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— Você acha que esse Perrin Aybara é um Amigo das Trevas?

— Um Amigo das Trevas não se importaria em ver meu irmão morrer dentro de uma jaula. Creio que ela tenha encontrado o senhor logo depois que isso aconteceu. A tempo de ajudar. Gostaria que ela tivesse vindo a Jahra uns meses mais cedo.

Perrin sentiu vergonha por ter comparado aquele homem a um sapo.

— E eu gostaria que ela tivesse podido fazer algo por ele. — Que me queimem, eu gostaria mesmo. De súbito imaginou que talvez toda a aldeia já estivesse sabendo sobre Noam. Sobre seus olhos. — Simion, você pode me levar algo para comer no quarto?

Mestre Harod e o restante talvez estivessem muito impressionados com Loial para reparar nos olhos de Perrin, mas certamente notariam se o vissem no salão.

— É claro. E de manhã também. O senhor não precisa descer antes da hora de montar o cavalo.

— Você é um bom homem, Simion. Um bom homem.

Simion parecia tão satisfeito ao ouvir isso que Perrin sentiu vergonha mais uma vez.

9

Sonhos de Lobo

Perrin voltou para o quarto pela entrada dos fundos, e depois de algum tempo Simion chegou com uma bandeja coberta. O pano não abafava os aromas de carneiro cozido, vagem, nabo e pão fresco, mas Perrin continuou na cama, olhando para o teto caiado, até a comida esfriar. Sem cessar, imagens de Noam vinham à sua mente. Noam mastigando as ripas de madeira. Noam correndo e sumindo na escuridão. Ele tentou pensar em fazer fechaduras, em temperar e moldar o aço com cuidado, mas não adiantou.

Ignorando a bandeja, levantou-se e foi até o quarto de Moiraine.

— Pode entrar, Perrin — respondeu ela à batida na porta.

Por um instante, pensou em todas as histórias antigas sobre Aes Sedai, mas as deixou de lado e abriu a porta.

Moiraine estava sozinha — ele ficou grato por isso —, sentada, equilibrando um frasco de tinta no joelho e rabiscando em um pequeno caderno com capa de couro. Ela arrolhou o frasco e limpou a ponta de aço da pena em um pedaço de pergaminho, sem olhar para ele. A lareira estava acesa.

— Estava aguardando você há algum tempo — disse. — Não toquei no assunto antes porque estava óbvio que você não queria. Mas, depois de hoje à noite… O que deseja saber?

— É isso que vai acontecer comigo? — perguntou ele. — Vou acabar assim?

— Talvez.

Ele esperou que ela dissesse algo mais, porém a mulher apenas guardou caneta e tinta no pequeno estojo de madeira-rosa polida e soprou o rascunho para secá-lo.

— É só isso? Moiraine, não me venha com respostas evasivas de Aes Sedai. Se você sabe alguma coisa, então me diga. Por favor.

— Sei muito pouco, Perrin. Enquanto buscava outras respostas entre os livros e manuscritos de pesquisa de duas amigas, encontrei a cópia do fragmento de um livro da Era das Lendas. Falava sobre… situações como a sua. Talvez fosse a única cópia no mundo inteiro, e não esclareceu muita coisa.

— Mas esclareceu o quê? Qualquer coisa já é mais do que tudo o que sei agora. Que me queime, eu aqui me preocupando se Rand poderia ficar louco, sem nem imaginar que teria que me preocupar comigo!

— Perrin, mesmo na Era das Lendas se sabia muito pouco a respeito disso. Quem escreveu o livro parecia não estar certo de que fosse verdade ou lenda. E eu vi apenas um fragmento, não se esqueça disso. Dizia que alguns que falavam com os lobos se perdiam, e que o ser humano acabava devorado pelo lobo. Alguns. Se quis dizer um em dez, ou cinco, ou nove, eu não sei.

— Eu consigo bloqueá-los. Não sei como, mas sou capaz de me recusar a escutá-los. Posso me recusar a ouvi-los. Isso ajudaria?

— Pode ser. — Ela o observou, parecendo escolher as palavras com cuidado. — O trecho que li era sobretudo sobre sonhos. Sonhar pode ser perigoso para você, Perrin.

— Você já disse isso uma vez. O que quer dizer?

— De acordo com o livro, os lobos vivem parte neste mundo, parte em um mundo dos sonhos.

— Mundo dos sonhos? — perguntou ele, incrédulo.

Moiraine o encarou com um olhar penetrante.

— Foi isso que eu disse, e era isso que estava escrito. A maneira como os lobos conversam entre si, e com você, está de alguma forma ligada a esse mundo dos sonhos. Não digo que entendo como isso acontece. — Ela fez uma pausa e franziu a testa de leve. — Pelo que li sobre Aes Sedai que tinham o Talento de Sonhar, os Sonhadores às vezes diziam encontrar lobos nos sonhos, até mesmo alguns lobos que serviam de guias. Temo que você precise aprender a ser tão cuidadoso dormindo quanto acordado, se quiser evitar os lobos. Se essa for a sua decisão.

— Se essa for a minha decisão? Moiraine, eu não vou terminar como Noam. Não vou!

Ela lhe lançou um olhar questionador e balançou a cabeça devagar.

— Você fala como se fosse dono de todas as suas escolhas, Perrin. Você é ta’veren, não se esqueça. — Ele lhe deu as costas e contemplou a escuridão da noite pelas janelas, mas ela continuou. — Talvez, por saber o que Rand é, por saber como ele é um ta’veren forte, eu tenha prestado pouca atenção aos outros dois ta’veren que encontrei com ele. Três ta’veren na mesma aldeia, todos nascidos com semanas de diferença? Nunca se ouviu falar nisso. Talvez você e Mat tenham propósitos maiores para o Padrão do que imaginávamos.

— Não quero ter propósito nenhum para o Padrão — resmungou Perrin. — E sem dúvida não poderei ter, se esquecer que sou um homem. Você pode me ajudar, Moiraine? — Era muito difícil dizer aquelas palavras. E se para isso ela tiver que usar o Poder Único? Não seria melhor eu esquecer que sou um homem? — Pode me ajudar a não… me perder?

— Se eu puder manter você inteiro, farei isso. Eu prometo, Perrin. Mas não pretendo arriscar a luta contra a Sombra. Você também precisa saber disso.

Quando ele se virou para encará-la, ela o observava sem piscar. E se a sua luta me levar amanhã mesmo para o túmulo, você vai adiante? Ele teve a certeza fria de que sim.

— O que foi que você não me contou?

— Não vá longe demais, Perrin — retrucou ela, friamente. — Não me pressione a dizer mais do que julgo apropriado.

Ele hesitou antes de fazer a pergunta seguinte.

— Pode fazer por mim o que fez por Lan? Pode blindar meus sonhos?

— Eu já tenho um Guardião, Perrin. — Seus lábios se contorceram em um esboço de sorriso. — E terei apenas um. Sou da Ajah Azul, não da Verde.

— Você entendeu. Não quero ser Guardião. — Luz, eu preso por um elo a uma Aes Sedai pelo resto da vida? É tão ruim quanto os lobos.

— Não adiantaria nada, Perrin. A blindagem é para os sonhos externos. O perigo dos seus sonhos está dentro de você. — Ela abriu outra vez o pequeno livro. — Você deveria dormir — completou, dispensando-o. — Tenha cuidado com os sonhos, mas alguma hora vai precisar dormir.

Ela virou uma página, e ele foi embora.

De volta ao próprio quarto, Perrin relaxou um pouco, só um pouquinho, e deixou seus sentidos aflorarem. Os lobos ainda estavam lá fora, fora da aldeia, rodeando Jahra. Quase no mesmo instante, retornou ao rígido autocontrole.

— Eu preciso é de uma cidade — murmurou. Aquilo os manteria distantes. Depois de encontrar Rand. Depois de concluir o que precisa ser concluído. Ele não sabia ao certo o quanto lamentava por Moiraine não ter podido protegê-lo. O Poder Único ou os lobos: era uma escolha que homem nenhum deveria ter de fazer.

Ele deixou o fogo da lareira se extinguir e abriu as duas janelas. O ar frio da noite entrou. Ele atirou os cobertores e a colcha no chão e deitou-se, todo vestido, na cama encaroçada, sem se esforçar para encontrar uma posição confortável. O último pensamento antes de adormecer foi que, se havia alguma coisa capaz de evitar o sono profundo e os sonhos perigosos, seria aquele colchão.