Ele estava em um corredor longo. As paredes e o teto alto de pedras, rajados de sombras estranhas, tinham um brilho úmido. As sombras se contorciam em faixas, desaparecendo tão abruptamente quanto surgiam, escuras demais para a luz entre elas. Ele não fazia ideia de onde vinha a luz.
— Não — disse, depois repetiu, mais alto: — Não! Isso é um sonho. Preciso acordar. Acordar!
O corredor não se alterou.
Perigo. Era o pensamento de um lobo, fraco e distante.
— Eu vou acordar. Eu vou!
Deu um murro na parede. Doeu, mas ele não acordou. Pensou ter visto uma das sombras sinuosas desviar do golpe.
Corra, irmão. Corra.
— Saltador? — perguntou, assombrado. Tinha certeza de que reconhecia o lobo cujos pensamentos acabara de ouvir. Saltador, que havia invejado as águias. — Saltador está morto!
Corra!
Perrin começou a correr, desajeitado, segurando o machado para que o cabo não batesse em sua perna. Não sabia para onde corria, ou por quê, mas a urgência do chamado de Saltador não podia ser ignorada. Saltador está morto, pensava. Está morto! Mas Perrin corria.
O corredor por onde ele avançava cruzava com outros em inclinações estranhas, às vezes descendo, às vezes subindo. No entanto, nenhum parecia muito diferente de onde ele estava. Paredes ininterruptas de pedras úmidas, sem nenhuma porta, rajadas de escuridão.
Ao passar por um dos corredores que cruzavam o principal, ele deu uma derrapada e parou. Havia um homem ali. Piscava, indeciso, o casaco aberto por cima dos quadris e as bainhas da calça abertas por sobre as botas. Ambos eram amarelo vivo, mas as botas eram apenas um pouco mais claras.
— É mais do que consigo suportar — disse o homem para si mesmo, não para Perrin. Tinha um sotaque estranho, ligeiro e pronunciado. — Não sonho apenas com camponeses, mas agora com camponeses estrangeiros, a julgar pelas roupas. Saia dos meus sonhos, rapaz!
— Quem é você? — perguntou Perrin.
O homem ergueu as sobrancelhas, como se ofendido.
As faixas de sombra se retorciam em torno deles. Uma delas se descolou do teto, em um dos cantos, e se esgueirou até a cabeça do estranho. Parecia se enroscar em seus cabelos. O homem arregalou os olhos, e tudo aconteceu muito rápido. A sombra disparou de volta para o teto, dez pés acima, levando algo pálido. Pingos salpicaram o rosto de Perrin. Um guincho agudo e ensurdecedor cortou o ar.
Paralisado, Perrin encarou a silhueta ensanguentada vestida com as roupas do homem, gritando e se debatendo no chão. Sem pensar, ele ergueu os olhos para ver o objeto pálido que pendia do teto como um saco vazio. Uma parte já fora absorvida pela faixa negra, mas ele não teve dificuldade em reconhecer a pele humana, aparentemente inteira.
As sombras em volta dele dançavam, agitadas, e Perrin correu, perseguido pelos gritos do homem, que morria. Ondas percorriam as faixas escuras, acompanhando-o.
— Mude, que o queime! — gritou ele. — Sei que é um sonho! Que a luz o queime, mude!
Tapeçarias coloridas pendiam das paredes, e altos pedestais dourados com dezenas de velas iluminavam o chão de ladrilhos brancos e o teto, pintado com nuvens macias e pássaros extravagantes em pleno voo. Nada se movia além das chamas bruxuleantes ao longo do corredor, estendendo-se até onde a vista alcançava, ou dos arcos angulosos de pedra branca que de vez em quando irrompiam das paredes.
Perigo. O chamado era ainda mais fraco que o anterior. E mais urgente, se é que era possível.
De machado na mão, Perrin começou a avançar pelo corredor, cauteloso, falando sozinho.
— Acorde. Acorde, Perrin. Se você sabe que é um sonho, ou ele muda ou você acorda. Acorde, que queime! — O corredor era tão concreto quanto qualquer outro lugar por onde ele já havia passado.
Ele parou diante da primeira arcada, branca e bem angulosa. Ela levava a um imenso salão aparentemente sem janelas, mas tão suntuoso quanto um palácio. A mobília era toda trabalhada, coberta de ouro e marchetada de marfim. Havia uma mulher de pé no centro do salão, encarando um manuscrito esfarrapado aberto em uma mesa com a testa franzida. Uma bela mulher, de cabelos e olhos negros, vestida de branco e prateado.
Ao mesmo tempo em que ele a reconheceu, ela ergueu a cabeça e o encarou de frente. Arregalou os olhos, chocada e cheia de raiva.
— Você! O que está fazendo aqui? Como foi que… Você vai estragar coisas que sequer pode imaginar!
De repente, o recinto pareceu se achatar, como se Perrin observasse um desenho e não mais o salão. A imagem plana virou-se de lado e tornou-se apenas uma linha vertical brilhante em meio às sombras. Uma luz branca piscou, e a linha desapareceu, deixando apenas a escuridão, mais negra que o próprio negro.
Bem diante das botas de Perrin, os azulejos do chão de súbito chegaram ao fim. Enquanto ele olhava, as bordas brancas se dissolviam em uma areia negra levada pela água. Mais do que depressa, ele deu um passo atrás.
Corra.
Perrin se virou e viu Saltador, um enorme lobo cinzento com uma cicatriz.
— Você está morto. Eu vi você morrer. Senti você morrer!
Um chamado inundou os pensamentos de Perrin.
Corra, agora! Você não pode ficar aqui. Perigo. Enorme perigo. Maior que todos os Desnascidos. Você precisa ir. Vá agora! Agora!
— Como? — gritou Perrin. — Eu quero ir, mas como?
Vá! Arreganhando os dentes, Saltador pulou em direção à garganta de Perrin.
Com um grito abafado, Perrin sentou-se na cama, as mãos na garganta para estancar o sangramento. Encontrou a pele intacta. Engoliu em seco, aliviado, mas no instante seguinte seus dedos tocaram uma região úmida.
Quase caindo, ele pulou para fora da cama, cambaleou até a pia, agarrou o cântaro e encheu a bacia, espalhando água por todos os lados. Ao lavar o rosto, a água se tornou cor-de-rosa. Por causa do sangue do homem com as roupas estranhas.
Mais pontos escuros salpicavam seu casaco e as calças. Ele os arrancou do corpo e os atirou bem longe. Pretendia deixá-los ali. Simion podia queimá-los.
Uma rajada de vento açoitou a janela aberta. Trêmulo, de camiseta e roupas íntimas, sentou-se no chão e recostou na cama. Aqui deve ser bastante desconfortável. Tinha os pensamentos cheios de amargura, além de medo e preocupação. E determinação. Não vou ceder a isso. Não vou!
Ele ainda tremia quando enfim adormeceu, um sono leve e vigilante dominado pela vaga consciência do quarto ao redor e pela lembrança do frio. Mas os pesadelos que vieram eram melhores que alguns outros.
Rand se aninhava sob as árvores no escuro, observando o cão negro e corpulento aproximar-se de seu esconderijo. Sentia dor em um dos lados do corpo, no ferimento que Moiraine não fora capaz de curar, mas a ignorou. O luar fraco mal permitia que ele distinguisse o cão da altura de seu quadril, com pescoço grosso, cabeça pesada e dentes com um brilho que lembrava prata molhada em meio à noite. Ele farejou o ar e trotou em direção a Rand.
Mais perto, pensou Rand. Chegue mais perto. Nada de aviso a seu mestre desta vez. Mais perto. É isso aí. O cão estava a apenas dez passos de distância. Um rosnado profundo ressoava em seu peito, e ele de repente saltou para a frente. Direto para cima de Rand.
O Poder o preencheu. Algo projetou-se de seus braços abertos, ele não sabia ao certo o quê. Uma barra de luz branca, sólida como aço. Fogo líquido. Por um instante, no meio daquilo tudo, o cão ficou transparente, depois desapareceu.
A luz branca se enfraqueceu, deixando apenas a marca da imagem nos olhos de Rand. Ele desabou no tronco da árvore mais próxima, sentindo a casca da árvore arranhar o rosto. O alívio e um riso silencioso o fizeram vibrar. Funcionou. Que a Luz me salve, desta vez funcionou. Não era sempre. Tinha encontrado outros cães aquela noite.