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O idoso diretor rangeu os dentes, exasperado.

— Por que sai do seu caminho para fazer coisas insanas, Sheerin? O que é que você pode fazer de útil aqui?

— Que é que eu posso fazer de útil aqui? — Sheerin abriu os braços, em cômica resignação. — Um psicólogo não serve para nada lá no Abrigo. Não no momento. Não posso fazer nada por eles. Estão todos calmos e seguros, debaixo da terra, a salvo de tudo.

— E se uma multidão invadir o local durante a Escuridão?

Sheerin riu.

— Duvido que alguém que não saiba onde é a entrada do Abrigo consiga encontrá-la à luz do dia, quanto mais no escuro. Mas se isso acontecer, vão precisar de homens de ação para defendê-los. Eu? Sou muito gordo para isso. Por isso, prefiro ficar aqui.

Siferra se sentiu melhor ao ouvir as palavras de Sheerin. Ela também decidira passar a noite da Escuridão no Observatório, e não no Abrigo. Talvez fosse uma pretensão idiota, um excesso de autoconfiança, mas estava certa de que conseguiria sobreviver ao eclipse (e mesmo à chegada das Estrelas, se aquela parte do mito fosse verdadeira), sem perder a razão. Por isso, estava disposta a não deixar passar a experiência.

Agora parecia que Sheerin, que não era nenhum modelo de coragem, tivera a mesma ideia. O que queria dizer que havia chegado à conclusão de que o impacto da Escuridão não seria tão violento assim, apesar das previsões pessimistas que vinha fazendo há meses. Siferra tinha ouvido falar do Túnel do Mistério e seus efeitos sobre as pessoas, incluindo o próprio Sheerin. Mesmo assim, ali estava ele. Devia achar que, no final, as pessoas se revelariam mais resistentes do que julgara a princípio.

Ou talvez sua presença ali fosse simplesmente um ato de desespero. Talvez preferisse perder a razão naquela mesma noite, pensou Siferra, do que conservar a lucidez e ter que enfrentar os problemas terríveis, talvez insolúveis, que aguardavam a humanidade depois do cataclismo.

Não. Não. Estava se entregando mais uma vez ao pessimismo. Procurou pensar em outra coisa.

— Sheerin ! — Era Theremon, atravessando a sala para cumprimentar o psicólogo. — Lembra-se de mim? Theremon?

— Claro que me lembro, Theremon — disse Sheerin, estendendo a mão. — Puxa, rapaz, você tem sido duro conosco nos últimos tempos! Mas o que passou, passou, não é mesmo?

Theremon apertou a mão de Sheerin .

— Que Abrigo é esse onde você devia estar? Ouvi vocês falarem a respeito dele, mas não tenho a menor ideia do que se trata.

— Bem — disse Sheerin -, conseguimos convencer umas poucas pessoas da validade de nossas previsões de… hum… de uma catástrofe, se quisermos ser sensacionalistas e essas pessoas concordaram em tomar medidas preventivas. Entre essas pessoas estão familiares dos funcionários do Observatório, alguns professores da Universidade de Saro e uns poucos de fora. Minha companheira Liliath 221 está lá neste exato momento, e eu também deveria estar, se não fosse minha curiosidade infernal. No total, devem ser mais de trezentos.

— Entendo. Eles estão escondidos em um lugar onde a Escuridão e… hum… as Estrelas não podem alcançá-los. Vão ficar lá enquanto o resto do mundo enlouquece.

— Exatamente. Os Apóstolos também dispõem de algum tipo de esconderijo, você sabe. Não sabemos quantas pessoas estão lá. Apenas umas poucas, se tivermos sorte, mas é mais provável que sejam milhares, esperando para sair e tomar conta do mundo depois da Escuridão.

— Quer dizer que o grupo da universidade representa uma tentativa de resistir à conquista do mundo pelos Apóstolos?

Sheerin assentiu.

— Se conseguirem. Não será fácil, com quase toda a humanidade insana, com as grandes cidades em chamas, com um grupo de Apóstolos disposto a impor sua vontade ao que restar da civilização… não, o ambiente não será favorável à sobrevivência. Mas eles dispõem de comida, água, abrigo e armas…

— E não é só isso — interveio Athor. — Eles também estão com todos os nossos registros, exceto os que vamos colher no dia de hoje. Esses registros serão muito importantes para o próximo ciclo. Na verdade, só a eles importam. O resto pode se danar.

Theremon deu um longo assovio.

— Vocês estão certos, mesmo, de que tudo que previram vai realmente acontecer!

— Que outra atitude poderíamos tomar? — disse Siferra, em tom agressivo. — Quando nos convencemos de que o desastre era inevitável…

— É claro — concordou o jornalista. — Vocês tinham que se preparar. Porque estavam de posse da Verdade. Assim como os Apóstolos do Fogo estão de posse da Verdade. Gostaria de ter metade da convicção de vocês. Esta noite pertence aos donos da verdade.

Siferra olhou para ele, furiosa.

— Gostaria de ver você lá fora esta noite, vagando pelas ruas em chamas! Mas não… não, você estará em segurança aqui dentro! É mais do que merece!

— Calma — disse Sheerin, puxando Theremon pelo braço. — Não diga mais nada, amigo. Vamos conversar em outro lugar.

— Boa ideia — concordou Theremon.

Entretanto, não fez nenhuma menção de deixar a sala. Alguns funcionários haviam começado uma partida de xadrez estocástico, e Theremon os observou por alguns momentos, obviamente sem compreender muita coisa do jogo, enquanto os movimentos eram feitos rapidamente e em silêncio. Parecia admirado com a capacidade dos jogadores de se concentrarem no jogo, em um momento em que o fim do mundo, de acordo com eles próprios, estava para ocorrer dali a algumas horas.

— Vamos — insistiu Sheerin.

— Está bem. Está bem.

Ele e Sheerin saíram para o corredor, seguidos, um instante depois, por Beenay.

Que homem irritante, pensou Siferra.

Olhou para o disco vermelho de Dovim. O céu teria ficado mais escuro nos últimos minutos? Não, não, disse para si própria, isso era impossível. Dovim ainda estava lá. Era apenas sua imaginação. O céu parecia estranho, agora que Dovim estava sozinho. Nunca havia visto uma cor do céu como aquela, de um vermelho escuro, quase roxo. Mas o pequeno sol era suficiente para iluminar a superfície do planeta.

Lembrou-se das tabuinhas perdidas. Era melhor pensar em outra coisa.

Os jogadores de xadrez é que estavam certos. Resolveu sentar-se e relaxar. Se conseguisse.

23

Sheerin se encaminhou para a sala ao lado. Ali havia várias poltronas macias, grossas cortinas vermelhas nas janelas e um tapete castanho no chão. com a estranha luz avermelhada de Dovim entrando pela janela, era como se houvesse sangue coagulado em toda parte.

Ele ficara surpreso ao encontrar Theremon no Observatório, depois das coisas horríveis que escrevera, depois de tudo que havia feito para sabotar as tentativas de Athor de preparar a nação para a catástrofe. Nas últimas semanas, o diretor ficava quase histérico toda vez que o nome de Theremon era mencionado; mesmo assim, permitira que o repórter ficasse ali durante o eclipse.

Aquilo era estranho e um pouco preocupante. Podia significar que a personalidade do velho astrônomo estava começando a se desintegrar diante do desastre iminente. Na verdade, Sheerin também estava surpreso por ele próprio estar no Observatório. Tinha sido uma decisão de última hora, um impulso irresistível do tipo que raras vezes experimentara em sua vida. Liliath tinha ficado muito preocupada.

Ele também. Não se esquecera das aflições que sofrera no Túnel do Mistério. Mesmo assim, chegara à conclusão de que tinha que estar ali, da mesma forma como se sentira obrigado a entrar no Túnel do Mistério. Para os outros, podia não ser mais do que um professor inconsequente e obeso; considerava-se, porém, um cientista. Durante toda a vida profissional, dedicara-se ao estudo da Escuridão. Como, então, poderia encarar a si próprio no futuro, sabendo que durante o episódio mais importante de Escuridão em mais de dois mil anos decidira permanecer na segurança de um abrigo subterrâneo?