Ainda mais incrível, à sua própria maneira, era a sensação de que a ponte a conduzia para casa. Incrível e surpreendente. Campo de Emond é minha casa. Mas em Tar Valon ela aprenderia o necessário para se manter viva, para se manter livre. Em Tar Valon ela saberia — teria de saber — por que seus sonhos a perturbavam tanto, e por que às vezes pareciam ter significados que ela não era capaz de decifrar. Tar Valon era onde estava sua vida naquele momento. Se ela algum dia voltasse a Campo de Emond — o “se” doía, mas ela precisava ser honesta —, seria como visita, para ver os pais. Já fora longe demais para ser a filha de um estalajadeiro. Esse vínculo não a prenderia outra vez, não porque ela os detestasse, mas porque os havia superado.
A ponte era apenas o começo. Levava até os muros que circundavam a ilha, muralhas altas de pedras raiadas em prata que emitiam um brilho branco, com topos de onde dava para ver a ponte de cima. De vez em quando, as muralhas abrigavam guaritas, feitas com as mesmas pedras brancas, as gigantescas bases erodidas pelo rio. Porém, era para acima e além dos muros que se erguiam as verdadeiras torres de Tar Valon, as torres históricas, pináculos pontudos com caneluras em espirais, algumas ligadas por pontes a uns cem passos ou mais do solo. Ainda assim, era apenas o começo.
Não havia guardas nos portões de bronze. Eles se abriam para uma das largas avenidas que entrecortavam a ilha, e o espaço entre eles era suficiente para vinte homens passarem lado a lado. A primavera mal havia chegado, mas o ar já exalava aromas de flores, fragrâncias e temperos.
A cidade deixou Egwene sem fôlego, como se a visse pela primeira vez. Cada quarteirão e esquina tinha sua própria fonte, estátua ou monumento, alguns no topo de grande colunas do tamanho de torres, mas a cidade em si era o mais deslumbrante. Apesar das formas simples, tinha tantos adornos e recortes que acabava parecendo um ornamento, ou, quando não exibia decoração, ostentava o esplendor da própria forma. Construções grandes e pequenas, de pedras de todas as cores, parecendo conchas, ondas, ou paredões esculpidos pelo vento, harmoniosas e exóticas, capturadas da natureza ou da imaginação humana. Habitações, estalagens, estábulos: até as construções mais insignificantes de Tar Valon haviam sido erguidas para a beleza. Pedreiros Ogier construíram a maior parte da cidade durante os longos anos após a Ruptura do Mundo, e eles diziam que aquele fora seu melhor trabalho.
Homens e mulheres de todas as nações andavam pelas ruas. Egwene via peles escuras, pálidas e de todos os tons intermediários, e vestimentas em cores e estampas vistosas, ou apagadas mas enfeitadas com franjas, tranças e botões brilhantes, ou austeras e severas. Algumas roupas eram mais reveladoras do que Egwene julgava apropriado, outras deixavam visíveis apenas os olhos e as pontas dos dedos. Liteiras trançavam a multidão, com os carregadores gritando “Abram caminho!”. Carruagens fechadas avançavam devagar, e os cocheiros de libré berravam “Eia!” e “Epa!” como se acreditassem que eram capazes de andar mais rápido. Músicos de rua tocavam flautas, harpas ou gaitas, às vezes acompanhados de um malabarista ou acrobata, sempre de chapéus preparados para as moedas. Mascates gritavam, oferecendo seus produtos, e os lojistas diante das lojas anunciavam a excelência de seus artigos. O zunido que preenchia a cidade era como uma canção viva.
Verin escondera o rosto sob o capuz. Ninguém na multidão parecia lhes dar qualquer atenção, pensava Egwene. Nem mesmo Mat a cavalo na maca atraiu uma segunda olhadela, embora alguns tivessem se afastado quando o grupo passou apressado. As pessoas às vezes traziam os doentes à Torre Branca, para que fossem Curados, e talvez o que ele tivesse fosse contagioso.
Egwene cavalgou para junto de Verin e se inclinou para falar com a Aes Sedai.
— Está mesmo esperando algum problema agora? Estamos na cidade. Estamos quase chegando. — A Torre Branca já estava à vista, e a imensa construção reluzia, grandiosa e imponente.
— Eu sempre espero problemas — respondeu Verin, calma —, e você deveria fazer o mesmo. Principalmente na Torre. Todas vocês precisam ser mais cuidadosas do que nunca. Seus… truques — ela contraiu a boca por um instante antes de recuperar a serenidade — assustaram os Mantos-brancos, mas dentro da Torre vocês podem muito bem acabar mortas ou estancadas.
— Eu não faria aquilo na Torre — protestou Egwene. — Nenhuma de nós faria.
Nynaeve e Elayne haviam se juntado a elas e deixado Hurin tomando conta dos cavalos da liteira. Elas assentiram, Elayne com fervor, e Nynaeve, ao que pareceu a Egwene, como se não estivesse tão certa.
— Vocês jamais deverão fazer isso de novo, crianças. Não podem! Nunca mais! — Verin olhou de esguelha para elas pela fresta do capuz e sacudiu a cabeça. — E eu espero de verdade que tenham aprendido que é uma tolice falar quando se deve permanecer em silêncio. — O rosto de Elayne ficou todo vermelho, e as bochechas de Egwene, quentes. — Quando adentrarmos os muros da Torre, segurem as línguas e aceitem o que acontecer. Seja o que for! Vocês não têm ideia do que nos aguarda na Torre, e ainda que tivessem não saberiam como proceder. Então fiquem caladas.
— Farei o que manda, Verin Sedai — disse Egwene, e Elayne repetiu as palavras.
Nynaeve apenas fungou. A Aes Sedai a encarou, e ela assentiu, relutante.
A rua se abria em uma larga praça no centro da cidade. No meio da praça ficava a Torre Branca, brilhando sob o sol, elevando-se até quase tocar o céu, um palácio de domos, pináculos delicados e outras formas rodeadas pelos muros da Torre. Havia poucas pessoas na praça, o que foi uma surpresa. Então Egwene lembrou a si mesma, inquieta, que ninguém adentrava a Torre a menos que tivesse negócios a tratar.
Hurin guiava o cavalo da liteira à frente, e o grupo adentrou a praça.
— Verin Sedai, preciso deixá-la agora.
Ele olhou a Torre uma vez e tentou não olhá-la de novo, embora fosse difícil olhar para qualquer outra coisa. Hurin vinha de uma terra onde Aes Sedai eram respeitadas, mas respeitá-las era bem diferente de querer estar cercado por elas.
— Você foi de grande ajuda na nossa jornada, Hurin — disse Verin —, e foi uma longa viagem. Poderá descansar na Torre antes de seguir viagem.
Hurin negou com a cabeça, enfático.
— Não posso perder nem um dia, Verin Sedai. Nem mais uma hora. Preciso voltar a Shienar, para contar ao Rei Easar e a Lorde Agelmar a verdade sobre o que ocorreu em Falme. Preciso contar a eles sobre… — Ele parou de repente e olhou em volta. Não havia ninguém por perto para escutar, mas mesmo assim baixou a voz e disse apenas: — Sobre Rand. Que o Dragão renasceu. Deve haver navios partindo rio acima, e pretendo embarcar no próximo.
— Sendo assim, vá pela Luz, Hurin de Shienar — disse Verin.
— Que a Luz ilumine todas vocês — respondeu ele, segurando as rédeas. Hesitou ainda um instante e acrescentou: — Se precisarem de mim… a qualquer hora… mandem uma mensagem a Fal Dara, e darei um jeito de vir. — Ele pigarreou, como se acanhado, virou o cavalo e foi embora, passando pela Torre. Em pouco tempo, havia desaparecido.
Nynaeve sacudiu a cabeça, exaltada.
— Homens! Sempre dizem para chamá-los se for preciso, mas, quando precisamos deles de verdade, precisamos na mesma hora.
— Homem nenhum pode ajudar onde estamos indo agora — retrucou Verin, seca. — Lembrem-se. Fiquem caladas.
Egwene teve uma sensação de perda com a partida de Hurin. Ele mal falava com elas, apenas com Mat, e Verin estava certa. Era só um homem, e impotente feito um bebê quando se tratava de encarar o que as aguardava na Torre. Ainda assim, sua partida reduziu o grupo em um, e ela não conseguia parar de pensar que era muito útil ter um homem com uma espada por perto. E ele fora um elo com Rand. E com Perrin. Tenho minhas próprias perturbações. Rand e Perrin teriam que se virar com Moiraine para cuidar deles. E é claro que Min vai cuidar de Rand, pensou, com um lampejo de ciúmes que tentou sufocar. Quase conseguiu.