Ele piscou. Não podia haver engano naquela ênfase.
— Caçador? Você não pode ser um Caçador. É uma garota.
Ela abriu um sorriso tão inocente que ele quase se afastou. Depois ela deu um passo atrás e fez um floreio com cada uma das mãos. Em instantes, segurava duas facas, da mesma forma que Thom Merrilin faria. Um dos homens que remava soltou um arquejo, e dois outros se atrapalharam. Os remos se embolaram, desgovernados, e o Ganso das Neves deu uma pequena guinada, até que os gritos do capitão endireitaram o rumo. Quando tudo se acertou, a garota dos cabelos pretos já fizera as facas desaparecerem outra vez.
— Dedos ágeis e inteligência levam muito mais longe que uma espada e alguns músculos. Olhos afiados também ajudam, mas por sorte eu tenho isso tudo.
— Além de muita modéstia — resmungou Perrin.
Ela não pareceu ouvir.
— Eu fiz o juramento e recebi a bênção na Grande Praça de Tammaz, em Illian. Talvez eu fosse mesmo a mais nova, porém, no meio daquela multidão, com trompetes, tambores, címbalos, gritaria… uma criança de seis anos poderia ter feito o juramento e ninguém perceberia. Havia mais de mil de nós, talvez dois mil, e cada um tinha uma ideia de onde encontrar a Trombeta de Valere. Eu tenho a minha, e ainda acho que talvez seja a correta, mas nenhum Caçador pode se dar ao luxo de deixar de lado um rastro estranho. A Trombeta sem dúvida está na ponta de um rastro estranho, e eu nunca vi um mais esquisito do que o que vocês estão deixando. Para onde estão indo? Illian? Algum outro lugar?
— Qual era a sua ideia? — perguntou Perrin. — Sobre onde está a Trombeta? — A salvo em Tar Valon, assim espero, e a Luz permita que eu jamais a veja outra vez. — Acha que está em Ghealdan?
Ela franziu a testa para ele, que teve a impressão de que ela não desistia de uma pista depois de descobri-la, mas estava disposto a oferecer quantas pistas paralelas ela quisesse. Foi então que ela perguntou:
— Já ouviu falar em Manetheren?
Perrin quase engasgou.
— Já ouvi, sim — respondeu, cauteloso.
— Todas as rainhas de Manetheren eram Aes Sedai, e os reis eram os Guardiões ligados a elas. Não consigo imaginar um lugar assim, mas é o que os livros contam. Era uma terra grande, pegava a maior parte de Andor e de Ghealdan e ainda outras terras. Mas a capital, a cidade em si, ficava nas Montanhas da Névoa. É lá que eu acredito que esteja a Trombeta. A não ser que vocês quatro me levem até ela.
Os pelos do pescoço de Perrin se eriçaram. Ela dava explicações como se ele fosse um grosseirão de aldeia, um ignorante.
— Você não vai encontrar a Trombeta, e nem Manetheren. A cidade foi destruída durante as Guerras dos Trollocs, quando a última rainha recorreu ao Poder Único para destruir os Senhores do Medo que tinham matado seu marido. — Moiraine dissera os nomes do rei e da rainha, mas ele não conseguia se lembrar.
— Não em Manetheren, fazendeiro — respondeu ela, muito calma —, embora uma terra como aquela desse um bom esconderijo. Mas existiram outras nações, outras cidades nas Montanhas da Névoa, tão antigas que nem mesmo Aes Sedai se lembram delas. E pense em todas aquelas histórias que dizem que dá azar adentrar as montanhas. Que lugar melhor para se esconder a Trombeta do que em uma dessas cidades esquecidas?
— Ouvi histórias de algo escondido nas montanhas. — Será que ela acreditaria nele? Nunca tivera muito talento para mentir. — Elas não explicam muito bem, mas parece que é o maior tesouro do mundo, então talvez seja a Trombeta. Mas as Montanhas da Névoa se estendem por centenas de léguas. Se pretende encontrá-la, não deveria perder tempo nos seguindo. Vai ter que se esforçar muito para encontrar a Trombeta antes de Orban e Gann.
— Eu já disse, aqueles dois têm uma suspeita estranha de que a Trombeta esteja escondida na Grande Floresta Negra. — Ela sorriu para ele. Quando ela sorria, sua boca não parecia tão grande. — E eu disse que um Caçador tem que ir atrás de pistas estranhas. Você teve sorte por Orban e Gann terem se ferido lutando contra todos aqueles Aiel, ou os dois também estariam a bordo. Pelo menos não vou tentar atrapalhar você, nem tentar assumir o controle, ou arrumar briga com o Guardião.
Ele soltou um grunhido indignado.
— Garota, somos apenas viajantes a caminho de Illian. Qual é o seu nome? Se vamos passar alguns dias juntos neste navio, não posso ficar chamando você de garota.
— Eu me chamo Mandarb. — Ele não conseguiu segurar o riso. Os olhos oblíquos o encararam com raiva. — Vou lhe dizer uma coisa, fazendeiro. — Ela manteve a voz inexpressiva. Por pouco. — Na Língua Antiga, Mandarb significa “lâmina”. É um nome digno de um Caçador da Trombeta!
Ele conseguiu controlar o riso, e já quase não soltava guinchinhos quando apontou para o cercado entre os mastros.
— Está vendo aquele garanhão preto? O nome dele é Mandarb.
A raiva desapareceu dos olhos dela, e dois círculos vermelhos brotaram em suas bochechas.
— Ah. Eu nasci Zarine Bashere, mas Zarine não é nome para uma Caçadora. Nas histórias, os Caçadores têm nomes como Rogosh Olho-de-águia.
A expressão da moça era tão abatida que ele se apressou em dizer:
— Gosto do nome Zarine. Combina com você. — Os olhos dela voltaram a encará-lo com raiva, e por um instante Perrin achou que ela estava prestes a exibir uma das facas outra vez. — Está tarde, Zarine. Quero dormir um pouco.
Ele virou as costas e começou a caminhar em direção à escotilha que levava ao deque inferior, uma comichão percorrendo seus ombros. Os tripulantes ainda remavam no convés. Idiota. Uma garota não enfiaria uma faca em mim. Não com todas essas pessoas olhando. Ou será que enfiaria? Quando chegou à escotilha, ela o chamou.
— Fazendeiro! Talvez eu passe a me chamar Faile. Meu pai me chamava assim quando eu era pequena. Quer dizer “falcão”.
Ele se enrijeceu e quase errou o primeiro degrau da escada. Coincidência. Obrigou-se a descer sem olhar para trás. Tem que ser. O corredor estava escuro, mas o luar que entrava era suficiente para enxergar o caminho. Dentro de uma das cabines, alguém roncava alto. Min, por que você tinha que ficar prevendo coisas?
36
Filha da Noite
Ao perceber que não havia meio de saber qual cabine era a dele, Perrin enfiou a cabeça em várias. As luzes estavam apagadas, e em todas havia dois homens dormindo nas camas estreitas, embutidas uma de cada lado da parede. Todas, exceto uma. Nela Loial estava sentado no chão entre as duas camas, todo espremido, absorto em seu caderno de anotações com capa de tecido, escrevendo à luz de uma lanterna acoplada a um giroscópio. O Ogier queria conversar sobre os acontecimentos do dia. Mas Perrin, cuja mandíbula rangia com o esforço de conter os bocejos, pensou que, àquela altura, o navio já devia estar rio abaixo o bastante para que pudesse dormir em segurança. Sonhar em segurança. Mesmo que tentassem, os lobos não seriam capazes de manter a velocidade dos remos e da corrente.
Ele enfim encontrou uma cabine sem janelas e vazia, o que para ele já bastava. Queria ficar sozinho. O nome foi coincidência, só isso, ele pensou enquanto acendia o lampião suspenso na parede. Seja como for, o nome verdadeiro dela é Zarine. No entanto, a garota de maçãs do rosto elevadas e olhos escuros e oblíquos não dominava seus pensamentos. Ele deixou o arco e os outros pertences em uma das camas estreitas, jogou o manto por cima de tudo e sentou-se na outra para tirar as botas.