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Está chegando, pensou Theremon. A hora da Escuridão total. A hora das Estrelas. Por um instante, pensou que talvez fosse melhor procurar algum armário aconchegante e trancar-se lá dentro até tudo terminar. Ficar fora do caminho, evitar a visão das Estrelas, esconder-se e esperar que as coisas voltassem ao normal. Bastou um momento de reflexão, porém, para se convencer de que era uma péssima ideia. Um armário, ou qualquer outro lugar fechado, também estaria escuro. Em vez de um refúgio seguro, poderia tomar-se uma câmara de horrores muito pior do que os aposentos do Observatório.

Além disso, se algo importante estava para acontecer, algo capaz de mudar a história do mundo, Theremon não queria se manter à margem. Seria uma atitude tola e covarde, algo que provavelmente se arrependeria pelo resto da vida. Nunca tinha sido homem de fugir do perigo, se achava que havia assunto para uma reportagem. Além do mais, tinha confiança suficiente em si mesmo para achar que sobreviveria ao que estava para acontecer… e um resto de cinismo que o fazia imaginar se realmente estaria para acontecer alguma coisa.

Ficou em silêncio, escutando a respiração pesada de alguém tentando recuperar a compostura em um mundo que se dissolvia aos poucos nas sombras. Foi então que ouviu outro ruído. Era uma vaga impressão de som, que teria passado despercebida, se não fosse o silêncio mortal que tomara conta do aposento e a tensão que se apossara de Theremon com a aproximação da totalidade. O repórter prendeu a respiração e escutou; depois, foi até a janela e olhou para fora. O silêncio foi quebrado pelo seu grito assustado:

— Sheerin!

Houve um tumulto na sala. Estavam todos olhando para ele, apontando, perguntando.

O psicólogo correu para o lado de Theremon. Siferra juntou-se a ele. Até mesmo Beenay, sentado diante dos computadores, virou a cabeça para olhar.

Lá fora, Dovim era uma pequena lasca vermelha, dando uma última olhada desesperada para Kalgash. O horizonte a leste, na direção da cidade, estava perdido na Escuridão, e a estrada que ligava a cidade de Saro ao Observatório era uma linha avermelhada, ladeada de árvores, que pareciam haver perdido sua individualidade, transformando-se em uma massa sombria.

Mas era a estrada que atraía a atenção, porque no meio dela havia outra massa sombria, infinitamente mais perigosa, movendo-se na direção do Observatório, como uma fera gigantesca.

— Vejam! — gritou Theremon, com voz rouca. — Precisamos avisar a Athor! São os loucos da cidade! Os homens de Folimun! Estão chegando!

— Quanto tempo falta para a totalidade? — perguntou Sheerin.

— Faltam quinze minutos — informou Beenay. — Mas eles vão chegar aqui em cinco — disse Sheerin . Sua voz era firme, controlada, autoritária, como se tivesse conseguido encontrar um reservatório secreto de energia interior naquele momento crítico. — Eles não vão conseguir entrar. Este lugar parece uma fortaleza. Siferra, vá lá em cima contar a Athor o que está acontecendo. Beenay, não tire os olhos de Folimun. Jogue-o no chão e sente em cima dele se for preciso, mas mantenha-o onde está. Theremon, venha comigo.

Sheerin estava na porta, e Theremon nos seus calcanhares. A escada descia em espiral e desaparecia nas sombras. O impulso da corrida os fez descer uns quinze metros, de modo que a luz trêmula e amarelada que saía pela porta da sala desapareceu totalmente e eles se viram imersos na escuridão.

Sheerin parou e levou ao peito a mão rechonchuda. Os olhos se arregalaram e a voz se tomou uma tosse seca. Todo o seu corpo tremia de medo. A energia que demonstrara há poucos momentos parecia ter se esgotado.

— Não posso… respirar… Desça… sozinho. Feche todas as portas…

Theremon desceu mais alguns degraus e parou.

— Espere! Pode agüentar um minuto? — Ele também respirava com dificuldade. O ar entrava e saía dos pulmões como se fosse pegajoso, e sentiu uma ponta de medo quando pensou em fazer sozinho o caminho naquela Escuridão misteriosa.

E se os guardas tivessem deixado o portão aberto? Não era a multidão que o assustava. Era… A Escuridão.

Theremon compreendeu que, no final das contas, também tinha medo do escuro!

— Fique aqui — disse, desnecessariamente, para Sheerin, que estava encolhido na escada, no mesmo lugar em que Theremon o deixara. — Volto num segundo.

Subiu a escada de dois em dois degraus, com o coração aos pulos, não só pelo exercício, entrou na sala principal e arrancou uma das tochas do suporte. Siferra olhou para ele, surpresa.

— Quer que eu vá com você? — perguntou.

— Quero. Não. Não!

Saiu de novo da sala. A tocha tinha um cheiro desagradável, e a fumaça quase o cegou, mas agarrou a tocha como se quisesse beijá-la de alegria e desceu as escadas correndo.

Sheerin ainda estava no mesmo lugar. Ele abriu os olhos e gemeu quando Theremon se agachou a seu lado. O repórter o sacudiu.

— Tente controlar-se, está bem? Eu trouxe uma tocha. Levantou a tocha bem alto e segurando o cambaleante psicólogo pelo cotovelo, começou a descer as escadas, no centro do círculo protetor de luz.

No andar térreo, estava tudo escuro. Theremon sentiu de novo uma onda de medo, mas a tocha abriu uma brecha na Escuridão.

— Os guardas da segurança… — murmurou Sheerin . Onde estavam? Teriam fugido? Parecia que sim. Não, ali estavam dois dos guardas que Athor havia destacado, encolhidos em um canto do saguão, os olhos sem expressão, a língua de fora, tremendo como geleia. Dos outros, nem sinal.

— Segure — disse o jornalista, passando a tocha para Sheerin. — Já se pode ouvi-los lá fora.

Era verdade. Gritos roucos, abafados.

Mas Sheerin estava certo; o Observatório parecia uma fortaleza. Construído no século anterior, quando o estilo neogavotiano de arquitetura estava no apogeu, tinha sido projetado tendo em vista a estabilidade e durabilidade, e não a beleza.

As janelas eram protegidas por grossas barras de ferro enterradas bem fundo nos parapeitos de concreto. As grossas paredes não poderiam ser abaladas por um terremoto, e a porta principal era de carvalho maciço, reforçado com cintas metálicas em pontos estratégicos. Theremon verificou os ferrolhos. Ainda estavam no lugar.

— Pelo menos, não podem ir entrando, como Folimun fez — disse, ofegante. — Mas escute só! Estão do lado de fora!

— Temos que fazer alguma coisa.

— Tem toda razão — disse Theremon. — Não fique aí parado! Ajude-me a arrastar esses caixotes e colocá-los contra a porta… e mantenha essa tocha longe dos meus olhos. A fumaça está me matando.

Os caixotes estavam cheios de livros, instrumentos científicos, objetos variados, todo um museu de astronomia. Só os deuses sabiam quanto pesavam, mas alguma força sobrenatural se apossara de Theremon naquele momento de crise e ele conseguiu deslocá-los, como se fossem travesseiros, com a ajuda, não muito eficiente, de Sheerin.

Os pequenos telescópios e outros aparelhos chocalharam, enquanto ele transportava os caixotes. Ouviu um barulho de vidro quebrado. Beenay vai me matar, pensou Theremon. Ele adora essas quinquilharias.

Mas não estava na hora de ser delicado. Amontoou os caixotes contra a porta e, em poucos minutos, havia erguido uma barricada que, com sorte, seria capaz de conter os invasores se eles conseguissem arrombar o portão.

Podiam ouvir, com se viesse de muito longe, o som de punhos cerrados batendo na porta. Gritos… gemidos… Era como um terrível pesadelo.

A multidão partira de Saro com apenas duas coisas na mente: a vontade de destruir o Observatório e assim conseguir a absolvição prometida pelos Apóstolos, e um medo irracional que quase os deixava paralisados. Não houvera tempo para pensar em veículos, em armas, em líderes, nem mesmo em organização. Tinham se dirigido para o Observatório a pé e tentavam invadi-lo com mãos nuas.