Em qualquer outro momento, Egwene teria rido ao pensar em Nynaeve fingindo humildade. Até Elayne se sairia melhor. Mas, naquele instante, não sentia vontade de rir.
— E se Hurin estiver certo? E se formos atacados? Ele não pode nos defender de vinte ou trinta homens, e é capaz de morrermos se esperarmos Verin tomar alguma atitude. Você disse que sente uma tempestade, Nynaeve.
— Sente? — perguntou Elayne. Os cachos louro-acobreados se balançaram quando ela sacudiu a cabeça. — Verin não vai gostar se nós… — A voz dela foi morrendo. — Independentemente de Verin gostar ou não, talvez seja preciso.
— Farei o que for preciso — disse Nynaeve, com rispidez —, se algo tiver que ser feito. E você duas vão fugir, se for preciso. A Torre Branca pode estar em polvorosa com o potencial de vocês, mas não pensem que não vão estancá-las se o Trono de Amyrlin ou o Salão da Torre julgarem necessário.
Elayne engoliu em seco.
— Se nos estancarem por isso — disse, com a voz fraca —, farão o mesmo com você. Devemos todas fugir juntas ou agir juntas. Hurin já acertou antes. Se quisermos ficar vivas para enfrentar os problemas na Torre, talvez tenhamos… que fazer o que for preciso.
Egwene estremeceu. Estancada. Separada de saidar, a metade feminina da Fonte Verdadeira. Poucas Aes Sedai haviam sofrido essa punição, ainda que houvesse atos que a Torre condenasse com essa penalidade. As noviças eram obrigadas a decorar os nomes de todas Aes Sedai que já haviam sido estancadas, além de seus crimes.
Ela sempre conseguia sentir a Fonte presente, logo além do alcance dos olhos, como o sol do meio-dia em seus ombros. Ainda que com frequência não alcançasse nada ao buscar saidar, queria tocá-la. Quanto mais a tocava, mais tinha vontade, o tempo inteiro, não importava o que Sheriam Sedai, a Mestra das Noviças, dissesse sobre os perigos de se apegar demais à sensação do Poder Único. Ser apartada disso, ainda ser capaz de sentir saidar, mas jamais poder tocá-la novamente…
As outras também pareciam não querer falar.
Para disfarçar o tremor, ela se inclinou por cima da sela para olhar a liteira, que balançava suavemente. Os cobertores de Mat estavam bagunçados, expondo a adaga curvada de bainha dourada em uma das mãos, com um rubi do tamanho de um ovo de pombo na ponta do cabo. Com cuidado para não encostar na adaga, ela ajeitou os cobertores por cima da mão dele. O rapaz era apenas alguns anos mais velho que ela, mas o rosto encovado e a pele amarelada o envelheciam. O peito mal se movia com a respiração rouca. Um saco de couro encaroçado jazia a seus pés. Ela ajeitou o cobertor por cima do saco também. Precisamos levar Mat até a Torre, pensou. E o saco.
Nynaeve também se inclinou e tocou a testa de Mat.
— A febre aumentou. — Ela parecia preocupada. — Se pelo menos eu tivesse um pouco de raiz-do-sossego ou mata-febre.
— Talvez se Verin tentasse Curá-lo de novo — sugeriu Elayne.
Nynaeve balançou a cabeça, acariciou os cabelos de Mat e deu um suspiro antes de se endireitar para falar.
— Ela disse que tudo o que pode fazer agora é mantê-lo vivo, e eu acredito nela. Eu… tentei Curá-lo sozinha ontem à noite, mas nada aconteceu.
Elayne arfou.
— Sheriam Sedai disse que não devemos tentar Curar antes de sermos guiadas passo a passo uma centena vezes.
— Você poderia tê-lo matado — concordou Egwene, com rispidez.
Nynaeve fungou alto.
— Eu já Curava antes de sequer pensar em ir para Tar Valon, mesmo sem saber disso. Mas parece que preciso dos meus remédios para fazer a coisa funcionar. Se pelo menos eu tivesse um pouco de mata-febre. Acho que ele já não tem muito tempo. Horas, talvez.
Egwene pensou que Nynaeve parecia quase tão triste em saber o que sabia quanto se sentia em relação a Mat. Ela se perguntou mais uma vez por que Nynaeve havia decidido ir a Tar Valon para o treinamento, para começar. Ela aprendera a canalizar involuntariamente, mesmo que nem sempre fosse capaz de controlar seus atos, e superara a crise que matava três entre quatro mulheres que aprendiam a canalizar sem a orientação de uma Aes Sedai. Nynaeve dizia que queria aprender mais, entretanto, com frequência se mostrava tão relutante a respeito quanto uma criança obrigada a tomar chá de língua-de-ovelha.
— Logo chegaremos à Torre Branca — disse Egwene. — Lá, ele será Curado. A Amyrlin vai cuidar dele. Ela vai cuidar de tudo. — Ela não olhava para os pés de Mat, onde o cobertor escondia o saco. As outras duas mulheres tinham o cuidado de também não olhar. Havia alguns segredos dos quais todas se sentiriam aliviadas em se livrar.
— Cavaleiros — avisou Nynaeve de repente, mas Egwene já os avistara. Mais de vinte homens surgiam por cima de uma pequena encosta à frente, os mantos brancos esvoaçando enquanto o grupo galopava em direção a eles.
— Filhos da Luz — acrescentou Elayne, como se fosse um xingamento. — Acho que encontramos sua tempestade e o problema de Hurin.
Verin havia parado, com uma das mãos no braço de Hurin para impedir que ele desembainhasse a espada. Egwene tocou o cavalo que conduzia a liteira e o freou bem atrás da Aes Sedai roliça.
— Podem deixar que eu falo, crianças — disse a Aes Sedai, muito calma, empurrando o capuz para trás e revelando os cabelos grisalhos. Egwene não sabia dizer qual seria a idade de Verin. Achava-a velha o bastante para ser avó, mas as mechas cinza eram o único sinal da idade da Aes Sedai. — O que quer que façam, não permitam que eles as irritem.
O rosto de Verin era tão tranquilo quanto sua voz, mas Egwene pensou ter visto a Aes Sedai calculando a distância até Tar Valon. Os topos das torres já estavam visíveis, assim como a ponte alta em forma de arco que atravessava o rio que levava à ilha, elevada o bastante para a passagem dos navios mercantes que apinhavam os rios.
Perto o bastante para ver, pensou Egwene, mas longe demais para adiantar de alguma coisa.
Por um instante, ela teve certeza de que os Mantos-brancos que se aproximavam pretendiam atacá-los, mas o líder ergueu uma das mãos, e de súbito o grupo puxou as rédeas, a cerca de quarenta passos de distância, levantando poeira à frente.
Nynaeve murmurou, raivosa, entre dentes, e Elayne sentou-se, ereta e cheia de orgulho, como se prestes a repreender os Mantos-brancos pelos péssimos modos. Hurin ainda segurava o punho da espada, parecia pronto para se colocar entre as mulheres e os Mantos-brancos, independentemente do que Verin dissesse. Tranquila, a Aes Sedai abanou de leve uma das mãos diante do rosto, para dissipar a poeira. Os cavaleiros de mantos brancos se espalharam em semicírculo, bloqueando a passagem com firmeza.
As placas peitorais e os elmos cônicos brilhavam devido ao polimento, e até a malha nos braços dos homens reluzia. Cada um deles tinha o sol dourado ofuscante no peitoral. Alguns encaixaram as flechas nos arcos, que não ergueram, mas deixaram a postos. O líder era um homem jovem, mas com dois nós dourados de graduação abaixo do sol no manto.
— Duas bruxas de Tar Valon, se meu palpite estiver certo, não é mesmo? — disse, com um sorriso tenso no rosto fino. A arrogância brilhava em seus olhos, como se ele soubesse alguma verdade que os outros eram muito idiotas para enxergar. — Mais duas em formação e um par de cachorrinhos, um velho e um doente. — Hurin se indignou, mas foi contido pela mão de Verin. — De onde vocês vêm? — inquiriu o Manto-branco.
— Viemos do oeste — respondeu Verin, muito calma. — Saia de nosso caminho e nos deixe seguir. Os Filhos da Luz não têm autoridade aqui.
— Os Filhos têm autoridade onde quer que a Luz esteja e levam a Luz aonde ela não estiver. Respondam às minhas perguntas! Ou será que devo levá-los ao nosso acampamento e deixar que os Questionadores os interroguem?
Mat não aguentaria se eles demorassem ainda mais a chegar à Torre Branca para obter ajuda. E, mais importante — Egwene estremecia em pensar daquela maneira —, não podiam deixar o conteúdo daquele saco cair nas mãos dos Mantos-brancos.