Выбрать главу

— Ah, Mestre Andra — disse o estalajadeiro, dirigindo-se a Lan. — E um Ogier, como o senhor disse. Não que eu duvidasse, é claro. Não com tudo o que aconteceu, e jamais de sua palavra, mestre. Por que não um Ogier? Ah, amigo Ogier, tê-lo nesta casa me dá mais satisfação do que pode imaginar. É uma coisa muito boa, e a cereja do bolo. Ah, e a senhora… — Os olhos do homem sorveram a seda azul profunda do vestido de Moiraine e a lã encorpada de seu manto, empoeirada pela viagem, mas ainda bela. — Perdoe-me, milady, por favor. — A mesura que engatou o fez dobrar-se como uma ferradura. — Mestre Andra não deixou clara sua posição, milady. Não quis desrespeitá-la. A senhora é ainda mais bem-vinda aqui que o amigo Ogier, é claro, milady. Por favor, não se ofenda com o linguajar de Gainor Furlan.

— Não é ofensa alguma. — A voz de Moiraine aceitou o título que Furlan lhe dera com tranquilidade. Estava longe de ser a primeira vez que a Aes Sedai usava outro nome ou fingia ser o que não era. Também não era a primeira vez que Perrin ouvia Lan se apresentar como Andra. O capuz largo ainda escondia as feições plácidas de Aes Sedai, e ela mantinha o manto apertado com uma das mãos, como se estivesse com frio. Mas não a mão com o anel da Grande Serpente. — Ouvi dizer que coisas estranhas têm acontecido na cidade, estalajadeiro. Nada que possa preocupar os viajantes, suponho.

— Ah, milady, de fato são coisas muito estranhas. Sua própria presença radiante é mais que suficiente para honrar esta humilde casa, milady, ainda mais junto com um Ogier, mas também temos Caçadores em Remen. Bem aqui na Ferraria de Wayland. Caçadores da Trombeta de Valere, saídos de Illian para uma aventura. E uma aventura foi o que encontraram, milady, aqui em Remen. Ou uma milha ou duas rio acima, onde lutaram com homens Aiel, se é que pode acreditar. A senhora pode imaginar selvagens Aiel de véus negros aqui em Altara, milady?

Aiel. Agora Perrin sabia o que havia de familiar com o homem dentro da jaula. Ele já vira um Aiel, um dos ferozes e quase lendários habitantes da terra implacável chamada Deserto. O homem se parecia bastante com Rand: mais alto que a maioria, de olhos cinzentos e cabelos avermelhados. E se vestia como o homem da jaula, em tons de marrom e cinza, para se camuflar em pedras e matagais, além das botas macias amarradas até os joelhos. Perrin quase podia ouvir a voz de Min outra vez. Um Aiel dentro de uma jaula. Um momento decisivo em sua vida, ou algo importante que vai acontecer.

— Por que foi que prenderam… — Ele parou para limpar a garganta e não soar tão rouco. — Como é que um Aiel foi parar em uma jaula na praça central?

— Ah, jovem mestre, essa é uma história para… — A voz de Furlan foi morrendo, e ele olhou para Perrin de cima a baixo, notando as roupas simples de camponês e o arco longo em suas mãos, e fazendo uma pausa para observar o machado no cinturão, do lado oposto da aljava. O homem roliço se assustou ao analisar o rosto de Perrin, como se, com uma milady e um Ogier presentes, só naquele momento tivesse notado os olhos amarelos do rapaz. — Seria seu servo, Mestre Andra? — perguntou, cauteloso.

— Responda o rapaz. — Foi tudo o que Lan respondeu.

— Ah. Sim, claro, Mestre Andra. Mas aqui está alguém que pode responder melhor do que eu. Lorde Orban em pessoa. É ele que nos reunimos para ouvir.

Um homem jovem, de cabelos escuros, vestindo um casaco vermelho e com as têmporas enfaixadas por uma bandagem, descia as escadas na lateral do salão. Usava muletas acolchoadas, e a perna esquerda da calça fora cortada para que mais bandagens cobrissem a panturrilha, do tornozelo ao joelho. O povo local murmurava, como se vissem algo incrível. Os capitães dos navios continuavam a conversar baixinho, falavam outra vez de peles.

Furlan até parecia pensar que o homem do casaco vermelho poderia contar a história melhor, mas ele próprio prosseguiu.

— Lorde Orban e Lorde Gann enfrentaram vinte Aiel ensandecidos com apenas dez homens. Ah, a luta foi dura e cruel, muitas feridas causadas e recebidas. Seis bons homens morreram, e todos se feriram. Lorde Orban e Lorde Gann se machucaram mais do que os outros, mas mataram cada Aiel, exceto os que fugiram e os que fizeram prisioneiro. Foi esse que os senhores viram lá na praça, onde não poderá perturbar mais o campo com sua selvageria, não mais do que podem os mortos.

— Tiveram problemas com Aiel na região? — indagou Moiraine.

Perrin se perguntava a mesma coisa, com a mesma consternação. Se as pessoas ainda usavam a expressão “Aiel de véu negro” de vez em quando, para expressar algo violento, era uma prova da impressão que a Guerra dos Aiel deixara. Mas aquilo fora vinte anos antes, e os Aiel não tinham saído do Deserto desde então. Mas eu vi um do lado de cá da Espinha do Mundo, e agora vi outro.

O estalajadeiro esfregou a cabeça careca.

— Ah. Ah, não, milady, não exatamente. Mas teríamos, pode ter certeza, com vinte selvagens à solta. Ora, todos se lembram de como eles mataram, saquearam e queimaram tudo no caminho para Cairhien. Homens dessa mesma aldeia marcharam na Batalha das Muralhas Reluzentes, quando as nações se uniram para derrotá-los. Na época, dei um mal jeito nas costas e não pude ir, mas me lembro muito bem, como todos os outros. Como chegaram aqui, tão longe de sua própria terra ou por que vieram eu não sei. Mas Lorde Orban e Lorde Gann nos salvaram deles. — Houve um murmúrio de concordância das pessoas em roupas festivas.

O próprio Orban veio mancando pelo salão, parecendo não notar ninguém além do estalajadeiro. Perrin sentiu o cheiro de vinho dormido antes mesmo de o homem se aproximar.

— Aonde é que foi aquela velha com as ervas, Furlan? — indagou Orban, com rispidez. — As feridas de Gann estão doendo, e minha cabeça está quase estourando.

Furlan curvou-se até quase encostar a própria cabeça no chão.

— Ah, Mãe Leich voltará de manhã, Lorde Orban. Um parto, lorde. Mas disse que iria suturar e passar cataplasma em suas feridas e nas de Lorde Gann, então não precisa se preocupar. Ah, Lorde Orban, tenho certeza de que ver o senhor será a primeira coisa que ela fará, amanhã.

O homem enfaixado resmungou algo entre dentes, algo que escapou aos ouvidos de todos, menos aos de Perrin, sobre esperar uma dona de casa “expulsar seu lixo” e algo mais sobre ser “costurado feito um saco de carne”. Ele se virou, emburrado, os olhos cheios de raiva, e pela primeira vez pareceu notar os recém-chegados. O homem dispensou Perrin na mesma hora, o que não surpreendeu o rapaz nem um pouco. Arregalou ligeiramente os olhos para Loial. Ele já viu Ogier, pensou Perrin, mas jamais pensou que encontraria um por aqui. Depois apertou-os um pouco para Lan. Ele sabe reconhecer um lutador, e não gosta de topar com um. Os olhos do homem cintilaram quando ele se inclinou para espiar dentro do capuz de Moiraine, embora não estivesse perto o bastante para enxergar seu rosto.

Perrin decidiu não pensar naquela reação, não no que dizia respeito a uma Aes Sedai, e esperava que Moiraine e Lan também não pensassem a respeito daquilo. Um brilho nos olhos do Guardião denunciava seu erro, pelo menos em relação a ele.

— Doze de vocês lutaram contra vinte Aiel? — perguntou Lan, com a voz impassível.

Orban endireitou-se, retraído pelo susto. Com naturalidade forçada, respondeu:

— É, espera-se esse tipo de coisa quando se procura a Trombeta de Valere. Não foi o primeiro encontro do tipo para mim e Gann, nem será o último até que encontremos a Trombeta. Se a Luz brilhar sobre nós. — Ele soava como se a Luz não tivesse como fazer qualquer outra coisa. — Nem todas as lutas foram contra os Aiel, é claro, sempre há os que tentarão impedir os Caçadores, se puderem. Gann e eu não desistimos fácil.

Os locais soltaram outro murmúrio de aprovação. Orban endireitou a postura.