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Ela suspirou e assumiu o comando do cavalo da liteira. Mat estava deitado, todo vestido, e sua respiração era um ronco seco. Falta pouco, pensou. Você será Curado daqui a pouco. E nós vamos descobrir o que nos aguarda. Ela desejou que Verin parasse de tentar assustá-las.

Verin fez o grupo contornar os muros da Torre até um pequeno portão lateral que se encontrava aberto, com dois guardas. A Aes Sedai puxou o capuz para trás, inclinou-se na sela e conversou em voz baixa com um dos homens. Ele levou um susto e lançou um olhar surpreso para Egwene e os outros. Com um rápido “Como a senhora ordenar, Aes Sedai”, o homem disparou para dentro dos muros. Enquanto ele falava, Verin avançava pelos portões. Cavalgava como se não tivesse pressa.

Egwene a seguiu com a liteira, trocando olhares com Nynaeve e Elayne e se perguntando o que Verin teria dito ao homem.

Havia um posto de guarda de pedras cinza do lado de dentro do portão, no formato de uma estrela de seis pontas caída de lado. Um pequeno grupo de guardas descansava na entrada. Os homens pararam de falar e fizeram uma reverência quando Verin passou.

Aquele poderia ter sido o jardim de algum senhor, com árvores e arbustos podados e amplos caminhos de pedras. Era possível avistar outras construções depois das árvores, e a Torre se assomava sobre todo o resto.

O caminho levava a um estábulo entre as árvores, e cavalariços em vestes de couro chegaram correndo para recolher os cavalos. Por instrução da Aes Sedai, desamarraram a liteira e a pousaram com todo o cuidado no chão. Enquanto os cavalos eram conduzidos para dentro do estábulo, Verin pegou o saco de couro dos pés de Mat e o enfiou debaixo do braço de forma descuidada.

Nynaeve parou de massagear as costas e franziu a testa para a Aes Sedai.

— Você disse que ele talvez tenha algumas horas. Você vai só…

Verin ergueu uma das mãos, mas se foi o gesto ou o som de passos esmigalhando o cascalho ao se aproximar que interrompeu Nynaeve, Egwene não soube dizer.

No mesmo instante Sheriam Sedai surgiu, seguida por três Aceitas de vestidos brancos com bainhas que exibiam as cores de todas as sete Ajahs, da Azul à Vermelha, e dois homens robustos em casacos grosseiros. A Mestra das Noviças era uma mulher levemente roliça e de maçãs do rosto altas, algo comum em Saldaea. Os cabelos vermelho-fogo e os olhos verdes, claros e oblíquos, tornavam o rosto liso de Aes Sedai mais impressionante. Ela olhou Egwene e os outros com calma, mas a boca estava contraída.

— Então você trouxe de volta nossas três fugitivas, Verin. Com tudo o que aconteceu, quase desejei que não tivesse conseguido.

— Nós não… — começou a dizer Egwene, mas Verin a cortou, severa:

— SILÊNCIO!

Verin encarou cada uma das três, como se a força de seu olhar pudesse calá-las.

Egwene estava certa de que podia, pelo menos ela. Nunca vira Verin irritada antes. Nynaeve cruzou os braços sob os seios e murmurou entre dentes, mas não disse nada. As três Aceitas atrás de Sheriam permaneciam em silêncio, naturalmente, mas Egwene pensou poder vê-las apurando os ouvidos para escutar.

Quando teve certeza de que Egwene e as outras continuariam quietas, Verin virou-se novamente para Sheriam.

— O garoto precisa ser levado para um local isolado. Está doente e representa perigo. Tanto aos outros quanto a si mesmo.

— Alguém me disse que havia uma liteira para carregar. — Sheriam fez um gesto para que os dois homens a erguessem, falou algo baixinho a um deles, e Mat foi levado embora em um piscar de olhos.

Egwene abriu a boca para dizer que ele precisava de ajuda imediatamente, mas o olhar de Verin, furioso e penetrante, a fez fechá-la. Nynaeve puxou a trança com tanta força que quase a arrancou da cabeça.

— Eu suponho — disse Verin — que a Torre inteira já saiba que retornamos.

— Os que não sabem — respondeu Sheriam — saberão em pouco tempo. Idas e vindas têm sido o principal tópico das conversas e fofocas. Mesmo antes de Falme, e muito antes da guerra em Cairhien. Você achou que manteria segredo?

Verin apanhou o saco de couro com as duas mãos.

— Preciso ver a Amyrlin. Imediatamente.

— E essas três?

Verin analisou Egwene e as amigas, a testa franzida.

— Precisam ser vigiadas de perto até que a Amyrlin deseje falar com elas. Se desejar. Vigiadas de perto, prestem atenção. Pode ser nos próprios quartos, suponho. Não há necessidade de celas. Nenhuma palavra a ninguém.

Verin falava com Sheriam, mas Egwene soube que a última frase fora dita como um lembrete a ela e às outras. Nynaeve tinha as sobrancelhas caídas e puxava a trança como se quisesse bater em algo. Os olhos azuis de Elayne estavam arregalados, e o rosto, ainda mais pálido que de costume. Egwene não sabia ao certo que sentimentos demonstrava, se raiva, medo ou preocupação. Um pouco dos três, pensou.

Com um último olhar penetrante às três companheiras de viagem, Verin saiu apressada, o saco agarrado ao peito, o manto drapejando atrás de si. Sheriam levou as mãos à cintura e examinou Egwene e as outras duas. Por um instante Egwene sentiu a tensão aliviar. A Mestra das Noviças sempre tinha um temperamento sereno e um senso de humor complacente, mesmo ao passar tarefas extras aos que quebravam as regras.

Sheriam, no entanto, falou com a voz severa:

— Nem uma palavra, foi o que disse Verin Sedai, e nem uma palavra será. Se alguma das três abrir a boca para dizer algo, a não ser, é claro, em resposta a uma Aes Sedai, farei vocês desejarem ter só uma surra e algumas horas limpando o chão para se preocupar. Estamos entendidas?

— Sim, Aes Sedai — respondeu Egwene, e escutou as outras dizerem o mesmo, embora Nynaeve tivesse pronunciado as palavras como um desafio.

Sheriam soltou um som gutural desgostoso, quase um rosnado.

— Menos moças vêm hoje em dia à Torre para ser treinadas do que antigamente, mas ainda vêm. A maioria vai embora sem jamais ter aprendido a sentir a Fonte Verdadeira, muito menos a tocá-la. Umas poucas aprendem, antes de ir embora, o suficiente para não se machucar. Pouquíssimas podem almejar se tornar Aceitas, e menos ainda usar o xale. É uma vida difícil, de difícil disciplina, e ainda assim todas as noviças lutam para aguentar, para obter o anel e o xale. Mesmo quando choram todas as noites antes de dormir de tanto medo, elas lutam para aguentar. E vocês três, que nasceram com uma habilidade maior do que eu jamais esperei ver na vida, deixaram a Torre sem permissão, fugiram feito crianças irresponsáveis, ainda quase sem treinamento, e passaram meses fora. E agora voltam como se nada tivesse acontecido, como se pudessem retomar o treinamento amanhã de manhã. — Ela respirou fundo, como se do contrário fosse explodir. — Faolain!

As três Aceitas se sobressaltaram como se tivessem acabado de ser pegas bisbilhotando, e uma delas, uma mulher escura de cabelos encaracolados, deu um passo à frente. Eram todas jovens, embora mais velhas que Nynaeve. A Aceitação rápida de Nynaeve fora extraordinária. Uma noviça costumava levar anos para receber os anéis da Grande Serpente usados pelas Aceitas, e mais alguns anos até poder ter a esperança de ser elevada a Aes Sedai completa.

— Levem as moças para os quartos — ordenou Sheriam. — Elas podem receber pão, caldo frio e água até que o Trono de Amyrlin diga o contrário. E, se alguma pronunciar uma palavra sequer, podem levá-la para as cozinhas e colocá-las para esfregar panelas. — Ela se virou e saiu a passos largos. Até suas costas expressavam raiva.