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Naquela noite, toda a gente fora de casa devia estar na estalagem, pois ele não viu vivalma ao caminhar até a praça. Às vezes, a sombra de uma pessoa se movia por detrás de uma janela iluminada, mas era só. Tinha a sensação de estar sendo observado e olhava em volta, desconfortável. Nada além de ruas envoltas pela noite, pontilhadas de janelas reluzentes. Ao redor da praça, a maioria das janelas estava escura, a não ser algumas nos andares de cima.

A forca continuava igual ao que ele se lembrava, e o homem, o Aiel, ainda estava enjaulado, erguido a uma altura que Perrin não conseguia alcançar. O prisioneiro parecia acordado, pelo menos tinha a cabeça erguida, mas não olhou para Perrin. As pedras que as crianças haviam atirado estavam espalhadas pelo chão.

A jaula pendia de uma corda grossa, amarrada a um aro em uma das barras superiores, que depois passava por uma pesada roldana acoplada à barra horizontal da forca e ia até um par de tocos no chão, cada um da altura das pernas de um homem, presos de cada lado da plataforma. A sobra de corda fora embolada sem cuidado aos pés da forca.

Perrin olhou em volta outra vez, esquadrinhando a praça escura. Ainda tinha a sensação de estar sendo observado, mas não via nada. Tentou ouvir o ambiente, mas não escutou qualquer barulho. Sentia o cheiro das chaminés e das cozinhas das casas, além de suor e sangue seco do homem dentro da jaula. O homem não cheirava a medo.

O peso dele, e mais o da jaula, pensou, ao se aproximar da forca. Não sabia quando tomara a decisão, nem sequer se de fato decidira, mas sabia que o faria.

Ele enganchou uma perna em volta da pesada plataforma e içou a corda, erguendo a jaula o suficiente para afrouxá-la um pouco. Um solavanco na corda revelou que o homem dentro da jaula enfim se movera, mas Perrin estava com pressa demais para parar e informar ao sujeito o que estava fazendo. Com a corda frouxa, pôde desamarrá-la dos tocos. Ainda com a perna enganchada à plataforma, baixou a jaula depressa até os blocos de pavimento.

O Aiel agora olhava para ele, estudando-o em silêncio. Perrin não disse uma palavra. Quando pôde olhar direito para a jaula, apertou os lábios. Se era preciso fabricar algo, mesmo que algo dessa natureza, era importante fazer um bom trabalho. Porém, a frente inteira era uma porta, com dobradiças toscas feitas por mãos descuidadas, presa por um bom cadeado de ferro a uma corrente forjada de um jeito tão malfeito quanto a jaula. Ele manuseou a corrente às pressas, até encontrar o elo mais fraco, depois emperrou a ponta grossa do machado no meio do elo. Um movimento rápido de seu pulso forçou o ferro, que se abriu. Em questão de segundos, desmontou a corrente, soltou-a e abriu a porta da jaula.

O Aiel permanecia sentado, o queixo apoiado no joelho, olhando para ele.

— E então? — sussurrou Perrin, com a voz rouca. — Abri a droga da jaula, mas não vou carregar você. — Analisou depressa a praça escura. Nenhum movimento, mas ele ainda tinha a sensação de estar sendo observado.

— Você é forte, aguacento. — O Aiel apenas alongava os ombros. — Eles precisaram de três homens para me erguer lá em cima. E agora você me trouxe aqui para baixo. Por quê?

— Não gosto de ver ninguém enjaulado — sussurrou Perrin. Queria ir embora. A jaula estava aberta, e aqueles olhos, à espreita. Mas o Aiel não se mexia. Se fizer algo, faça direito. — Você pode sair daí antes que chegue alguém?

O Aiel agarrou a primeira barra da jaula por cima da cabeça, lançou-se para fora e ficou de pé em um movimento só. Depois ficou meio pendurado, usando o punho agarrado à barra para sustentar o próprio peso. De pé, talvez fosse quase uma cabeça mais alto que Perrin. Encarou o rapaz, que sabia bem que os próprios olhos brilhavam como ouro, reluzindo ao luar, mas não disse nada a respeito.

— Estou aí desde ontem, aguacento. — Ele falava como Lan. Não que as vozes ou sotaques fossem sequer parecidos, mas o Aiel tinha a mesma calma fria, a mesma certeza tranquila. — Ainda vai levar um tempo para as minhas pernas voltarem a funcionar. Sou Gaul, do ramo Imran dos Aiel Shaarad, aguacento. Sou Shae’em M’taal, um Cão de Pedra. Minha água é sua.

— Bem, sou Perrin Aybara. De Dois Rios. Sou ferreiro. — O homem estava fora da jaula, Perrin já podia ir embora. No entanto, se alguém chegasse antes que Gaul conseguisse caminhar, ele voltaria direto para a jaula, a não ser que o matassem, o que de qualquer forma estragaria o trabalho de Perrin. — Se eu tivesse pensado melhor, teria trazido uma garrafa de água, ou uma pele. Por que me chama de “aguacento”?

Gaul apontou para o rio. Nem mesmo os olhos de Perrin enxergavam tão bem ao luar, mas pela primeira vez achou que o Aiel parecia um pouco desconfortável.

— Três dias atrás, vi uma garota se exercitando em um imenso lago. Devia ter uns vinte passos de largura. Ela… se empurrava por dentro dele. — O homem fez um gesto estranho, tentando imitar o movimento de natação com uma das mãos. — Uma garota corajosa. Cruzando esses… rios… quase me intimidou. Nunca achei que fosse pensar que via água demais, mas não sabia que tinha tanta água no mundo como vocês aguacentos têm.

Perrin sacudiu a cabeça. Ele sabia que havia pouca água no Deserto Aiel, o que era uma das poucas coisas que sabia sobre o Deserto ou sobre os Aiel, mas não sabia que era tão escassa a ponto de causar uma reação assim.

— Você está muito longe de casa, Gaul. Por que está aqui?

— Nós procuramos — respondeu o homem, devagar. — Buscamos Aquele Que Vem Com a Aurora.

Perrin já ouvira o nome antes, sob circunstâncias que o fizeram ter certeza do que significava. Luz, o assunto sempre volta para Rand. Estou preso a ele como um cavalo que não presta para usar ferradura.

— Está procurando no lugar errado, Gaul. Também estou atrás dele, e ele está a caminho de Tear.

— Tear? — O Aiel fez uma expressão de surpresa. — Por quê…? Mas deve ser. A Profecia diz que, quando a Pedra de Tear cair, enfim deixaremos a Terra da Trindade. — Era o nome que os Aiel davam para o Deserto. — Diz que seremos transformados e reencontraremos o que era nosso, o que foi perdido.

— Pode ser. Não conheço suas profecias, Gaul. Você já está pronto para ir? Alguém pode chegar a qualquer minuto.

— Já é tarde para fugir — retrucou Gaul, e uma voz grave gritou:

— O selvagem está solto! — Dez ou doze homens de mantos brancos saíram pela praça em disparada, desembainhando as espadas, os capacetes cônicos reluzindo ao luar. Filhos da Luz.

Como se tivesse todo o tempo do mundo, Gaul ergueu um pedaço de pano escuro dos ombros com muita calma e o enrolou por cima da cabeça, formando um véu negro e grosso que escondia todo o rosto, exceto os olhos.

— Gosta de dançar, Perrin Aybara? — perguntou. Com isso, saltou da jaula. Direto para cima dos Mantos-brancos.

Por um instante, eles foram pegos de surpresa. Mas, ao que parecia, um instante era tudo de que o Aiel precisava. Ele chutou a espada do punho do primeiro que o alcançou, depois a mão firme golpeou a garganta do Manto-branco como uma adaga, então o Aiel contornou o soldado que caía. O braço do segundo homem estalou alto quando Gaul o quebrou. Ele empurrou o sujeito por cima dos pés de um terceiro e chutou o quarto no rosto. Era mesmo uma dança, de um para outro, sem parar nem reduzir o passo, embora o homem que tropeçou estivesse se reerguendo, e o do braço quebrado tivesse trocado a mão que segurava a espada. Gaul continuava dançando no meio deles.

Perrin teve apenas um instante de assombro, pois nem todos os Mantos-brancos voltaram as atenções ao Aiel. Quase não conseguiu se mover a tempo, mas agarrou o cabo do machado com as duas mãos para bloquear o golpe de uma espada, girou… e sentiu vontade de gritar quando a lâmina em meia-lua rasgou a garganta do homem. Mas não havia tempo para gritos, nem para arrependimentos. Outros Mantos-brancos vieram, antes mesmo de o primeiro cair. Ele odiava as feridas enormes que o machado fazia, odiava a forma como ele retalhava a malha e rasgava a pele por baixo, como rachava os capacetes e crânios com quase a mesma facilidade. Odiava aquilo tudo. Mas não queria morrer.