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A antessala do gabinete do Trono de Amyrlin era suntuosa o bastante para pertencer a um palácio, embora as cadeiras espalhadas para os que precisassem esperar fossem simples. No entanto, Egwene só tinha olhos para Leane Sedai. A Curadora usava a pequena estola que revelava seu ofício, feita de pano azul, para mostrar sua Ajah de origem. Seu rosto poderia ter sido esculpido em pedra marrom lisa. Não havia mais ninguém ali.

— Elas causaram algum problema? — O jeito áspero de falar da Curadora não indicava raiva nem simpatia.

— Não, Aes Sedai — disseram Theodrin e a Aceita com as maçãs do rosto salientes.

— Essa aqui teve que ser puxada pelos cabelos, Aes Sedai — disse Faolain, apontando para Egwene. A Aceita soava indignada. — Empacou como se tivesse esquecido da disciplina da Torre Branca.

— Liderar — respondeu Leane — não é empurrar e nem puxar. Vá até Marris Sedai, Faolain, e peça permissão para meditar a respeito disso enquanto varre os corredores do Jardim da Primavera. — Ela dispensou Faolain e as outras duas Aceitas, que se curvaram em mesuras profundas. Antes mesmo de se levantar, Faolain lançou a Egwene um olhar furioso.

A Curadora não deu atenção à saída das Aceitas. Em vez disso, examinou as outras mulheres, batendo o indicador nos lábios, até que Egwene teve a sensação de que todas haviam sido avaliadas do dedão do pé até o último fio de cabelo. Nynaeve agarrava a trança com firmeza e tinha um brilho perigoso nos olhos.

Enfim, Leane ergueu uma das mãos em direção à porta do gabinete da Amyrlin. Um passo adiante, a Grande Serpente mordia o próprio rabo, gravada na madeira escura de cada uma das portas.

— Entrem — disse.

Nynaeve prontamente deu um passo à frente e abriu uma das portas. Foi o bastante para fazer Egwene se mexer. Elayne segurou sua mão com força, e a jovem retribuiu o aperto com a mesma intensidade. Leane seguiu as três e se posicionou de um dos lados, entre as moças e a mesa no centro da sala.

A Amyrlin estava sentada atrás da mesa, examinando alguns papéis. Não ergueu os olhos. Nynaeve chegou a abrir a boca, mas fechou-a outra vez, sob o olhar de advertência da Curadora. As três formaram uma fila diante da mesa da Amyrlin e aguardaram. Egwene tentou não se inquietar. Longos minutos se passaram, pareceram horas, até que a Amyrlin levantou a cabeça. Mas, quando aqueles olhos azuis encararam uma de cada vez, Egwene decidiu que não teria sido ruim esperar mais um pouco. O olhar da Amyrlin era como duas lanças de gelo enterrando-se em seu coração. A sala estava fria, mas um fio de suor começou a descer pelas costas de Egwene.

— Então! — começou a Amyrlin, enfim. — Nossas fugitivas estão de volta.

— Nós não fugimos, Mãe. — Era óbvio que Nynaeve se esforçava para manter a calma, mas sua voz tremia. De raiva, Egwene sabia. Aquela obstinação de Nynaeve costumava vir acompanhada de raiva. — Liandrin nos mandou seguir com ela, e… — O ruído forte da mão da Amyrlin batendo na mesa a interrompeu.

— Não fale o nome de Liandrin aqui, criança! — cortou a mulher, ríspida. Leane assistia a tudo com uma calma impassível.

— Mãe, Liandrin é da Ajah Negra — soltou Elayne.

— Já sabemos disso, criança. Suspeitamos, pelo menos, e já é o suficiente. Liandrin deixou a Torre alguns meses atrás, e doze outras… mulheres foram atrás dela. Nenhuma foi vista desde então. Antes de partirem, elas tentaram invadir o depósito onde guardamos angreal e sa’angreal. Conseguiram até entrar no depósito onde ficam os ter’angreal menores. Roubaram vários, muitos dos quais não temos certeza da serventia.

Nynaeve encarava a Amyrlin, horrorizada, e de súbito Elayne esfregou os braços como se sentisse frio. Ela sabia que também estava tremendo. Imaginara tantas vezes retornar para confrontar e acusar Liandrin, para vê-la sofrer alguma punição… mas jamais conseguira pensar em um castigo com a severidade adequada para os crimes daquela Aes Sedai com cara de boneca. Até concebera voltar e descobrir que Liandrin havia fugido — o que costumava ser acompanhado pelo temor de que ela voltasse. Mas jamais cogitara algo desse tipo. Se Liandrin e as outras — não quisera de fato crer que havia outras — tinham roubado aqueles fragmentos da Era das Lendas, era impossível prever o que poderiam fazer com eles. Graças à Luz elas não pegaram nenhum sa’angreal, pensou. Terem levado os ter’angreal já era ruim o bastante.

Sa’angreal eram como angreal: permitiam que uma Aes Sedai canalizasse com segurança muito mais do Poder do que sua capacidade em geral permitia, mas eram muitíssimo mais poderosos e raros. Os ter’angreal eram um pouco diferentes. Existiam em maior número que os angreal e sa’angreal, embora não fossem muito comuns. Eles utilizavam o Poder Único, em vez de ajudar a canalizá-lo, e ninguém os compreendia direito. Muitos funcionavam apenas para aqueles capazes de canalizar e requeriam que isso acontecesse, enquanto outros funcionavam com qualquer um. Todos os angreal e sa’angreal de que Egwene já ouvira falar eram pequenos, mas os ter’angreal podiam, ao que parecia, assumir qualquer tamanho. Pelo que sabia, cada um fora fabricado com um propósito específico, por Aes Sedai de três mil anos atrás. E, desde então, Aes Sedai morreram tentando descobrir quais eram esses propósitos. Morreram ou tiveram a capacidade de canalizar destruída. Algumas irmãs da Ajah Marrom tinham os ter’angreal como objeto de estudo.

Alguns estavam em uso, mesmo que talvez não para os propósitos para os quais haviam sido fabricados. A pesada barra branca que as Aceitas seguravam ao fazer os Três Juramentos quando se tornavam Aes Sedai completas era um ter’angreal, e gravava os juramentos nas mulheres de maneira tão profunda que era como se fossem incrustados em seus cernes. Outro ter’angreal era o local do teste final para uma noviça ser elevada a Aceita. Havia ainda outros, incluindo muitos que ninguém era capaz de ativar, e muitos que pareciam não ter propósito.

Por que elas levaram coisas que ninguém sabe usar? Egwene se perguntou. Ou talvez a Ajah Negra saiba usar. Essa possibilidade fez seu estômago se embrulhar. Talvez aquilo fosse tão ruim quanto um sa’angreal nas mãos de Amigos das Trevas.

— O roubo — prosseguiu a Amyrlin, em um tom tão frio quanto seus olhos — não foi o que fizeram de pior. Três irmãs morreram naquela noite, assim como dois Guardiões, sete guardas e nove serviçais. Cometeram assassinatos para encobrir o roubo e a fuga. Talvez isso não prove que elas são da… Ajah Negra — as palavras deixaram sua boca como um chiado —, mas não posso acreditar em outra coisa. Se há cabeças de peixe e sangue na água, não é preciso ver os lúcios para ter certeza da sua presença.

— Então por que estamos sendo tratadas feito criminosas? — inquiriu Nynaeve. — Fomos enganadas por uma mulher da… Ajah Negra. Isso já deveria ser o suficiente para nos absolver de qualquer transgressão.

A Amyrlin soltou uma gargalhada desconsolada.

— Você acredita mesmo nisso, criança? Talvez sua salvação seja que ninguém na Torre além de Verin, Leane e eu sequer suspeite que vocês têm algo a ver com Liandrin. Se isso se espalhasse, ou mesmo a pequena demonstração que fizeram para os Mantos-brancos… não precisam se espantar, Verin me contou tudo. Se ficarem sabendo que vocês partiram com Liandrin, o Salão sem dúvida votará pelo estancamento das três antes que consigam piscar os olhos.