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O tempo parecia se contrair e esticar ao mesmo tempo. O corpo reclamava como se lutasse havia horas, e a respiração raspava sua garganta. Os homens pareciam se mover como se flutuassem em geleia. Pareciam saltar em um instante, de onde vinham até onde caíam. O suor escorria pelo rosto de Perrin, mas ele se sentia frio como água da forja. Lutava pela vida, e não sabia dizer se a luta durava segundos ou a noite inteira.

Quando enfim ficou de pé, arfando e quase atônito, olhou para uma dúzia de homens de Mantos-brancos caídos sobre os paralelepípedos da calçada da praça, e a lua pareceu estar exatamente no mesmo lugar. Alguns homens gemiam, outros jaziam em silêncio. Gaul estava entre eles, ainda de véu, ainda de mãos vazias. A maioria dos homens no chão fora obra dele. Perrin desejou que todos tivessem sido, então sentiu vergonha. O cheiro de sangue e morte era amargo e pungente.

— Você não dança mal com as lanças, Perrin Aybara.

Com a cabeça girando, o jovem murmurou:

— Não vejo como doze homens podem ter lutado contra vinte de vocês e ganhado, mesmo com dois Caçadores.

— Foi isso que disseram? — Gaul riu baixinho. — Sarien e eu fomos descuidados, há tanto tempo nestas terras úmidas, e o vento soprava na direção errada, então não sentimos cheiro de nada. Entramos na frente deles antes que pudéssemos perceber. Bem, Sarien está morto, e eu fui enjaulado como um tolo, então talvez tenhamos pagado o preço. Está na hora de correr, aguacento. Tear: vou me lembrar disso. — Por fim, ele baixou o véu negro. — Que você sempre encontre água e sombra, Perrin Aybara. — Virando-se, ele avançou pela noite.

Perrin também começou a correr, então percebeu que levava um machado ensanguentado nas mãos. Mais do que depressa, limpou a lâmina curva com o manto de um dos homens mortos. Ele já está morto, que me queime, já está cheio de sangue. Prendeu o cabo de volta no cinturão e começou a andar depressa.

Pôde vê-la logo no segundo passo, um vulto esguio no canto da praça, com saias apertadas e escuras. Ela se virou para correr, Perrin conseguiu ver que as saias eram divididas para cavalgada. Ela saiu correndo de volta para a rua e desapareceu.

Lan o encontrou antes que ele chegasse ao local onde a moça estava parada. O Guardião olhou a jaula vazia ao lado da forca e os amontoados de sombras brancas reluzindo ao luar e jogou a cabeça para trás, como se estivesse prestes a explodir. Com a voz contida e dura como o aro de uma roda nova, disse:

— Isso é obra sua, ferreiro? Que a Luz me queime! Alguém pode ligar isso a você?

— Uma garota — respondeu Perrin. — Acho que ela viu. Não quero machucá-la, Lan! Muitos outros também podem ter visto. Há um monte de janelas iluminadas à nossa volta.

O Guardião agarrou Perrin pela manga do casaco e o empurrou em direção à estalagem.

— Vi uma garota correndo, mas achei… não importa. Tire o Ogier lá de dentro e o arraste até o estábulo. Depois, vamos levar os cavalos para as docas o mais rápido possível. Só a Luz sabe se há um navio partindo hoje à noite, ou quanto terei que pagar para contratar um. Não faça perguntas, ferreiro! Ande! Corra!

35

O Falcão

As pernas compridas do Guardião permitiam um passo mais largo que as de Perrin, e, quando o rapaz finalmente conseguiu passar pela multidão que se aglomerava do lado de fora da estalagem, Lan já subia as escadas, sem parecer nem um pouco apressado. Perrin se obrigou a caminhar tão devagar quanto o Guardião. Alguém na entrada resmungou sobre pessoas que empurravam as outras para passarem na frente.

— Contar de novo? — dizia Orban, erguendo o cálice de prata para que o enchessem outra vez. — Ah, tudo bem. Eles tinham preparado uma emboscada perto da estrada por onde passávamos, e uma emboscada que eu não esperava tão perto de Remen. Aos berros, saíram do monte de arbustos e avançaram para cima de nós. Estavam entre nós em um piscar de olhos, golpeando com as lanças, e na mesma hora dilaceraram dois dos meus melhores homens e um dos de Gann. É, eu sei reconhecer um Aiel, e…

Perrin subiu as escadas, apressado. Bem, Orban sabe reconhecê-los agora.

Vozes vinham de detrás da porta de Moiraine. Ele não queria ouvir o que ela tinha a dizer sobre o que acontecera. Passou depressa pela porta e meteu a cabeça para dentro do quarto de Loial.

A cama do Ogier era baixa e robusta, com o dobro do comprimento e uma vez e meia a largura de qualquer cama humana que Perrin já vira. Ocupava grande parte do quarto, tão grande e bonito quanto o de Moiraine. Perrin recordou-se vagamente de Loial dizendo algo sobre a cama ser de madeira cantada, e em qualquer outro momento talvez tivesse parado para admirar as curvas harmoniosas que davam a sensação de que a cama crescera ali mesmo onde estava. Os Ogier deviam ter parado em Remen em algum momento do passado, pois o estalajadeiro também encontrara uma poltrona de madeira que comportava Loial e a enchera de almofadas. O Ogier estava sentado confortavelmente nela, de camisa e calças, absorto, coçando o tornozelo com a unha de um dos pés enquanto escrevia em um grande livro encadernado em tecido sobre um dos braços da poltrona.

— Estamos indo embora! — anunciou Perrin.

Loial deu um salto, quase derrubando o frasco de tinta e o livro.

— Embora? Mas acabamos de chegar — disse, com sua voz profunda.

— Isso, embora. Encontre a gente no estábulo o mais rápido que puder. E não deixe que vejam você sair. Acho que dá para descer até a cozinha por uma escada nos fundos. — O aroma de comida que vinha daquele canto do corredor era forte demais para que não houvesse uma passagem.

O Ogier lançou um olhar pesaroso para a cama, depois começou a calçar as botas compridas.

— Mas por quê?

— Mantos-brancos — respondeu Perrin. — Mais tarde eu explico melhor. — Ele se afastou da porta antes que Loial pudesse fazer mais perguntas.

Não desfizera as malas. Depois de afivelar a aljava, vestir o manto, jogar o cobertor e os alforjes no ombro e recolher o arco, não havia sinal de que estivera ali. Nem uma ruga nos cobertores dobrados ao pé da cama ou um respingo de água na bacia rachada do lavatório. Até o pavio da vela de sebo estava novo, reparou. Eu já devia saber que não iríamos ficar. Nos últimos tempos, pareço não deixar qualquer rastro.

Como ele suspeitava, uma escada estreita nos fundos levava a um corredor que passava pela cozinha. Ele deu uma espiadela cautelosa para dentro do aposento. Um cão corria em uma grande roda de vime, girando um longo espeto que continha um lombo de cordeiro, uma grande peça de carne de boi, cinco frangos e um ganso. Um vapor de cheiro agradável saía do caldeirão de sopa, que pendia de um robusto suporte sobre um segundo fogão. Mas não havia cozinheiro à vista, nem qualquer outra alma além do cachorro. Grato pelas mentiras de Orban, ele disparou noite afora.

O estábulo era uma larga estrutura feita com as mesmas pedras da estalagem, embora apenas as faces em torno da grande porta fossem polidas. Um único lampião pendia de um poste da estrebaria, fornecendo uma iluminação fraca. Galope e os outros cavalos estavam em baias perto da porta. A enorme montaria de Loial quase enchia todo o espaço da própria baia. O cheiro de feno e cavalos era familiar e reconfortante. Perrin foi o primeiro a chegar.

Havia apenas um cavalariço em serviço, um sujeito de rosto fino vestindo uma camisa suja, com cabelos escorridos e grisalhos, que exigiu saber quem era Perrin para pedir quatro cavalos selados, quem era seu mestre e o que ele estava fazendo todo pronto para viajar bem no meio da noite. Além disso, queria saber se Mestre Furlan estava ciente de que ele estava fugindo daquele jeito sorrateiro e o que escondia naqueles alforjes. E o que havia de errado com seus olhos, estava doente?