não haveria como comprovar sua autenticidade. Quanto a fornecer à arqueóloga os textos que estavam em poder dos Apóstolos, isto estava fora de questão. Esses textos eram sagrados, explicou, e só podiam ser manuseados por Apóstolos. Se entregasse a ele as tabuinhas, poderia mandar fazer uma tradução, mas nenhum estranho teria acesso aos textos que estavam em poder dos Apóstolos.

— Senti-me realmente tentada a juntar-me aos Apóstolos — disse Siferra — apenas para poder pôr as mãos naqueles textos.

— Você? Entrar para os Apóstolos do Fogo?

— Apenas para ter acesso aos textos. Mas não tive coragem. Recusei a proposta de Folimun. E Mudrin teve que traduzir os textos sem a ajuda dos Apóstolos. Constatou que as tabuinhas de fato falavam de algum castigo terrível que os deuses haviam imposto à humanidade, mas as traduções eram incompletas, claudicantes, insatisfatórias.

Agora parecia que, afinal, os Apóstolos haviam ficado com as tabuinhas. Isso era difícil de aceitar. No caos que os aguardava, estariam exibindo as tabuinhas, as suas tabuinhas, como mais uma prova de sua sabedoria e santidade.

— Sinto muito por suas tabuinhas terem desaparecido, Siferra — disse Beenay -, mas ainda não há provas de que tenham sido os Apóstolos. Talvez elas

tornem a aparecer.

— Não acho provável — disse Siferra, com um sorriso triste, voltando-se para olhar para o céu que escurecia.

O melhor que podia fazer para consolar-se era adotar a postura de Athor: o mundo estava para acabar, de modo que nada mais tinha importância. Tal atitude, porém, não estava de acordo com sua personalidade. Para ela, era importante pensar no dia de amanhã. Pensar em sobrevivência, em reconstrução, em ir à luta. Não estava certo cair em depressão, como acontecera com Athor, aceitar o fim da humanidade, dar de ombros e abandonar toda a esperança.

Uma voz de tenor interrompeu seus pensamentos.

— Olá, pessoal! Olá, olá, olá!

— Sheerin! — exclamou Beenay. — Que está fazendo aqui?

As bochechas gorduchas do recém-chegado se expandiram em um largo sorriso.

— Por que essa atmosfera de cemitério? Ninguém está perdendo a coragem, espero.

Athor olhou para ele, aborrecido, e disse:

— É mesmo, o que está fazendo aqui, Sheerin? Pensei que fosse ficar no Abrigo.

Sheerin riu e deixou cair o corpo atarracado em uma cadeira.

— Abrigo uma ova! Aquele lugar estava me matando de tédio. Prefiro ficar aqui, onde as coisas estão esquentando. Ou acha que também não tenho minha cota de curiosidade? Já estive no Túnel do Mistério. Posso sobreviver a outra dose de Escuridão. E quero ver essas Estrelas de que os Apóstolos tanto falam. — Esfregou as mãos e acrescentou, em tom mais sério: — Lá fora o frio está de rachar. Parece que o vento vai transformar o nariz da gente em picolé. A essa distância, o calor de Dovim não serve para nada, nesta noite.