— Você está falando como os Apóstolos — disse Theremon, irritado. — Folimun 66 me contou uma história parecida, meses atrás. E eu contei para vocês dois, lembro-me bem, no Clube Seis Sóis.
Olhou pela janela para os picos avermelhados dos edifícios da cidade de Saro, que se recortavam no horizonte, do outro lado do bosque. O repórter sentiu a tensão da incerteza crescer dentro de si quando olhou rapidamente para Dovim, que brilhava, sanguinolento, no zênite, como um espírito mau. Theremon insistiu, teimosamente.
— Não consigo aceitar sua linha de raciocínio. Por que eu haveria de pirar só porque não há nenhum sol no céu? E mesmo que eu perca o juízo… está bem, não me esqueci daqueles pobres coitados do Túnel do Mistério. Mesmo assim, mesmo que todos fiquem loucos, em que isso afetará as cidades?
— Eu tinha a mesma dúvida — observou Beenay — antes de parar para pensar. Se você estivesse na Escuridão, o que desejaria mais do que qualquer coisa no mundo? Qual a coisa que todos os seus instintos reclamariam?
— Luz, suponho.
— Claro! — exclamou Sheerin, quase gritando. — Isso mesmo! Luz!
— E daí?
— Como você conseguiria luz?
Theremon apontou para o interruptor na parede.
— Ligaria o interruptor.
— Certo — disse Sheerin, em tom zombeteiro. — E os deuses, em sua infinita bondade, se encarregariam de fornecer a corrente elétrica, porque certamente a companhia de eletricidade não estaria em condições de fazê-lo. Não com os geradores sobrecarregados e todos os operadores fora de ação. Está me acompanhando?
Theremon fez que sim com a cabeça.
— Onde você vai conseguir luz, quando os geradores pararem? Nas lâmpadas de cabeceira? Elas têm baterias de emergência. Mas você pode não ter uma lâmpada de cabeceira à mão. Pode estar na rua, no escuro, e a lâmpada está lá no seu quarto. E você precisa de luz. De modo que você queima alguma coisa, não é, Sr. Theremon? Já viu um incêndio na floresta? Já acampou no mato e cozinhou com lenha? A madeira em chamas não produz apenas calor, você sabe. Ela também produz luz, e as pessoas sabem disso. Quando estiver escuro, elas vão querer luz, e vão fazer tudo para consegui-la.
— Por isso vão queimar madeira? — perguntou Theremon, sem muita convicção.
— Vão queimar o que puderem. Elas vão querer luz. Para isso, terão que queimar alguma coisa, e não existe lenha nas cidades. De modo que vão queimar o que estiver mais próximo. Uma pilha de jornais? Por que não? A Crônica dará uma boa fogueira. Que tal as bancas de jornais? Fogo nelas! As roupas são um bom combustível. Os livros, também. Os telhados das casas. Qualquer coisa. Vão ter a sua luz… mas todas as cidades do planeta serão consumidas pelas chamas! Aí estão os seus incêndios, Sr. Jornalista. Aí está o fim do mundo.
— Se houver o eclipse — observou Theremon, teimosamente.
— E claro — concordou Sheerin. — Se houver o eclipse. Não sou astrônomo. Também não sou Apóstolo. Mas estou apostando no eclipse.
Olhou para Theremon. Os dois se encararam como se aquilo fosse uma questão pessoal, como se estivessem competindo para ver quem tinha mais força de vontade. De repente, Theremon baixou os olhos, vencido. Sua respiração estava ofegante. Levou a mão à testa e apertou com força. De repente, ouviram um burburinho na sala ao lado.
— Acho que ouvi a voz de Yimot — disse Beenay. — Ele e Faro provavelmente estão de volta. Vamos até lá saber por que se atrasaram.
— Boa ideia — murmurou Theremon. Ele respirou fundo e pareceu recuperar o controle.
O momento de tensão havia passado.
24
A sala estava um pandemônio, com os funcionários reunidos em torno dos dois rapazes, que tentavam tirar os casacos enquanto eram submetidos a uma enxurrada de perguntas.
Athor abriu caminho e se dirigiu, furioso, aos recém chegados.
— Sabem que falta menos de meia hora? Onde estavam?
Faro 24 sentou-se e esfregou as mãos. Seu rosto ainda estava vermelho por causa do frio lá fora. Tinha um sorriso estranho. E parecia curiosamente calmo, quase como se tivesse sido drogado.
— Nunca o vi assim — sussurrou Beenay para Sheerin.
— Ele sempre foi muito tímido, muito respeitoso, como se não passasse de um humilde estudante cercado de grandes astrônomos. Até comigo. Mas agora…
— Psiu! — fez Sheerin. — Vamos escutar o que ele tem a dizer.
— Yimot e eu acabamos de executar uma pequena experiência maluca que nós mesmos inventamos — disse Faro. Queríamos ver se era possível simular a aparência da Escuridão e das Estrelas, para termos uma ideia antecipada de como seria.
Houve um murmúrio confuso entre os ouvintes.
— Estrelas? — repetiu Theremon. — Vocês sabem o que são as Estrelas? Como descobriram?
— Lendo o Livro das Revelações — explicou Faro, com o mesmo sorriso estranho. — O livro explica que as Estrelas são pontos muito brilhantes, parecidos com os sóis, só que menores, que aparecem no céu quando Kalgash entra na Caverna da Escuridão.
— Absurdo! — exclamou alguém.
— Impossível!
— Por que alguém levaria a sério o que diz o Livro das Revelações? É evidente que…
— Silêncio! — ordenou Athor. Havia um súbito olhar de interesse em seus olhos, um toque no velho vigor. — Prossiga, Faro. Como foi essa “experiência” de vocês?
— Eu e Yimot tivemos essa ideia há algum tempo — disse Faro -, e estivemos trabalhando nela em nossas horas de folga. Yimot sabia de uma construção de um andar lá na cidade que tinha um teto em forma de cúpula. Acho que era uma espécie de depósito. Pois nós compramos o imóvel…
— Como? — interrompeu Athor, peremptoriamente. Onde conseguiram o dinheiro?
— Usamos nossas economias — explicou Yimot 70. — Gastamos dois mil créditos. — Prosseguiu, em tom defensivo: — E daí? Amanhã, dois mil créditos não vão valer nada.
— É verdade — concordou Faro. — Compramos a casa e a forramos de veludo negro, de modo a conseguirmos a maior Escuridão possível. Depois, fizemos pequenos furos no teto e no telhado e cobrimos os furos com pequenas placas de metal, que podiam ser removidas todas ao mesmo tempo através de um controle elétrico. Esta parte não fizemos pessoalmente: contratamos um carpinteiro, um eletricista e alguns outros operários. Queríamos que a luz passasse por esses furos no teto, criando um efeito semelhante ao das Estrelas.
— Um efeito semelhante ao que imaginamos que as Estrelas vão criar — corrigiu Yimot.
Ninguém respirou durante a pausa que se seguiu. Athor declarou, em tom formaclass="underline"
— Vocês não tinham o direito de fazer uma experiência particular sem…
Faro parecia envergonhado.
— Eu sei, professor, mas, francamente, Yimot e eu achamos que a experiência era perigosa. De acordo com o Dr. Sheerin, aqui presente, se o efeito realmente existisse, nós poderíamos muito bem ficar malucos. Decidimos correr o risco sozinhos. Se conservássemos a sanidade, talvez adquiríssemos algum tipo de imunidade. Nesse caso, poderíamos vacinar todos vocês da mesma forma. Mas o resultado foi outro…
— Que aconteceu?
Foi Yimot que respondeu.
— Nós nos trancamos na casa e esperamos até que nossos olhos se acostumassem à falta de luz. É uma sensação muito desagradável, porque a Escuridão total faz com que você tenha a impressão de que as paredes e o teto estão se aproximando para esmagá-lo. Mas superamos este primeiro impacto e acionamos a chave. As placas saíram do lugar e o teto ficou cheio de pequenos pontos de luz.