Elyas Machera, um homem de alguma forma ligado aos lobos, encontrara um jeito de conviver com o que era e não enlouquecera. Pensando bem, Perrin tinha certeza de que Elyas já vivia daquela forma havia muitos anos. Ele deseja ser desse jeito. Seja como for, aceita o que é. Essa não era a solução. Perrin não queria viver assim, não queria aceitar. Mas, quando temos material para fazer uma faca, basta aceitar e fazer uma faca, mesmo que prefira um machado de madeira. Não! Minha vida é mais que um pedaço de ferro a ser moldado.
Com cuidado, tentou sentir os lobos com a mente e encontrou… nada. Ah, havia a leve impressão de lobos em algum lugar distante, mas ela se desvanecia mesmo enquanto ele a examinava. Pela primeira vez em muito tempo, estava só. Na mais abençoada solidão.
Apagou o lampião com um sopro e se deitou pela primeira vez em dias. Como, pela Luz, Loial vai conseguir deitar em uma cama dessas? Aquelas noites quase sem dormir pesaram sobre seu corpo, e a exaustão fez seus músculos relaxarem. Ocorreu a ele que conseguira tirar o Aiel da cabeça. E os Mantos-brancos. Machado abandonado pela Luz! Que me queime, queria jamais ter visto aquilo! foram seus últimos pensamentos antes de cair no sono.
Uma névoa densa e cinzenta o envolvia, tão densa e tão baixa que ele não conseguia enxergar as próprias botas, e tão espessa, de todos os lados, que ele não era capaz de distinguir qualquer coisa a mais de dez passos de distância. Sem dúvidas não havia nada mais perto. Poderia haver qualquer coisa dentro daquela névoa. Ela parecia errada, não era nem um pouco úmida. Perrin levou a mão ao cinturão em busca do conforto de saber que podia se defender. Levou um susto. O machado não estava lá.
Algo se movia na neblina, serpenteava na escuridão. Algo vinha em sua direção.
Ele ficou tenso, considerando se seria melhor correr ou ficar e lutar com as próprias mãos, se perguntando se haveria algo para lutar com ele.
A ondulação crescente que penetrava a neblina revelou-se um lobo, a silhueta felpuda quase se fundindo à névoa densa.
Saltador?
O lobo hesitou, depois caminhou para perto dele. Era Saltador, tinha certeza, mas algo na postura do animal, algo naqueles olhos amarelos que cruzaram os dele por um instante, exigia que tanto o corpo quanto a mente de Perrin fizesse silêncio. Os olhos também exigiam que ele o seguisse.
O rapaz pousou a mão no dorso do lobo, e Saltador começou a caminhar. Deixou-se conduzir. A pelagem sob sua mão era espessa e emaranhada. Parecia real.
A névoa se intensificou até que apenas a visão de sua mão garantia que Saltador ainda estava ali, até que uma olhada para baixo não revelasse nada além do próprio peitoral. Apenas névoa cinzenta. Considerando o que via, poderia muito bem estar envolto em lã recém-tosquiada. Ficou impressionado ao perceber que também não ouvia nada. Nem mesmo o som dos próprios passos. Mexeu os dedos dos pés e ficou aliviado em senti-los dentro das botas.
O cinza tornou-se ainda mais escuro, mas ele e o lobo continuaram avançando em meio ao breu. Não conseguia ver a mão nem mesmo ao tocar o próprio nariz. Aliás, sequer enxergava o nariz. Experimentou fechar os olhos por um instante e não percebeu diferença alguma. Ainda não havia som. Sentia o pelo espesso de Saltador na palma da mão, mas não sabia ao certo se conseguia sentir algo sob as botas.
De súbito Saltador parou, forçando-o a parar também. Perrin olhou em volta… e fechou os olhos depressa. Naquele momento, podia sentir a diferença. E também sentia outra coisa, um embrulho nauseante no estômago. Forçou-se a abrir os olhos e olhar para baixo.
O que viu não poderia estar ali, a menos que ele e Saltador estivessem flutuando. Ele não via parte alguma do lobo ou de si mesmo, era como se nenhum dos dois fosse corpóreo. Pensar naquilo causou um nó gigantesco em seu estômago. E sob seus pés, claro como se iluminado por mil lâmpadas, estendia-se um imenso conjunto de espelhos que pareciam suspensos no vazio escuro, embora tão estáveis quanto se estivessem apoiados no chão. Havia espelhos em todas as direções, até onde a vista alcançava, mas bem abaixo de seus pés havia um espaço. Ocupado por pessoas. De repente, Perrin pôde ouvi-las com tanta clareza quanto se estivesse no meio delas.
— Grande Senhor — murmurou um dos homens —, que lugar é esse? — Ele olhou ao redor, encolhendo-se ao ver a própria imagem refletida mil vezes, e manteve os olhos firmes à frente. Os outros, agrupado à sua volta, pareciam ainda mais amedrontados. — Eu estava dormindo em Tar Valon, Grande Senhor. Estou dormindo em Tar Valon! Que lugar é esse? Será que enlouqueci?
Alguns dos homens ao redor dele usavam casacos adornados e cheios de bordados, outros, trajes mais simples, e ainda outros pareciam estar nus ou em roupas debaixo.
— Eu também — disse um homem nu, quase gritando. — Estou dormindo em Tear. Me lembro de ter deitado na cama com a minha mulher!
— E eu, no caso, estou dormindo em Illian — arrematou um sujeito vestido em dourado e vermelho, parecendo abalado. — Sei que estou dormindo, isso nem faz sentido. Sei que estou sonhando, mas parece impossível. Onde fica isso aqui, Grande Senhor? O senhor veio mesmo a mim?
O sujeito de cabelos escuros que os encarava vestia trajes pretos com renda prateada no pescoço e nos punhos. Vez ou outra levava a mão ao peito, como se sentisse dor. Lá embaixo estava bem iluminado, mas a luz não vinha de lugar algum. Mesmo assim, o homem abaixo de Perrin parecia envolto em sombras. A escuridão o envolvia, o afagava.
— Silêncio! — O homem de negro não falou alto, mas não havia necessidade. Ao dizer essa palavra, ergueu a cabeça. Seus olhos e boca eram buracos abertos para uma forja ardente, envolta em chamas e fogo intenso.
Naquele momento, Perrin soube quem era o homem. Ba’alzamon. Encarava Ba’alzamon em pessoa. O medo o atravessou como uma lança. Teria corrido, mas não conseguia sentir os pés.
Saltador se mexeu. Perrin sentiu o pelo espesso sob a mão e agarrou-o com força. Algo real. Algo mais real do que o que via, esperava. Mas sabia que ambos eram reais.
Os homens agrupados se acovardaram.
— Vocês receberam tarefas — continuou Ba’alzamon. — Algumas delas foram cumpridas. Em outras, vocês fracassaram. — Volta e meia seus olhos e boca desapareciam em meio às chamas, e os espelhos faiscavam ao refletir o fogo. — Os que foram marcados para a morte devem morrer. Os que foram marcados para captura devem se curvar a mim. Não há perdão para aqueles que desapontam o Grande Senhor das Trevas. — O fogo reluzia em seus olhos, a escuridão redemoinhava ao seu redor. — Você. — Ele apontou o dedo para o homem que falara de Tar Valon, um sujeito em trajes de mercador, roupas de tecido fino e corte reto. Os outros se afastaram como se o homem estivesse com febre melancólica, deixando-o se acovardar sozinho. — Você permitiu que o rapaz fugisse de Tar Valon.
O homem gritou e começou a tremer como uma lima quando batida em uma bigorna. Pareceu perder a firmeza, e seu grito enfraqueceu com ele.
— Vocês todos estão sonhando — explicou Ba’alzamon —, mas o que acontece neste sonho é real. — O sujeito que gemia transformou-se em um monte de névoa de forma humana, os gritos ficaram distantes, depois até mesmo aquela névoa desapareceu. — Temo que ele jamais acordará. — O Senhor das Trevas riu, e de sua boca saiu uma labareda. — O restante de vocês não me desapontará outra vez. Fora! Acordem e obedeçam! — Os outros homens desapareceram.
Por um instante Ba’alzamon permaneceu só. Então de súbito uma mulher surgiu ao lado dele, toda coberta em branco e prata.