— Vocês perderam seis homens e trouxeram um prisioneiro. — O tom de voz de Lan não deixava claro se era uma troca boa ou ruim.
— Foi — respondeu Orban —, matamos o resto, menos os que fugiram. A essa hora, sem dúvida estão escondendo os mortos. Ouvi dizer que eles fazem isso. Os Mantos-brancos estão procurando por eles, mas nunca os encontrarão.
— Tem Mantos-brancos por aqui? — perguntou Perrin, categórico.
Orban olhou para ele e ignorou-o mais uma vez. O homem voltou a se dirigir a Lan.
— Mantos-brancos sempre metem o bedelho onde não são chamados ou necessários. Grosseirões incompetentes, todos eles. É, vão percorrer o campo por dias, mas duvido que encontrem algo além de suas próprias sombras.
— Acho que não — retrucou Lan.
O homem enfaixado franziu a testa, como se não soubesse ao certo o que Lan queria dizer com aquilo, depois virou-se de volta para o estalajadeiro.
— Encontre aquela velha, está ouvindo? Minha cabeça está explodindo.
Com uma última olhada para Lan, ele foi embora mancando e subiu as escadas, um degrau de cada vez, seguido pelos murmúrios de admiração por um Caçador da Trombeta que massacrara alguns Aiel.
— Essa é uma cidade bem agitada. — A voz grave de Loial atraiu todos os olhares. Exceto os dos capitães, que pareciam debater sobre cordas, pelo que Perrin podia ouvir. — Em cada lugar que passo os humanos estão fazendo coisas, sempre correndo, apressados, trazendo novidades. Como é que vocês aguentam tanta agitação?
— Ah, amigo Ogier — respondeu Furlan —, é dessa agitação que nós humanos gostamos. Como me arrependo de não ter conseguido marchar até as Muralhas Reluzentes. Ora, deixe-me contar…
— Nossos quartos. — Moiraine não elevou a voz, mas as palavras cortaram o estalajadeiro como uma faca afiada. — Andra conseguiu quartos para nós, não foi?
— Ah, milady, me perdoe. Sim, Mestre Andra alugou quartos. Por favor, me perdoe. Toda essa empolgação acaba me deixando de miolo mole. Por favor, milady, me perdoe. Por aqui, por gentileza. Queiram me acompanhar. — Curvando-se e se arrastando, desculpando-se e balbuciando sem parar, Furlan conduziu o grupo pelas escadas até o andar de cima.
No topo da subida, Perrin hesitou e olhou para trás. Ouviu murmúrios de “Milady” e “Ogier” lá de baixo e pôde sentir todos aqueles olhares. No entanto, sentiu um par de olhos em particular, alguém que não encarava Moiraine e Loial, mas ele.
Perrin a encontrou na mesma hora. Primeiro porque estava afastada dos outros, e segundo por ser a única mulher no recinto que não usava sequer um pedacinho de renda. O vestido cinza-escuro, quase preto, era simples como as roupas dos capitães, com mangas largas e saias justas, sem o menor babado ou bordado. O vestido era aberto para montaria, percebeu quando ela se mexeu, e a mulher usava botas macias, que apareciam sob a bainha. Era jovem, talvez não mais velha do que ele, e alta para uma mulher, com os cabelos negros na altura dos ombros. Um nariz que por pouco não era muito grande e evidente, uma boca generosa, maçãs do rosto altas e olhos escuros, levemente oblíquos. Perrin não conseguia decidir se ela era bonita ou não.
Assim que ele olhou para baixo, a mulher se virou para chamar uma das serviçais e não olhou de novo para a escada, mas Perrin tinha certeza de que não se enganara. Ela estivera observando-o.
34
Uma Dança Diferente
Furlan continuava balbuciando enquanto levava os recém-chegados para seus quartos, embora Perrin não estivesse prestando muita atenção. Estava ocupado se perguntando se a garota de cabelos negros sabia o significado de seus olhos amarelos. Que me queime, ela estava me encarando. Então ouviu o estalajadeiro dizer as palavras “proclamando o Dragão em Ghealdan”, e pensou que as suas orelhas iriam se eriçar como as de Loial.
Moiraine parou onde estava, diante da porta de seu quarto.
— Há outro falso Dragão, estalajadeiro? Em Ghealdan? — O capuz do manto ainda escondia seu rosto, mas a voz saiu trêmula e abalada.
Mesmo ao ouvir a resposta do homem, Perrin não pôde evitar olhar para ela: sentia cheiro de algo que parecia medo.
— Ah, milady, não tema. São cem léguas até Ghealdan, e ninguém a perturbará aqui, não com Mestre Andra por perto, além de Lorde Orban e Lorde Gann. Por que…
— Responda! — retrucou Lan, com rispidez. — Há um falso Dragão em Ghealdan?
— Ah. Ah, não, Mestre Andra, não exatamente. Eu disse que há um homem proclamando o Dragão em Ghealdan, pelo que ouvimos uns dias atrás. Pregando a vinda dele, pode-se dizer. Falando daquele sujeito de Tarabon de que ouvimos tanto. Embora alguns digam que ele é de Arad Doman, não de Tarabon. Em ambos os casos, é muito longe daqui. Ora, em qualquer outro dia é de se esperar mais falatório sobre isso do que sobre qualquer outra coisa, exceto talvez das histórias loucas sobre o retorno do exército de Asa-de-gavião… — Os olhos gélidos de Lan podiam muito bem ser lâminas afiadas, pelo jeito como Furlan engoliu em seco e esfregou as mãos com mais vigor. — Só sei o que eu escuto, Mestre Andra. Dizem que o sujeito tem um olhar que faz você parar onde quer que esteja. E também que ele fala toda sorte de baboseiras sobre a vinda do Dragão para nos salvar, como todos temos que segui-lo, e que até as bestas vão lutar pelo Dragão. Não sei se já prenderam o sujeito ou não. É provável, uma vez que o povo de Ghealdan não aguentaria esse falatório por tanto tempo.
Masema, pensou Perrin, admirado. É o infeliz do Masema.
— Tem razão, estalajadeiro — disse Lan. — Esse sujeito não vai nos perturbar por aqui. Conheci um homem que gostava de fazer discursos inflamados. A senhora se lembra dele, Lady Alys? Masema?
Moiraine levou um susto.
— Masema. Sim, é claro. Já tinha me esquecido dele. — Ela deixou a voz mais firme. — Quando encontrar Masema outra vez, ele desejará ter tido o couro arrancado para fazer botas. — Ela bateu a porta do quarto com tanta força que o estrondo ecoou pelo corredor.
— Façam silêncio! — Um grito abafado veio do canto oposto. — Minha cabeça está explodindo!
— Ah. — Furlan limpou as mãos em uma direção, depois as esfregou no sentido oposto. — Ah. Peço perdão, Mestre Andra, mas Lady Alys é uma mulher impetuosa.
— Apenas com os que a desagradam — retorquiu Lan, em tom monótono. — E a mordida é muito pior do que o ladrado.
— Ah. Ah. Ah. Seus quartos ficam por aqui. Ah, amigo Ogier, quando Mestre Andra me contou que estava a caminho, mandei descer do sótão uma antiga cama Ogier, que estava apanhando poeira havia uns trezentos anos ou mais. Ora, é…
Perrin deixou correrem as palavras do homem, ouvindo-as tanto quanto uma pedra ouve as águas do rio. A jovem de cabelos negros o perturbava. E o Aiel enjaulado.
Já dentro do quarto — um pequeno, nos fundos, já que Lan não fizera nada para corrigir o estalajadeiro de sua impressão de que Perrin era um servo —, ele se movimentava de forma mecânica, ainda envolto em pensamentos. Desamarrou a corda do arco e apoiou-o em um canto. Manter a corda presa por muito tempo arruinava tanto o arco quanto a corda. Depois pousou o cobertor e os alforjes junto ao lavatório e jogou o manto por cima. Pendurou o cinturão com a aljava e o machado em um gancho na parede, e já ia se deitando na cama quando um bocejo fez sua mandíbula estalar, lembrando-o do perigo que aquilo poderia trazer. A cama era estreita, e o colchão parecia todo encalombado, porém era mais convidativa do que qualquer cama de que ele se lembrava. Em vez de deitar, sentou-se no banquinho de três pés e refletiu. Gostava sempre de pensar bastante nas coisas.
Depois de um tempo, Loial bateu à porta e pôs a cabeça para dentro. As orelhas do Ogier praticamente tremiam de empolgação, e ele exibia um grande sorriso.
— Perrin, você não vai acreditar! Minha cama é de madeira cantada! Ora, deve ter bem mais de mil anos de idade! Nenhum Cantor das Árvores cantou uma peça tão grande em todo esse tempo. Eu mesmo não me daria ao trabalho de tentar, e tenho um talento mais forte do que a maioria dos Ogier de agora. Para dizer a verdade, já não existem mais muitos de nós com esse talento. Mas sou um dos que mais sabe cantar as árvores.