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— Tem razão — replicou Sheerin, pensativo. — Escute, você tem família? Pais, mulher, filhos?

Theremon sacudiu a cabeça.

— Não. Tenho uma irmã, mas ela está a mais de três mil quilômetros de distância. Não falo com ela há anos.

— Está bem, mas quanto a você?

— Que quer dizer?

— Poderia tentar chegar ao nosso Abrigo. Não seria difícil arranjar um lugar para você. Ainda há tempo. Posso telefonar e avisar que está a caminho, e eles abrirão o portão para você.

— Acha que estou apavorado, não acha?

— Você mesmo disse que não estava se sentindo bem.

— E é verdade. Mas sou jornalista e estou aqui para fazer uma reportagem. Pretendo fazê-la até o fim.

Havia um leve sorriso no rosto do psicólogo.

— Entendo. Orgulho profissional, não é?

— Pode chamar assim, se quiser — Theremon olhou para o outro com ar cansado. — Além disso, fiz o que pude para sabotar os planos de Athor, não foi? Acha que eu teria cara agora para me refugiar no mesmo Abrigo que ridicularizei durante tanto tempo?

— Não tinha pensado nisso.

— Será que existe outra garrafa daquele vinho horroroso escondida em algum lugar? Nunca precisei tanto de um drinque…

— Psiu! — fez Sheerin. Deu uma cotovelada em Theremon, fazendo-o calar-se. — Está ouvindo? Preste atenção! Theremon acompanhou o olhar do outro e se deu conta da presença de Folimun 66, que, alheio a tudo, estava de frente para a janela, com uma expressão de êxtase no rosto, recitando alguma coisa em tom monótono. O repórter sentiu um arrepio.

— Que é que ele está dizendo? — sussurrou.

— Está repetindo um trecho do capítulo cinco do Livro das Revelações — respondeu Sheerin. — Fique quieto e preste atenção!

A voz do Apóstolo havia aumentado de volume, em um surto súbito de fervor:

— “E aconteceu que, naqueles dias, a vigia solitária do sol Dovim durava mais tempo a cada revolução, até que, por meia revolução, ele foi o único a brilhar, fraco e encolhido, sobre a superfície da Kalgash. E os homens se reuniram nas praças públicas e nas estradas, para discutir e se maravilhar com a visão, pois uma estranha depressão os acometera. Suas mentes estavam perturbadas e suas palavras eram confusas, porque as almas dos homens aguardavam a chegada das Estrelas. E na cidade de Trigon, ao meio-dia, Vendret se adiantou e disse aos homens de Trigon: “Arrependam-se, pecadores! Chegou a hora da justiça. A Caverna está se aproximando para engolir Kalgash e tudo que ele contém.” E enquanto falava, a boca da Caverna da Escuridão passou pela borda de Dovim, de modo que o sol ficou escondido das vistas de todos os habitantes de Kalgash. Muitos foram os gritos dos homens quando ele desapareceu, e um grande medo se apossou de todos.

— A Escuridão da Caverna se abateu sobre Kalgash, e não havia nenhuma luz em toda a superfície do mundo. Os homens se sentiam como se estivessem cegos. Ninguém podia ver o seu vizinho, embora sentisse a sua respiração. E nesta escuridão apareceram as Estrelas, em números incontáveis, e seu brilho era como o brilho de todos os deuses reunidos. E com as estrelas veio também uma música de tal beleza que as próprias folhas das árvores entoaram louvores. E nesse momento as almas dos homens se foram, e seus corpos abandonados se transformaram em animais selvagens; sim, em feras irracionais, que vagavam pelas ruas escuras de Kalgash dando gritos inumanos.

— Das Estrelas desceu então o Fogo Celestial, que era o portador da vontade dos deuses; e onde ele tocava, as cidades de Kalgash eram consumidas pelas chamas, de modo que nada restou do homem e das obras do homem. Foi então…

Houve uma mudança sutil no tom que Folimun estava usando. Seus olhos continuavam fixos no espaço, mas de alguma forma percebera que os outros dois estavam prestando atenção em suas palavras. Sem nenhum esforço, sem ao menos parar para respirar, o timbre de sua voz mudou, e as sílabas se tornaram mais suaves.

Theremon, pego de surpresa, franziu a testa. As palavras pareciam vagamente familiares. Tinha havido uma mudança indefinida no sotaque, uma pequena alteração no som das vogais. Nada mais… e, no entanto, agora era totalmente impossível compreender o que Folimun estava dizendo.

— Talvez Siferra consiga entendê-lo — disse Sheerin. Deve estar falando na língua litúrgica, a língua do Ano de Divindade anterior, da qual o Livro das Revelações foi supostamente traduzido.

Theremon olhou desconfiado para o psicólogo.

— Você está bem-informado, hein? Que é que ele está dizendo, então?

— Quem disse que eu sei? Andei lendo alguma coisa sobre a religião dos Apóstolos, é verdade, mas não o suficiente para traduzir uma língua antiga. Ei, nós não íamos trancá-lo no armário?

— Deixe-o onde está — disse Theremon. — Que diferença faz? É o grande momento da vida dele. Deixe-o aproveitar.

— Chegou a cadeira para trás e passou os dedos pelos cabelos. As mãos não estavam mais tremendo. — Engraçado observou. — Agora que tudo começou, não estou mais nervoso.

— Não?

— Por que estaria? — disse Theremon. Um toque de irreverência havia voltado a sua voz. — Não há nada que eu possa fazer para mudar as coisas. O jeito é relaxar… Acha que as Estrelas vão mesmo aparecer?

— Sei lá. Talvez Beenay possa nos dizer alguma coisa.

— Ou Athor.

— É melhor deixar Athor de fora — aconselhou o psicólogo, rindo. — Ele acabou de passar na porta e olhou para você com cara de poucos amigos.

Theremon fez uma careta.

— Eu ainda vou ter muito que ouvir depois que isto passar. Que é que você acha, Sheerin? É seguro ir lá fora apreciar o eclipse?

— Quando a Escuridão for total…

— Não estou falando da Escuridão. Não tenho medo da Escuridão. Estou falando das Estrelas.

— Das Estrelas? — repetiu Sheerin, com impaciência. Eu já disse-lhe que não sei nada sobre as Estrelas.

— Provavelmente não são tão assustadoras como o Livro das Revelações parece insinuar. Se aquela experiência que os dois estudantes fizeram com os furinhos no teto significa alguma coisa… — Ele virou as palmas das mãos para cima, como se a resposta pudesse estar nelas. — Diga-me, Sheerin, que é que você acha? Algumas pessoas não podem ser imunes à Escuridão e às Estrelas?

O psicólogo deu de ombros e apontou para o piso. Dovim já havia passado pelo zênite e o quadrado de luz vermelha que se projetava da janela para dentro da sala se deslocara para o centro do aposento, onde parecia a marca de algum crime hediondo. Theremon contemplou, pensativo, a mancha colorida e depois abaixou-se para olhar diretamente para o sol.

A sombra havia aumentado para cobrir um terço de Dovim. O repórter estremeceu. Um dia, de brincadeira, conversara com Beenay sobre dragões no céu. Agora parecia que o dragão havia chegado, já engolira cinco dos sóis e estava devorando rapidamente o último que restava.

— Existem provavelmente dois milhões de pessoas na cidade de Saro que estão todas tentando se juntar aos Apóstolos ao mesmo tempo — observou Sheerin. — Aposto como neste momento estão realizando uma gigantesca cerimônia de iniciação na sede do culto… se eu acho que algumas pessoas podem ser imunes aos efeitos da Escuridão? Ora, daqui a pouco vamos saber ao certo, não vamos?

— Tem que haver. Caso contrário, como foi que os Apóstolos conseguiram fazer passar o Livro das Revelações de ciclo para ciclo? Como conseguiram escrevê-lo, em primeiro lugar? Alguns devem ser imunes, porque se todos ficassem loucos, quem restaria para escrever o livro?