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— E aí?

— Nada aconteceu. Essa é a parte mais estranha. De acordo com o Livro das Revelações, estávamos experimentando o efeito de ver Estrelas contra um fundo de Escuridão. Mas não sentimos nada. Era apenas um teto cheio de furos, e era exatamente assim que parecia. Tentamos várias vezes, foi por isso que nos atrasamos, mas não conseguimos nenhum efeito.

Seguiu-se um silêncio de choque, e todos os olhos se voltaram para Sheerin, que estava sentado, imóvel, com a boca aberta. Theremon foi o primeiro a falar.

— Sabe o que isto significa para a sua teoria, não sabe, Sheerin ? — Ele estava sorrindo de alívio. Mas Sheerin levantou a mão.

— Espere um momento, Theremon. Deixe-me analisar os fatos. Essas “Estrelas” que os rapazes fabricaram… o tempo total que passaram expostos à Escuridão… — Interrompeu o que estava dizendo. Todos olharam para ele. De repente, estalou os dedos e quando levantou a cabeça, não havia nem surpresa nem indecisão nos seus olhos. — Naturalmente…

Não terminou a frase. Thilanda, que estava no andar superior, na cúpula do Observatório, fotografando o céu a intervalos de 1O segundos, entrou correndo, agitando os braços em movimentos circulares dignos de Yimot.

— Dr. Athor! Dr. Athor!

— Que foi?

— Acabamos de encontrar… ele simplesmente foi entrando na cúpula… o senhor não vai acreditar, Dr. Athor…

— Calma, calma. Que aconteceu? Quem foi que entrou? Ouviu-se um ruído de luta no corredor e depois um forte estrondo. Beenay levantou-se de um salto e correu para a porta, gritando:

— Que diabo!

Davnit e Hikkinan, que deviam estar na cúpula com Thilanda, estavam no corredor. Os dois astrônomos seguravam um terceiro homem, um tipo atlético, de quase quarenta anos, cabelos ruivos encaracolados, rosto anguloso, olhos azuis. Arrastaram-no para dentro da sala, mantendo seus braços firmemente seguros atrás das costas.

O estranho usava a veste negra dos Apóstolos do Fogo.

— Folimun 66! — exclamou Athor.

Theremon repetiu:

— Folimun 66! Em nome da Escuridão, o que está fazendo aqui?

— Não estou aqui em nome da Escuridão, e, sim, em nome da luz — respondeu o Apóstolo, em tom calmo e controlado. Athor olhou para Thilanda.

— Onde encontrou este homem?

— Já lhe disse, Dr. Athor. Estávamos tirando as fotos e ouvimos um ruído. Ele havia entrado e estava de pé atrás de nós. “Onde está Athor?”, perguntou. “Preciso falar com Athor. ”

— Chame os guardas de segurança — ordenou Athor, rubro de raiva. — Esta noite, o Observatório não está aberto ao público. Quero saber como este homem conseguiu passar pelos guardas.

— Provavelmente o senhor tem um Apóstolo ou dois na folha de pagamento — sugeriu Theremon, com um sorriso. — Quando Folimun apareceu e ordenou-lhes que abrissem o portão, tiveram que obedecer.

Athor fuzilou-o com os olhos. Entretanto, sua expressão mostrava que o velho astrônomo reconhecia que talvez o palpite de Theremon tivesse um fundo de verdade.

Os ocupantes da sala tinham formado um círculo em torno de Folimun. Todos olhavam para ele, surpresos: Siferra, Theremon, Beenay, Athor e os demais. Folimun declarou, com toda a calma:

— Meu nome é Folimun 66. Sou assessor especial de Sua Serenidade Mondior 71. Vim aqui esta noite, não como um criminoso, mas como um enviado de Sua Serenidade. Quer pedir a esses seus dois assistentes para me largarem, Athor?

— Soltem-no — ordenou Athor, com um gesto impaciente.

— Obrigado — disse Folimun. Esfregou os braços e ajeitou a veste. Depois, fez uma mesura de agradecimento (ou estaria sendo irônico?) para Athor.

O ar em torno do Apóstolo parecia estar eletrizado.

— Que está fazendo aqui? — perguntou Athor. — Que deseja?

— Nada que esteja disposto a me dar voluntariamente.

— Provavelmente tem razão.

— Quando você e eu nos conhecemos, faz alguns meses, Athor, nosso encontro foi muito tenso, um encontro de dois homens que podiam se considerar como representantes de grupos antagônicos. Para você, eu era um perigoso fanático. Para mim, você era o chefe de um bando de pecadores ateus. Entretanto, estávamos de acordo em um ponto, você deve se lembrar. Ambos sabíamos que na noite do dia 19 de Theptar, a Escuridão desceria sobre Kalgash e permaneceria por muitas horas.

Athor fez um muxoxo.

— Diga logo o que quer, Folimun. Não nos resta muito tempo, e a Escuridão está prestes a chegar.

— Para mim — prosseguiu Folimun -, a Escuridão era uma manifestação da vontade dos deuses. Para você, não passava de um efeito do movimento dos astros no céu. Muito bem: embora nossas interpretações fossem diferentes, chegamos a um entendimento. Forneci-lhe certos dados que estavam de posse dos Apóstolos desde o último Ano de Divindade, como tabelas com os movimentos dos sóis e algumas informações ainda mais obscuras. Em troca, você prometeu que provaria o dogma fundamental de nossa fé e divulgaria a verdade para a população.

— Foi exatamente o que fiz — declarou Athor, olhando para o relógio. — Que é que o seu mestre deseja de mim agora? Cumpri minha parte no trato.

Folimun esboçou um sorriso, mas não disse nada. Houve um murmúrio geral de inquietação.

— Pedi a ele alguns dados astronômicos, sim — disse Athor, olhando em torno. — Dados que apenas os Apóstolos possuíam. E recebi esses dados. Sou grato a ele por isto. Em troca, concordei em tornar pública minha confirmação matemática da profecia dos Apóstolos de que a Escuridão desceria sobre Kalgash no dia 19 de Theptar.

— Não havia necessidade de confirmação — declarou Folimun, com orgulho. — As provas estão todas no Livro das Revelações.

— Apenas para os que acreditam cegamente no livro protestou Athor. — Não distorça minhas palavras. Eu me propus a fornecer provas científicas para os dogmas de vocês e cumpri minha promessa!

Os olhos do Apóstolo se estreitaram, zangados.

— Cumpriu, sim, mas da forma errada. A sua suposta explicação apoia os nossos dogmas, mas ao mesmo tempo os torna desnecessários. Você transformou a Escuridão e as Estrelas em fenômenos naturais, despojou-os de todo o significado místico. Isto é uma blasfêmia!

— Se é, a culpa não é minha. Os fatos existem. Como posso deixar de divulgá-los?

— Os seus “fatos” são uma fraude e uma ilusão.

— Como é que você sabe?

A resposta traduzia a certeza de uma fé absoluta.

— Eu sei!

O diretor ficou ainda mais vermelho. Beenay fez menção de se aproximar, mas Athor deteve-o com um gesto.

— E o que é que Mondior 71 quer que a gente faça? Ele ainda pensa, suponho, que ao tentar avisar ao mundo para que tome medidas contra a loucura que se aproxima, estamos interferindo de alguma forma em sua tentativa de assumir o poder depois do eclipse. Pois para seu governo, muito poucas pessoas nos levaram a sério! Espero que isto o faça feliz!

— A tentativa em si já causou mal suficiente. E o que estão tentando fazer aqui esta noite tornará as coisas ainda piores!

— Como sabe o que estamos tentando fazer aqui esta noite? — perguntou Athor.

Suavemente, Folimun disse:

— Sabemos que ainda não desistiu de influenciar a população. Como não conseguiu fazê-lo antes da Escuridão e do Fogo, pretende sair daqui, depois que tudo acabar, munido de fotografias da transição da luz do dia para a Escuridão. Você pretende oferecer aos sobreviventes uma explicação racional do que aconteceu e guardar em lugar seguro as supostas provas de suas teorias, de modo que no final do próximo Ano de Divindade seus sucessores no Observatório convençam a humanidade de que é possível resistir à Escuridão.