— Crianças impetuosas — suspirou Verin. — Quase tão ruim quanto os garotos, por deixarem as línguas dominarem vocês. Vá com a Luz, meu filho — disse ao Manto-branco.
Sem mais uma palavra, ela passou com o grupo pelo lado do homem, mas os gritos dele os seguiram.
— Meu nome é Dain Bornhald! Lembrem-se disso, Amigas das Trevas! Eu as farei temer meu nome! Lembrem-se do meu nome!
Enquanto os gritos de Bornhald ficavam mais distantes, o grupo avançou em silêncio por algum tempo. Enfim, Egwene disse, a ninguém em particular:
— Eu estava só tentando melhorar as coisas.
— Melhorar! — murmurou Verin. — Você precisa aprender que existem momentos para dizer toda a verdade e momentos para segurar a língua. É a menor das lições que deve aprender, mas muito importante, se deseja viver tempo o suficiente para usar o xale de uma irmã completa. Será que nunca ocorreu a você que as notícias de Falme podem ter chegado antes de nós?
— Por que isso teria ocorrido a ela? — perguntou Nynaeve. — Ninguém que conhecemos antes disso tinha ouvido nada além de rumores, quando muito, e durante o último mês nós avançamos ainda mais rápido que os rumores.
— E por acaso todas as notícias têm que seguir pelas mesmas estradas por que passamos? — retrucou Verin. — Estamos avançando devagar. Os rumores voam por centenas de caminhos diferentes. Sempre se prepare para o pior, criança. Assim só terá surpresas agradáveis.
— O que ele quis dizer sobre a minha mãe? — perguntou Elayne, de repente. — Ele devia estar mentindo. Ela jamais se viraria contra Tar Valon.
— As Rainhas de Andor sempre foram amigas de Tar Valon, mas tudo muda. — O rosto de Verin estava tranquilo de novo, no entanto havia tensão em sua voz. Ela se virou na sela para examiná-los, as três jovens, Hurin e Mat na liteira. — O mundo está estranho, e tudo está mudando. — Eles alcançaram o topo. Podiam avistar uma aldeia adiante, os telhados amarelos aglomerados ao redor da grande ponte que levava a Tar Valon. — Agora vocês precisam ficar atentos de verdade — disse Verin ao grupo. — Agora, começa o verdadeiro perigo.
11
Tar Valon
A pequena aldeia de Darein situava-se à margem do Rio Erinin havia quase tanto tempo quanto Tar Valon ocupava sua ilha. As pequenas casas e lojas de tijolos marrons e vermelhos e as ruas pavimentadas de pedra lhe davam um ar perene, embora a aldeia houvesse sido incendiada nas Guerras dos Trollocs, saqueada durante o sítio a Tar Valon pelos exércitos de Artur Asa-de-gavião, pilhada mais de uma vez durante a Guerra dos Cem Anos e incendiada de novo na Guerra dos Aiel, menos de vinte anos antes. Uma história turbulenta para uma aldeia tão pequena, mas a localização de Darein, ao pé de uma das pontes que levavam a Tar Valon, era uma garantia de que ela sempre seria reconstruída, não importasse quantas vezes fosse destruída. Pelo menos, enquanto Tar Valon existisse.
No início, Egwene achou que Darein estava à espera de uma nova guerra. Piqueiros marchavam pelas ruas, dispostos em fileiras ordenadas que formavam um quadrado. Eram seguidos por arqueiros em elmos achatados com abas, aljavas cheias nos cinturões e arcos enviesados no peito. Um esquadrão de cavaleiros em armaduras, com os rostos escondidos pelos elmos, abriu caminho para Verin e seu grupo com um aceno da manopla de aço do oficial. Todos ostentavam no peito a Chama Branca de Tar Valon, uma lágrima cor de neve.
Ainda assim, o povo da cidade seguia sua vida com aparente tranquilidade. Uma multidão de mercadores se espalhava entre os soldados, como se os homens em marcha fossem obstáculos com os quais todos estivessem havia muito acostumados. Alguns poucos homens e mulheres com bandejas de frutas acompanhavam os soldados, tentando oferecer-lhes maçãs enrugadas e peras colhidas no inverno, mas, fora esses, lojistas e mascates não lhes davam atenção. Verin também parecia ignorá-los, conduzindo Egwene e os outros pela aldeia em direção à grande ponte em forma de arco elevada sobre quase uma meia milha de água, tal qual renda trançada na pedra.
Ao pé da ponte, mais soldados montavam guarda, uma dezena de piqueiros e meia dúzia de arqueiros que detinham todos que queriam cruzá-la. O oficial do grupo, um homem quase calvo com o elmo pendurado no cabo da espada, parecia atormentado com a fila de pessoas à espera, a pé, a cavalo, em carroças conduzidas por bois, cavalos ou pelo próprio dono. A fila não tinha mais de cem passos de comprimento, mas a cada vez que alguém recebia permissão para atravessar a ponte, outro cidadão se juntava ao início. Ainda assim, o homem quase calvo parecia não poupar tempo para se certificar de que cada um tinha o direito de entrar em Tar Valon antes de deixar que passassem.
Ele abriu a boca com raiva quando Verin conduziu seu grupo ao início da fila, depois a olhou melhor e enfiou depressa o elmo na cabeça. Ninguém que realmente as conhecesse precisava de um anel da Grande Serpente para identificar uma Aes Sedai.
— Bom dia para a senhora, Aes Sedai — disse o homem, levando uma das mãos ao coração em uma reverência. — Bom dia. Queiram passar, por gentileza.
Verin parou ao lado dele. Um burburinho se iniciou na fila, mas ninguém elevou a voz para reclamar.
— Problemas com os Mantos-brancos, guarda?
Por que paramos? Egwene se perguntou, aflita. Será que ela se esqueceu de Mat?
— Não exatamente, Aes Sedai — respondeu o oficial. — Nada de lutas. Eles tentaram entrar no Mercado de Eldone, do outro lado do rio, mas nós mostramos quem é que manda. A Amyrlin quer ter certeza de que não tentarão outra vez.
— Verin Sedai — começou Egwene, cautelosa. — Mat…
— Só um instante, criança — retrucou a Aes Sedai, soando apenas meio distraída. — Não me esqueci dele. — Sua atenção retornou de imediato ao oficial. — E nas aldeias mais afastadas?
O homem deu de ombros, constrangido.
— Não temos condição de manter os Mantos-brancos longe, Aes Sedai, mas eles somem assim que nossas patrulhas chegam. Parecem estar tentando nos provocar. — Verin assentiu e teria seguido em frente, mas o oficial continuou a falar. — Perdão, Aes Sedai, mas é óbvio que estão vindo de longe. Vocês trouxeram alguma notícia? Novos rumores sobem o rio com cada navio mercante. Dizem que há um novo falso Dragão em algum lugar do oeste. Ora, dizem até que atrás dele vem o exército de Artur Asa-de-gavião, renascido dos mortos, e que ele já matou vários Mantos-brancos e destruiu uma cidade, Falme é o nome, em Tarabon, é o que dizem.
— Dizem que Aes Sedai o ajudaram! — gritou um homem que aguardava na fila. Hurin respirou fundo e se virou, como se esperasse algum ataque.
Egwene olhou para trás, mas não viu sinal de quem havia gritado. Todos pareciam se preocupar apenas em esperar, paciente ou impacientemente, pela própria vez de passar. As coisas haviam mudado, e não para melhor. Quando ela deixara Tar Valon, qualquer pessoa que se pronunciasse contra Aes Sedai teria sorte de escapar apenas com um soco no nariz de quem ouvisse as palavras. Corado, o oficial olhou irritado para a fila.
— Rumores raramente são verdadeiros — disse Verin. — Posso lhe dizer que Falme ainda está de pé. E nem fica em Tarabon, guarda. Dê menos ouvidos aos rumores, e mais ao Trono de Amyrlin. Que a Luz brilhe sobre você. — Ela puxou as rédeas, fazendo o cavalo avançar, e ele fez uma mesura enquanto o grupo passava.
Egwene achou a ponte incrível, como todas em Tar Valon. Os muros com intrincados ornamentos vazados não deixavam nada a dever ao trabalho da melhor artesã-rendeira. Era difícil crer que algo como aquilo fora feito com pedra, ou que era capaz de sustentar o próprio peso. O rio rolava, forte e firme, cerca de cinquenta passos abaixo, e, apesar da extensão de meia milha, a ponte se erguia da margem até a ilha.