Perrin ficou chocado. Jamais esqueceria uma mulher tão bela. Era a mulher de seu sonho, a que lhe oferecera glória.
Um trono em prata ornamentada surgiu atrás dela, que se sentou, ajeitando as saias de seda com cuidado.
— Faz livre uso de meu domínio — comentou.
— Seu domínio? — retrucou Ba’alzamon. — Então está reivindicando a posse? Não serve mais ao Grande Senhor das Trevas? — Por um instante, a escuridão ao redor dele tornou-se mais espessa, parecia fervilhar.
— Eu sirvo — respondeu ela, mais do que depressa. — Sirvo ao Senhor do Crepúsculo há muito tempo. E passei muito tempo aprisionada, por servi-lo, aprisionada em um sono infinito e sem sonhos. Sonhos só são negados a Homens Cinza e Myrddraal. Até os Trollocs podem tê-los. Os sonhos sempre foram meus, para desfrutar e percorrer. Agora estou livre outra vez, e usarei o que é meu.
— O que é seu — concordou Ba’alzamon. A escuridão que o rodeava parecia contente. — Você sempre se considerou mais grandiosa do que é, Lanfear.
O nome atingiu Perrin, cortando-o tão bem quanto uma faca recém-amolada. Um dos Abandonados passeara em seus sonhos. Moiraine estava certa. Alguns deles estavam livres.
A mulher de branco estava de pé, e o trono havia desaparecido.
— Sou o que sou. Qual foi o resultado de seus planos? Mais de três mil anos controlando marionetes que ocupam tronos, sussurrando em seus ouvidos e puxando seus cordéis, tal e qual uma Aes Sedai! — A voz imprimiu todo o desprezo possível ao título. — Três mil anos, e ainda assim Lews Therin caminha outra vez pelo mundo. E, além disso, essas Aes Sedai praticamente o tomaram sob as rédeas. Você pode controlá-lo? Pode trazê-lo para o seu lado? Ele era meu muito antes que Ilyena, aquela desgrenhada intrometida, pusesse os olhos nele! E será meu outra vez!
— Serve a si mesma agora, Lanfear? — A voz de Ba’alzamon era suave, mas as chamas continuavam a arder em seus olhos e boca. — Abandonou os votos ao Grande Senhor das Trevas? — Por um instante, a escuridão quase o obliterou, apenas o fulgor das labaredas podia ser visto. — Esses votos não são tão fáceis de quebrar quanto os juramentos à Luz, que você abandonou ao proclamar seu novo mestre, lá no Salão dos Servos. Seu mestre a possuirá para sempre, Lanfear. Vai servir, ou prefere uma eternidade de dor, agonizante e sem-fim?
— Eu sirvo. — Apesar das palavras, ela permanecia altiva e desafiadora. — Sirvo ao Grande Senhor das Trevas e a ninguém mais. Para sempre!
A enorme coleção de espelhos começou a desaparecer, como se ondas negras os cobrissem, chegando cada vez mais perto do centro. A onda cobriu Ba’alzamon e Lanfear. Restou apenas escuridão.
Perrin sentiu Saltador se mexer e ficou mais do que feliz em segui-lo, conduzido apenas pela sensação dos pelos sob a mão. Só quando se moveu percebeu que se mover era possível. Tentou entender o que acabava de ver, mas não conseguiu. Ba’alzamon e Lanfear. Estava com a boca seca. Por alguma razão, Lanfear o assustava ainda mais do que Ba’alzamon. Talvez porque tivesse estado em seus sonhos, lá nas montanhas. Luz! Um dos Abandonados em meus sonhos! Luz! E, a menos que não tivesse entendido, ela desafiara o Tenebroso. Tinha aprendido que a Sombra não exercia poder sobre quem a rejeitasse, mas como é que um Amigo das Trevas — e não um Amigo das Trevas qualquer: um dos Abandonados — podia desafiar a Sombra? Eu devo estar louco, que nem o irmão de Simion. Esses sonhos me deixaram louco!
Pouco a pouco, a escuridão se transformou outra vez em névoa, e a névoa se dispersou gradualmente, até que ele avançou com Saltador para uma encosta gramada, iluminada pelo dia. Pássaros começaram a cantar em uma moita aos pés da colina. Ele olhou para trás. Uma planície com alguns montes, entremeada de grupos de árvores, se estendia até o horizonte. Não havia sinal de neblina. O lobo robusto e cinzento o observava.
— O que foi aquilo? — indagou, lutando com a própria mente para transformar a pergunta em pensamentos que o lobo compreendesse. — Por que me mostrou aquilo? O que era?
Emoções e imagens inundaram seus pensamentos, e sua mente as nomeou com palavras. O que precisa ver. Cuidado, Jovem Touro. Este lugar é perigoso. Seja cauteloso como deve ser um filhote a caçar um porco-espinho. A palavra viera como algo próximo de Lombadinhas Espinhentas, mas sua mente nomeou o animal da forma que ele conhecia como humano. Você é muito jovem, muito novo.
— Foi real?
Tudo é real, o que se vê e o que não se vê. Parecia que essa seria a única resposta de Saltador.
— Saltador, como é que você está aqui? Eu vi você morrer. Senti você morrer!
Todos estão aqui. Todos os irmãos e irmãs que são, todos os que foram, todos os que serão. Perrin sabia que lobos não sorriam, não como os humanos, mas por um instante teve a impressão de que Saltador exibia um sorriso grande. Aqui, eu plano como as águias. O lobo se aprumou e saltou para o ar. Foi levado mais e mais para o alto, até transformar-se em um pontinho no céu. Um último pensamento veio de lá. Planar.
Perrin o encarava de boca aberta. Ele conseguiu. De repente seus olhos começaram a arder, então pigarreou e esfregou o nariz. Daqui a pouco vou começar a chorar como uma garotinha. Sem pensar, olhou em volta para conferir se tinha sido visto, e tudo mudou depressa.
Ele estava de pé sobre um aclive, com depressões e elevações sombrias e indistintas ao redor. Pareciam desaparecer a distância. Rand estava mais abaixo. Rand, um círculo disforme de Myrddraal e alguns homens e mulheres que reparou de relance. Cães uivavam a distância, e Perrin soube que estavam caçando alguma coisa. O cheiro de Myrddraal e o fedor de enxofre saturavam o ar. Os pelos da nuca de Perrin se eriçaram.
O círculo de Myrddraal e pessoas aproximou-se de Rand, todos caminhando como sonâmbulos. E Rand começou a matá-los. Bolas de fogo voaram de suas mãos e queimaram dois. Raios caíram do céu e paralisaram outros. Barras de luz que pareciam aço branco de tão incandescente voaram de seus punhos em direção a mais outros. Os sobreviventes continuavam a se aproximar devagar, como se não vissem o que estava acontecendo. Morreram um a um, até que não sobrou ninguém, e Rand caiu de joelhos, ofegante. Perrin não tinha certeza de que ele ria ou chorava, parecia um pouco dos dois.
Silhuetas surgiram dos aclives, mais gente chegando, mais Myrddraal, todos atrás de Rand.
Perrin levou as mãos em concha à boca.
— Rand! Rand, tem mais vindo!
O rapaz olhou para cima ainda agachado, rosnando, o suor escorrendo pelo rosto.
— Rand, eles estão…!
— Que o queime! — uivou o amigo.
A luz ardeu os olhos de Perrin, a dor queimou-o inteiro.
Gemendo, ele se encolheu na cama estreita em posição fetal, a luz ainda queimando atrás de suas pálpebras. Seu peito doía. Ele levou as mãos ao peitoral e estremeceu ao sentir uma queimadura sob a camisa, não maior que uma moeda de prata.
Pouco a pouco, forçou os músculos retesados, esticou as pernas e estirou-se na cabine escura. Moiraine. Dessa vez, tenho que contar a Moiraine. Só preciso esperar a dor passar.
Porém, quando a dor começou a se esvair, a exaustão o consumiu. Ele mal conseguiu pensar que precisava se levantar antes que o sono o envolvesse outra vez.
Quando abriu os olhos de novo, viu que estava deitado, encarando as vigas no teto. A luz que entrava pelas frestas da porta informava que a manhã já havia chegado. Ele pôs a mão no peito para se convencer de que tudo fora imaginação, uma imaginação tão vívida que ele de fato sentira uma queimadura…
Seus dedos encontraram a queimadura. Então não foi imaginação. Ele teve vagas lembranças em relação a outros sonhos, que sumiram assim que se recordou. Sonhos corriqueiros. Até sentia que tivera uma boa noite de sono. E poderia ter outra agorinha mesmo. Mas isso significava que ele podia dormir. Desde que não haja lobos por perto, de qualquer forma.