O astrônomo se colocara entre os dois e a luz. Sheerin olhou para ele, ansioso.
— Olá, Beenay.
— Incomodam-se se eu me juntar a vocês? — perguntou. — Acabei de ajustar os aparelhos e não tenho nada para fazer até a totalidade. — Fez uma pausa e olhou para o Apóstolo, que tinha tirado do bolso um livro pequeno, encadernado, e não parara de ler desde então.
— Vocês não iam trancá-lo em um armário?
— Mudamos de ideia — disse Theremon. — Sabe onde está Siferra, Beenay? Eu a vi há pouco, mas ela não parece estar aqui agora.
— Lá em cima, na cúpula. Queria dar uma olhada no telescópio maior. Não que haja alguma coisa que não possa ser vista a olho nu.
— E Kalgash Dois? — perguntou Theremon.
— Que há para ver? Escuridão é Escuridão. Podemos ver os efeitos de sua passagem diante de Dovim. Kalgash Dois em si, porém, é apenas um pedaço de noite no céu noturno.
— Noite… — cismou Sheerin. — Que palavra estranha!
— Já deixou de ser estranha — disse Theremon. — Quer dizer que não é possível ver o tal satélite, mesmo com o auxílio do grande telescópio?
Beenay pareceu envergonhado.
— Nossos telescópios não são na verdade muito sensíveis, você sabe. Servem para observar os sóis, mas quando a luz é escassa… — Sacudiu a cabeça. Endireitou o corpo, e seu rosto se contraiu com o esforço para respirar normalmente.
— Mas Kalgash Dois existe. A estranha zona de Escuridão que está passando entre nós e Dovim… isso é Kalgash Dois.
— Está sentindo dificuldade para respirar, Beenay? perguntou Sheerin.
Beenay aspirou o ar.
— Um pouco. Acho que vou ficar resfriado.
— É mais provável que sejam os primeiros sintomas de claustrofobia.
— Você acha?
— Acho. Alguém mais está se sentindo estranho?
— Tenho a impressão de que meus olhos estão falhando — disse Beenay. — As coisas ficaram fora de foco. Estou com frio, também.
— Oh, está frio, não há dúvida. Isso não é nenhuma ilusão. — Theremon fez uma careta. — É como se meus pés estivessem numa geladeira.
— O que precisamos — observou Sheerin — é distrair a cabeça com outros assuntos. Há pouco eu estava explicando-lhe, Theremon, por que a experiência de Faro com os furos no teto fracassou.
— Estava começando a explicar — disse o repórter. Ele abraçou as pernas dobradas e apoiou o queixo nos joelhos.
O que eu devia fazer, pensou, era ir lá em cima procurar Siferra, porque falta muito pouco para a totalidade. Entretanto, estava se sentindo estranhamente apático. Ou seria simplesmente o medo de encará-la?
— Como eu comecei a dizer, o erro que cometeram foi tomar ao pé da letra o que está escrito no Livro das Revelações. Ao que tudo indica, as Estrelas não têm existência real. Pode ser, você sabe, que na presença da Escuridão total, a mente sinta uma necessidade vital de criar algum tipo de luz As Estrelas podem ser simplesmente essa ilusão de luz.
— Você está querendo dizer que as Estrelas são consequência da loucura, e não uma de suas causas – interrompeu Theremon. — Nesse caso, de que servirão as fotografias que os astrônomos estão tirando esta noite?
— Servirão para provar que as Estrelas não passam de uma ilusão. Mas pode ser que eu esteja errado. Pode ser…
Beenay arrastara sua cadeira para mais perto, e havia uma expressão súbita de entusiasmo em seu rosto.
— Que bom que vocês dois puxaram o assunto. — Seus olhos se estreitaram, e ele começou: — Estive pensando nessas Estrelas e tive uma ideia que me pareceu muito interessante. Naturalmente, não disponho de provas concretas, de modo que tudo não passa de mera especulação. Querem ouvir assim mesmo?
-Por que não? — disse Sheerin, recostando-se na cadeira.
Beenay parecia meio relutante. Mas Sheerin sorriu e com timidez prosseguiu:
— Suponhamos que existam outros sóis no universo.
Theremon começou a rir.
— Você disse que era uma especulação, mas mesmo assim…
— Não, não é tão fantástico como parece. Não me refiro a sóis tão próximos quanto os que já conhecemos, que por alguma razão misteriosa não conseguimos ver. Estou falando de sóis tão distantes que não possam ser vistos em condições normais. Se estivessem próximos, seriam tão brilhantes quanto Onos, talvez, ou Tano e Sitha. Mas como estão muito mais afastados, sua luz é para nós como pequenos pontos luminosos, que o brilho constante dos nossos seis sóis se encarrega de ocultar.
— Não está se esquecendo da Lei da Gravitação Universal? — objetou Sheerin. — Se esses sóis existissem, sua presença não se manifestaria através de forças atrativas, como ocorre com Kalgash Dois?
— Não, se eles estivessem suficientemente distantes explicou Beenay. — Realmente distantes… quatro anos-luz, ou mais. Nesse caso, as perturbações seriam pequenas demais para serem detectadas.
— Quantos anos tem um ano-luz? — perguntou Theremon.
— Sua pergunta não faz sentido. O ano-luz é uma unidade de comprimento. Corresponde à distância que a luz percorre em um ano. O que, em quilômetros, é um número imenso, já que a luz viaja muito depressa. De acordo com nossas estimativas mais recentes, a velocidade da luz é da ordem de 25O mil quilômetros por segundo, mas os dados não são muito precisos. Acho que se tivéssemos instrumentos melhores, descobriríamos que a velocidade da luz é ainda um pouco maior que este valor. Entretanto, mesmo tomando a velocidade da luz como sendo de 25O mil quilômetros por segundo, podemos calcular que Onos está a cerca de dez minutos-luz daqui, Tano e Sitha estão a uma distância onze vezes maior, e assim por diante. Nesse caso, um sol situado a alguns anos-luz de distância estaria muito, muito longe de Kalgash. Tão longe que jamais poderíamos detectar as perturbações causadas na órbita do nosso planeta, porque elas seriam insignificantes. Muito bem: vamos supor que existam muitos sóis no universo, a uma distância de quatro a oito anos-luz de Kalgash. Uma ou duas dúzias desses sóis, talvez.
Theremon deu um assovio.
— Que grande ideia para um suplemento dominical! Duas dúzias de sóis, em um universo com um raio de mais de oito anos-luz! Puxa vida! Isso reduziria nosso universo a uma insignificância! Imagine… Kalgash e seus sóis ocupando apenas um cantinho do universo real. E nós pensando que éramos importantes, que nós e nossos seis sóis estávamos sozinhos no cosmo!
— É apenas uma ideia — disse Beenay, com um sorriso mas vocês percebem aonde quero chegar. Durante um eclipse, esses sóis ficariam visíveis, porque a luz dos sóis de verdade não estaria presente para ofuscá-los. Como estão muito distantes, pareceriam pequenos, como pontinhos luminosos no céu. Mas ali estariam elas: as Estrelas. Os pontos de luz que os Apóstolos nos prometeram.
— Os Apóstolos falam de um “número incontável” de Estrelas — observou Sheerin. — Isso é muito diferente de uma ou duas dúzias, não acha? É mais como alguns milhões, hein?
— Exagero poético — argumentou Beenay. — Simplesmente não haveria lugar no universo para milhões de estrelas… a menos que estivessem empilhadas uma contra as outras, de modo que se tocassem.
— Além do mais — interveio Theremon -, depois que passamos de uma ou duas dúzias, será que é possível realmente apreender o conceito de número? Aposto que duas dúzias poderiam parecer aos antigos Apóstolos um número “incontável”… especialmente se houvesse um eclipse acontecendo e estivessem todos perturbados por causa da Escuridão. Sabe de uma coisa? Algumas tribos primitivas têm apenas três palavras para os números: “um”, “dois” e “muitos”. Somos um pouco mais sofisticados do que isso, talvez. De modo que, para nós, uma dúzia ou duas ainda fazem sentido. Um número maior, porém, ainda nos parece como “incontável”. — O repórter parecia entusiasmado. — Uma dúzia de sóis, assim de repente! Imagine!