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— Que interessante — respondeu Perrin. Um Aiel numa jaula. Foi isso o que Min disse. Por que aquela garota estava me encarando?

— Foi o que pensei. — Loial soou um tanto chateado por ele não compartilhar a empolgação, mas tudo o que Perrin desejava era pensar. — O jantar está pronto lá embaixo, Perrin. Prepararam a melhor refeição para caso os Caçadores queiram, mas poderemos comer um pouco.

— Vá você, Loial. Não estou com fome. — O aroma de carne cozida que subia da cozinha não o interessara. Ele mal notou a saída do amigo.

Com as mãos nos joelhos e bocejando de vez em quando, ele tentou refletir. Parecia um daqueles quebra-cabeças que Mestre Luhhan fazia, com peças de metal que pareciam se unir de maneira insolúvel. Mas sempre havia um truque para fazer os nós e as armações de ferro se desmantelarem, e também deveria haver um, neste caso.

A garota tinha olhado para ele. Seus próprios olhos poderiam ter sido o motivo, exceto pelo fato de que o estalajadeiro os ignorara e ninguém mais os notara. Tinham um Ogier para admirar, além de Caçadores da Trombeta na casa, a visita de uma lady e um Aiel enjaulado na praça. Nada tão pequeno quanto a cor dos olhos de um homem poderia lhes chamar a atenção. Nada que viesse de um servo poderia competir com os outros. Então por que ela escolheu a mim para encarar?

E o Aiel na gaiola. As visões de Min eram sempre importantes. Mas como? O que ele deveria fazer? Eu podia ter impedido aquelas crianças de atirarem pedras. Deveria ter impedido. Não adiantava nada dizer a si mesmo que os adultos certamente o mandariam cuidar da própria vida, que ele era um estranho em Remen e que o Aiel não era de sua conta. Eu deveria ter tentado.

Não lhe veio resposta alguma, então retornou ao início e, com muita paciência, começou a rever os fatos. Depois de novo, e de novo. Continuava a não encontrar resposta, apenas o arrependimento pelo que não fizera.

Depois de um tempo, percebeu que a noite já havia caído. O quarto estava escuro, exceto por uma pequena faixa de luar que entrava pela única janela. Ele pensou na vela de sebo e no acendedor que jaziam sobre cornija acima da lareira estreita, mas aquela luz era mais do que suficiente para seus olhos. Tenho que fazer alguma coisa, não tenho?

Ele afivelou o cinturão com o machado, depois parou. Agira sem pensar, e usar o machado se tornara tão natural quanto respirar. Não gostava disso. Porém, manteve o cinturão e saiu.

A luz das escadas deixava o corredor quase todo iluminado. O som de risadas e conversas vinha do salão, e aromas subiam da cozinha. Ele avançou em direção à entrada da estalagem, até o quarto de Moiraine, deu uma batida na porta e entrou. Então parou, com o rosto queimando.

Moiraine fechou o robe azul-claro que pendia dos ombros.

— Deseja alguma coisa? — perguntou, friamente. Tinha uma escova de cabelos prateada em uma das mãos, e os cabelos escuros, que caíam pelo pescoço em ondas negras, cintilavam como se ela estivesse escovando-os. O quarto era de longe muito melhor que o dele, com painéis de madeira nas paredes, lampiões folheados a prata e um fogo suave na ampla lareira de tijolos. O ar tinha uma fragrância de sabão de rosas.

— Eu… pensei que Lan estivesse aqui — conseguiu dizer. — Vocês dois sempre andam juntos, então eu pensei… pensei…

— O que você quer, Perrin?

Ele respirou fundo.

— Isso é coisa do Rand? Sei que Lan o seguiu até aqui, e tudo parece esquisito, com os Caçadores, o Aiel… mas foi ele quem fez isso?

— Acredito que não. Saberei mais quando Lan me contar o que descobrir hoje à noite. Com sorte, o que ele encontrar ajudará na escolha que tenho que fazer.

— Escolha?

— Rand pode ter atravessado o rio, indo por terra a caminho de Tear. Ou pode ter pegado um navio e descido o rio até Illian, com a intenção de partir em outro de lá para Tear. A jornada é muitas léguas mais comprida por esse caminho, porém dias mais rápida.

— Acho que não vamos alcançar Rand, Moiraine. Não sei como ele consegue, mas mesmo a pé está muito adiantado. Se Lan estiver certo, ele ainda está meio dia à nossa frente.

— Eu poderia até suspeitar que ele tenha aprendido a Viajar — comentou Moiraine, franzindo um pouco a testa —, só que, se tivesse, ele iria direto para Tear. Não, ele tem o sangue dos andarilhos e corredores nas veias. Mas podemos pegar o rio mesmo assim. Se eu não conseguir alcançá-lo, estarei em Tear logo depois que ele chegar. Ou esperando-o.

Perrin remexia os pés, incomodado. A voz dela tinha um tom de promessa fria.

— Uma vez você me disse que era capaz de sentir um Amigo das Trevas ou alguém que havia muito tivesse partido para as Sombras, pelo menos. Lan também. Vocês sentiram alguma coisa assim por aqui?

Ela fungou alto e se virou para um espelho de chão comprido, com finos entalhes de prata nos pés. Mantendo o robe fechado com uma das mãos, ela passou a escova pelos cabelos com a outra.

— Poucos humanos chegaram a esse ponto, Perrin, mesmo entre os piores Amigos das Trevas. — A escova parou no meio do caminho. — Por que a pergunta?

— Tinha uma garota no salão me encarando. Não olhava para você ou Loial, como todos os outros. Olhava para mim.

Ela retomou o movimento da escova, e um breve sorriso tocou-lhe os lábios.

— Às vezes você se esquece, Perrin, de que é um rapaz bonito. Algumas mulheres admiram um belo par de ombros.

Ele grunhiu e trocou o peso de pé.

— Aconteceu alguma outra coisa, Perrin?

— Hã… não. — Ela não poderia ajudar em relação à visão de Min, não além de dizer que era importante, o que ele já sabia. E ele não queria contar a ela o que Min vira. Aliás, não queria nem contar que Min vira algo.

De volta ao corredor, com a porta fechada, ele se encostou à parede por um instante. Luz, acabei de entrar no quarto desse jeito, e ela… Era uma bela mulher. E com idade para ser minha mãe, no mínimo. Pensou que Mat decerto a teria convidado para uma dança no salão. Não teria nada. Nem Mat seria idiota a ponto de tentar seduzir uma Aes Sedai. Moiraine dançava. Ele mesmo já dançara com ela, uma vez. Quase tropeçando nos próprios pés a cada passo. Pare de pensar nela como uma garota de aldeia, só porque a viu… Ela é uma maldita Aes Sedai! E você tem mais é que se preocupar com aquele Aiel. Ele se recompôs e desceu as escadas.

O salão estava em sua lotação máxima, com todas as cadeiras ocupadas, além dos bancos e das banquetas, e os que não tinham onde sentar se encostavam nas paredes. Ele não viu a garota de cabelos negros, e ninguém reparou quando ele cruzou o salão.

Orban ocupava uma mesa sozinho, a perna enfaixada apoiada em uma cadeira acolchoada, com uma pantufa macia no pé erguido e um cálice de prata na mão, que as serviçais mantinham sempre cheio de vinho.

— É — dizia a todo o salão —, sabíamos que os Aiel eram lutadores implacáveis, Gann e eu, mas não havia tempo para titubear. Desembainhei a espada, meti os calcanhares nos flancos de Leão…

Perrin se assustou, mas percebeu que o nome do cavalo do homem era Leão. Não seria improvável que ele dissesse que cavalgava um leão. Sentiu uma pontada de vergonha: só porque não gostava do sujeito, não significava que havia razão para supor que o Caçador fosse se gabar tanto. Correu para fora sem olhar para trás.

A rua estava tão apinhada quanto a estalagem, com gente que não conseguira um lugar no salão espiando pelas janelas, e o dobro de gente amontoada diante das portas, todos tentando ouvir a história de Orban. Ninguém deu a menor atenção a Perrin, embora sua passagem tivesse gerado resmungos dos que se aglomeravam um pouco mais longe da porta.