— Alguém deu com a língua nos dentes — sussurrou Beenay.
— Tudo isso, é claro, interfere com os nossos propósitos. Mondior 71 é um profeta apontado pelos deuses, o homem destinado a guiar a humanidade durante os tempos difíceis que nos aguardam.
— Vá logo ao que interessa — disse Athor, secamente. Folimun fez que sim com a cabeça.
— A questão é simplesmente a seguinte: a tentativa mal intencionada e sacrílega de conseguir informações através de instrumentos diabólicos deve ser evitada a qualquer custo. Lamento não ter tido a oportunidade de destruir seus aparelhos infernais com minhas próprias mãos.
— Era isso que você pretendia? Não teria adiantado muita coisa. Todos os nossos dados, exceto os que pretendemos colher nos próximos minutos, já estão guardados em lugar seguro.
— Precisa destruí-los.
— O quê?
— Apague todos os dados. Destrua todos os instrumentos. Em troca, prometo proteger todos vocês do caos que certamente tomará conta do país quando a Escuridão chegar.
Alguns começaram a rir.
— Ele é louco — disse uma voz. — Completamente louco.
— Está enganado — protestou Folimun. — Devotado, sim. Dedicado a uma causa que está além de sua compreensão, sim. Mas não sou maluco. Aquele homem ali — apontou para Theremon — é testemunha disso. E olhem que se trata de alguém conhecido pelo seu ceticismo. Mas coloco minha causa acima de tudo. Esta noite é crucial para a história do mundo. Quando o dia nascer, a Divindade deve triunfar. O que lhes trago é um ultimato. Desistam da tentativa sacrílega de encontrar explicações racionais para a chegada da Escuridão e aceitem Sua Serenidade Mondior 71 como o representante legítimo da vontade dos deuses. Quando a luz voltar, trabalhem para divulgar sua mensagem e não voltem a falar em eclipses, órbitas e outras tolices.
— E se nos recusarmos? — disse Athor, que parecia estar achando graça na pretensão de Folimun.
— Nesse caso — disse o Apóstolo, friamente -, um grupo de homens de bem, liderados pelos Apóstolos do Fogo, subirá esta colina e destruirá o Observatório e tudo que contém.
— Agora chega! — exclamou Athor. — Chamem a Segurança. Quero ver este homem fora aqui!
— Vocês têm exatamente uma hora — disse Folimun, imperturbável. — Quando esse prazo expirar, o Exército Sagrado atacará.
— Ele está blefando — disse Sheerin. Athor repetiu, como se não tivesse ouvido:
— Segurança! Quero este homem fora daqui!
— Bolas, Athor, que é que há com você? — exclamou Sheerin. — Se deixar que ele vá, estará criando mais problemas para nós. Não compreende que esses Apóstolos vivem do caos? Folimun é um mestre na arte de arranjar confusão!
— Que é que você sugere?
— Vamos mantê-lo prisioneiro — disse Sheerin. — Por que não o trancamos em um armário até a Escuridão passar? Para ele, é a pior coisa que podemos fazer. Se estiver trancado, não verá a Escuridão nem as Estrelas. Não é preciso conhecer muito da doutrina dos Apóstolos para saber que, para eles, deixar de ver as Estrelas quando elas aparecem significará a perda da alma imortal. Mande prendê-lo, Athor. Não só é mais seguro para nós, mas também é o que ele merece.
— E depois — protestou Folimun -, quando todos ficarem loucos, não vai haver ninguém para me libertar! Esta é uma sentença de morte. Sei tão bem quanto você o que significa a chegada das Estrelas. Na verdade, sei melhor do que você. Todos vão enlouquecer, nem se lembrarão de que eu existo. Querem que eu morra sufocado ou de inanição? É bem o que se poderia esperar de um grupo de… de cientistas. — Ele fez a palavra soar obscena. — Mas não vai dar certo. Tomei a precaução de instruir meus seguidores para atacarem o Observatório daqui a uma hora, a menos que eu volte e cancele minha ordem. Assim, não terão nada a ganhar me mantendo prisioneiro. Estarão apenas decretando a destruição do Observatório. Daqui a uma hora, meus companheiros me libertarão e assistiremos juntos à chegada das Estrelas. — Uma veia pulsou na têmpora de Folimun. — Amanhã, quando vocês todos estiverem reduzidos a pobres dementes, condenados pelos seus pecados, começaremos a construção de um novo mundo.
Sheerin olhou inquisitivo para Athor. O diretor, porém, também parecia em dúvida. Beenay, ao lado de Theremon, murmurou:
— Que é que você acha? Ele está blefando?
O jornalista não respondeu. Estava lívido.
— Vejam!
O dedo que ele apontou para o céu estava trêmulo, e sua voz soou seca e esganiçada.
Houve uma exclamação em uníssono quando todos acompanharam o dedo com os olhos e, por um momento, prenderam a respiração.
Estava faltando um pedaço de Dovim!
25
A mancha escura tinha talvez a largura de uma unha, mas para os observadores assustados era como um buraco imenso.
Em Theremon, a visão daquele pequeno arco de escuridão teve um efeito devastador. O repórter fechou os olhos, levou a mão à cabeça e deu as costas para a janela.
O pequeno pedaço que faltava no lado de Dovim havia abalado a estrutura do seu ser. Theremon, o cético. Theremon, o gozador. Theremon, o cronista das fraquezas e das tolices humanas… Céus! Como eu estava errado!
Quando reabriu os olhos, deparou com Siferra. Estava do outro lado da sala, olhando para ele. Havia desprezo naqueles olhos… ou seria piedade? Forçou-se a encará-la e sacudiu a cabeça tristemente, como que para traduzir todo o seu arrependimento. Estraguei tudo. Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito.
Julgou detectar um leve sorriso no rosto da arqueóloga. Talvez ela tivesse entendido o que ele estava tentando dizer. Depois, houve uma confusão de gritos que deu lugar a uma atividade organizada, com cada homem se dirigindo a seu posto, alguns correndo para a cúpula, para observar o eclipse nos telescópios, outros se dirigindo para os computadores, alguns usando instrumentos portáteis para registrar as mudanças no disco de Dovim. Naquele momento crucial, não havia lugar para emoções. Os homens eram simplesmente cientistas com um trabalho a ser feito. Theremon, sozinho no meio daquilo tudo, olhou em torno à procura de Beenay e, afinal, conseguiu localizá-lo, sentado diante de um teclado, trabalhando furiosamente em algum tipo de problema. Athor havia desaparecido.
Sheerin apareceu ao lado de Theremon e comentou, prosaicamente:
— O primeiro contato deve ter ocorrido há cinco ou dez minutos. Um pouquinho antes do previsto, mas nossos resultados não fora nada maus, se levarmos em conta as incertezas envolvidas. — Ele sorriu. — É melhor você sair de perto dessa janela.
— Por quê? — quis saber Theremon, que tinha se aproximado da janela de novo para olhar Dovim.
— Athor está furioso — sussurrou. — Perdeu o primeiro contato por causa da confusão causada por Folimun. Você está em um lugar perigoso. Se Athor entrar aqui, é capaz de jogá-lo pela janela.
Theremon fez que sim com a cabeça e sentou-se. Sheerin olhou para ele, surpreso.
— Que diabo, homem! — exclamou. — Você está tremendo!
— Hein? — Theremon passou a língua nos lábios secos e tentou sorrir. — Não estou me sentindo muito bem.
Os olhos do psicólogo o encararam com frieza.
— Não está perdendo a coragem, está?
— Não! — gritou Theremon, indignado. — Dê-me um tempo, está bem? Sabe, Sheerin, eu bem que tentei acreditar nessa história de eclipse. Sinceramente. Mas não consegui. Para mim, tudo não passava de uma fantasia dos cientistas. Eu queria acreditar por causa de Beenay, por causa de Siferra… até mesmo por causa de Athor. Mas não consegui. Não, até um minuto atrás. Dê-me um tempo para me acostumar à ideia, está bem? Você teve meses para se preparar.