Lan olhou para Uno, e o caolho deu de ombros, consternado.
— Acabei me esquecendo, com todo esse falatório chamej… — Ele limpou a garganta, olhando para Moiraine. Ela correspondeu o olhar, esperando que prosseguisse, e ele continuou: — Quer dizer… hã… quer dizer, eu segui o rastro do Lorde Dragão. Agora existe outro caminho que dá naquele vale fechado. O… terremoto derrubou o paredão mais afastado. É uma subida difícil, mas dá para ir a cavalo. Encontrei mais pegadas no topo, e de lá é fácil contornar a montanha. — Ao terminar de falar, respirou fundo.
— Bom — disse Moiraine. — Pelo menos ele não redescobriu como voar, ficar invisível ou qualquer coisa saída das lendas. Precisamos ir atrás dele agora mesmo. Uno, vou lhe dar ouro suficiente para todos chegarem em Jehannah, além do nome de uma pessoa por lá que proverá mais. O povo de Ghealdan é cauteloso com estranhos, mas, se vocês não se expuserem, não serão incomodados. Fiquem lá, aguardando notícias minhas.
— Mas vamos com você — protestou ele. — Todos juramos seguir o Dragão Renascido. Não vejo como nós, sendo tão poucos, poderemos tomar uma fortaleza que nunca desabou, mas com a ajuda do Lorde Dragão faremos o que tem de ser feito.
— Então agora somos o “Povo do Dragão”. — Perrin soltou uma risada melancólica. — “A Pedra de Tear não cairá antes da vinda do Povo do Dragão.” Você nos deu um novo nome, Moiraine?
— Segure a língua, ferreiro — rosnou Lan, duro e frio.
Moiraine lançou aos dois um olhar penetrante, e eles se calaram.
— Me desculpe, Uno — disse ela —, mas precisamos seguir viagem rápido se quisermos ter esperanças de alcançar Rand. Vocês são os únicos shienaranos com preparo físico para uma caminhada difícil, e não podemos perder os dias necessários para que os outros recuperem a energia. Mando buscar vocês assim que puder.
Uno pareceu não gostar da ideia, mas fez uma mesura aquiescente. Assim que ela o dispensou, ele ajeitou os ombros e partiu para dar as ordens.
— Bem, eu vou junto, não importa o que você diga — falou Min, com firmeza.
— Você vai para Tar Valon — ordenou Moiraine.
— Não vou, não!
A Aes Sedai prosseguiu calmamente, como se a outra mulher não tivesse dito palavra.
— O Trono de Amyrlin deve ser informado a respeito do que aconteceu, e não posso ter certeza de que encontrarei alguém de confiança que tenha algum pombo-correio; nem que o Trono verá uma mensagem enviada por um pombo. Vai ser uma viagem longa e difícil. Não mandaria você sozinha se houvesse alguém para ir junto, mas vou lhe dar algum dinheiro e cartas que poderão ajudar no trajeto. No entanto, vai ter que cavalgar depressa. Quando um cavalo se cansar, compre outro ou roube um, se for preciso, mas cavalgue depressa.
— Deixe Uno levar a mensagem. Ele tem preparo físico, você mesma disse. Eu vou atrás de Rand.
— Uno tem as próprias obrigações, Min. Além disso, você acha que um homem poderia simplesmente cruzar os portões da Torre Branca e pedir uma audiência com o Trono de Amyrlin? Até um rei teria que esperar por dias se chegasse sem avisar, e temo que qualquer um dos shienaranos teria que esperar semanas, senão a vida inteira. Sem falar que algo tão estranho chegaria aos ouvidos de todos em Tar Valon antes do primeiro crepúsculo. Poucas mulheres pedem audiências com o Trono, mas pode acontecer, e o fato não gera grande alvoroço. Ninguém pode sequer saber que o Trono de Amyrlin recebeu uma mensagem minha. A vida dela, e a nossa, pode depender disso. É você quem deve ir.
Min continuava sentada, abrindo e fechando a boca, claramente procurando outros argumentos, mas Moiraine já prosseguia com as ordens:
— Lan, temo que encontremos mais evidências da passagem dele do que gostaria, mas confio na sua capacidade de rastrear. — O Guardião assentiu. — Perrin? Loial? Vocês podem vir comigo atrás de Rand? — De onde estava, encostada na parede, Min soltou um chiado de indignação, mas a Aes Sedai a ignorou.
— Eu vou — disse Loial, no mesmo instante. — Rand é meu amigo. E eu admito… não quero perder nada. Para o meu livro, entende?
Perrin demorou mais a responder. Rand era seu amigo, não importava o que tivesse se tornado ao ser forjado. E havia aquela quase certeza de que seus futuros estavam interligados, embora ele, se pudesse, evitaria aquela parte.
— Tem de ser feito, não tem? — disse por fim. — Eu vou.
— Bom. — Moiraine esfregou as mãos mais uma vez, com a expressão de alguém se preparando para o trabalho. — Vão todos se aprontar de uma vez. Rand está algumas horas à nossa frente. Pretendo avançar bastante antes do meio-dia.
Apesar de esguia, a força de sua presença fez todos seguirem para a saída, exceto Lan. Loial foi caminhando curvado até passar pela porta. Perrin achou que a cena parecia a de uma dona de casa espantando seus gansos.
Do lado de fora, Min se afastou por um instante e interpelou Lan com um sorriso excessivamente doce.
— Deseja que eu transmita alguma mensagem? A Nynaeve, talvez?
O Guardião, desprevenido, cambaleou como um cavalo de três pernas.
— Todo mundo está sabendo…? — Quase no mesmo instante recobrou o equilíbrio. — Se houver algo mais que ela precise saber de mim, eu mesmo direi. — Ele fechou a porta quase na cara de Min.
— Homens! — murmurou a jovem diante da porta. — Tão cegos que não enxergam o que até uma pedra poderia ver, e tão teimosos que não podemos deixá-los pensando por si próprios.
Perrin inspirou profundamente. Um leve cheiro de morte ainda pairava no ar do vale, mas era melhor que o quarto abafado. Um pouco melhor.
— Ar puro — suspirou Loial. — A fumaça estava começando a me incomodar um pouco.
Os três desceram a encosta juntos. Perto do córrego abaixo, os shienaranos capazes de se manter de pé estavam reunidos em torno de Uno. Pelos gestos, o caolho tentava recuperar todo o tempo que precisara passar sem xingar.
— Como é que vocês dois conseguiram esse privilégio? — indagou Min, de supetão. — Ela perguntou a vocês. Não fez a gentileza de me perguntar.
Loial balançou a cabeça.
— Acho que ela perguntou porque sabia qual seria a nossa resposta, Min. Moiraine parece saber interpretar a mim e a Perrin, conhece nossas reações. Já você é um livro fechado para ela.
Min pareceu apenas um pouco mais calma. Olhou para eles, de um lado Perrin, cujos ombros estavam na altura de sua cabeça, e de outro Loial, muito maior.
— Como se isso me adiantasse alguma coisa. Estou indo para onde ela quer, feito vocês, cordeirinhos. Você estava indo bem, Perrin. Enfrentou Moiraine como se ela tivesse lhe vendido um casaco com a costura solta.
— Enfrentei mesmo, não foi? — repetiu Perrin, pensativo. — Ele ainda não havia se dado conta do que fizera. — Não foi tão ruim quanto pensei.
— Você teve sorte — resmungou Loial. — “Irritar uma Aes Sedai é meter a cabeça em um ninho de vespas.”
— Loial — chamou Min —, preciso falar com Perrin. A sós. Você se incomoda?
— Ah, claro que não. — Ele aumentou a velocidade dos passos, entrando no ritmo costumeiro, e se afastou depressa dos dois, puxando cachimbo e tabaco de um dos bolsos do casaco.
Perrin a encarou, cauteloso. Ela mordia o lábio, como se refletisse sobre o que dizer.
— Você já teve alguma visão com ele? — perguntou, inclinando a cabeça para o Ogier.
Ela fez que não.
— Acho que só funciona com humanos. Mas já vi algumas coisas à sua volta que você deveria saber.
— Eu já disse…
— Não seja mais teimoso que o necessário, Perrin. Foi lá na cabana, logo depois que você disse que iria. Não tinha visto antes. Deve ter a ver com a sua viagem. Ou pelo menos com a decisão de ir.
Após um momento ele perguntou, relutante:
— O que foi que você viu?
— Um Aiel dentro de uma jaula — respondeu ela, sem cerimônias. — Um Tuatha’an com uma espada. Um falcão e um gavião empoleirados nos seus ombros. Duas fêmeas, eu acho. E todo o resto, é claro. O que está sempre lá. Escuridão à sua volta e…