Egwene a encarou.
— O quê? O que você fez, Nynaeve?
— “Dos Cinco Poderes” — disse Nynaeve em um tom professoral, levemente debochado —, “o Ar, às vezes chamado de Vento, é considerado por muitos o elemento de menor utilidade. Essa é uma grande inverdade.” — Ela finalizou com uma risadinha contida. — Eu disse que havia outras formas de nos defender. Usei o Ar, para prendê-lo com o ar. Se é que é um homem, não consegui enxergar muito bem. Um truque que a Amyrlin me mostrou uma vez, embora eu duvide que ela tenha imaginado que eu estava prestando atenção. Então, vai ficar aí deitada o dia inteiro?
Egwene se levantou e saiu correndo atrás dela pelos corredores. Em pouco tempo, ao virar uma curva, as duas avistaram um homem vestindo calças e casaco marrons. Ele olhava para o lado oposto, equilibrado na ponta de um dos pés e com o outro suspenso no ar, como se tivesse parado bem no meio de uma corrida. O homem decerto se sentia afundado em uma espessa geleia, mas havia somente ar endurecido ao redor dele. Egwene também se lembrava do truque da Amyrlin, mas achava que não conseguiria reproduzi-lo. Para Nynaeve, bastava assistir a algo uma vez para aprender a fazer sozinha. Quando conseguia canalizar, é claro.
Elas se aproximaram, e a conexão de Egwene com o Poder desapareceu em meio ao choque. Havia uma adaga cravada no peito do homem. Seu rosto estava inexpressivo, a morte já estampada nos olhos semicerrados. Desabou no chão quando Nynaeve desfez a armadilha que o havia aprisionado.
Era um homem de aparência comum, peso e altura medianos, com feições tão normais que Egwene não seria capaz de distingui-lo entre dois outros. No entanto, ela o observou apenas por um instante antes de perceber que faltava algo. A besta.
Ela se assustou e começou a procurar em volta, desesperada.
— Devia haver outro, Nynaeve. Alguém pegou a besta. E o apunhalou. Esse outro pode estar por aí, pronto para atirar de novo.
— Fique calma — retrucou Nynaeve, mas olhou para os dois lados do corredor, puxando a trança. — Fique calma, e nós vamos descobrir o que… — Suas palavras foram interrompidas pelo barulho de passos na rampa que levava ao andar onde estavam.
O coração de Egwene quase saiu pela boca. Com os olhos fixos no topo da rampa, ela tentava desesperadamente tocar saidar mais uma vez, mas para isso era preciso ter calma, e as batidas do seu coração destruíam qualquer calma.
Sheriam Sedai parou no topo da rampa, franzindo a testa para o que acabava de ver.
— O quê, em nome da Luz, aconteceu aqui? — Ela correu em direção às duas, sem sua calma característica.
— Nós o encontramos — anunciou Nynaeve, enquanto a Mestra das Noviças se ajoelhava ao lado do corpo.
Sheriam pousou a mão no peito do homem e afastou-a depressa, com um sibilo. Tentando visivelmente reunir forças, tocou o homem outra vez.
— Está morto — murmurou. — O mais morto que se pode estar, talvez até mais. — Ela se endireitou, puxou um lenço da manga e limpou os dedos. — Vocês o encontraram? Aqui? Desse jeito?
Egwene assentiu com a cabeça, certa de que, se falasse, Sheriam saberia que estava mentindo.
— Encontramos — respondeu Nynaeve, com firmeza.
Sheriam balançou a cabeça.
— Um homem… um homem morto… no alojamento das noviças já seria um escândalo e tanto, mas isso…!
— O que ele tem de diferente? — perguntou Nynaeve. — E como é que pode estar mais que morto?
Sheriam respirou fundo e lançou a cada uma um olhar perscrutador.
— Este homem é um Sem-alma. Um Homem Cinza. — Absorta, limpou os dedos de novo, os olhos encarando outra vez o corpo. Olhos preocupados.
— Sem-alma? — perguntou Egwene, com a voz trêmula.
Nynaeve soltou ao mesmo tempo:
— Um Homem Cinza?
Sheriam encarou as duas com um olhar rápido e penetrante.
— Isso ainda não faz parte do aprendizado, mas vocês duas já transpuseram as regras de muitas formas. Ainda mais levando em conta que encontraram… isso. — Ela apontou para o corpo. — Os Sem-alma, os Homens Cinza, abrem mão da alma para servir como assassinos do Tenebroso. A partir desse momento, não estão mais vivos de verdade. Não estão exatamente mortos nem totalmente vivos. Apesar do nome, alguns Homens Cinza são mulheres. Bem poucos. Mesmo entre os Amigos das Trevas, apenas algumas mulheres são burras o bastante para fazer esse sacrifício. Podemos olhar um desses e mal notá-lo até que seja tarde demais. Ele já estava morto enquanto ainda podia andar. Agora, só os meus olhos podem dizer que o que jaz ali nem chegou a viver. — Ela lançou ao homem outro longo olhar. — Nenhum Homem Cinza se atrevia a entrar em Tar Valon desde as Guerras dos Trollocs.
— O que a senhora vai fazer? — perguntou Egwene. Sheriam ergueu as sobrancelhas, e ela de pronto acrescentou: — Se me permite perguntar, Sheriam Sedai.
A Aes Sedai hesitou.
— Creio que permito, já que você teve o azar de encontrá-lo. Isso vai depender do Trono de Amyrlin, mas, com tudo o que anda acontecendo, acredito que ela vá querer resolver isso da forma mais discreta possível. Não precisamos de mais rumores. Vocês não comentarão sobre isso com ninguém além de mim. Ou a Amyrlin, caso ela mencione o assunto.
— Sim, Aes Sedai — disse Egwene, com fervor. A voz de Nynaeve foi um pouco mais fria.
Sheriam pareceu certa de que a obedeceriam. Não deu sinal de tê-las escutado. Sua atenção estava toda no homem. O Homem Cinza. O Sem-alma.
— Não teremos como esconder o fato de que um homem foi morto aqui. — O brilho tênue do Poder Único de súbito a circundou, e, da mesma forma abrupta, um domo baixo e comprido envolveu o corpo no chão, tão cinzento e opaco que era difícil ver que havia um corpo debaixo dele. — Mas isso impedirá que alguém o toque e descubra sua natureza. Preciso tirá-lo daqui antes que as noviças voltem.
Os olhos verdes e oblíquos fitaram as duas como se ela tivesse acabado de se dar conta de sua presença.
— Vocês podem ir agora. Para o seu quarto, Nynaeve, eu acho. Levando em conta o que já estão enfrentando, se alguém souber que se envolveram em mais essa, mesmo como espectadoras… podem ir.
Egwene fez uma mesura e puxou Nynaeve pela manga, mas esta disse:
— Por que a senhora veio até aqui, Sheriam Sedai?
Por um instante, Sheriam pareceu surpresa, mas logo em seguida franziu a testa. Com as mãos na cintura, olhou para Nynaeve com toda a firmeza de sua posição.
— Então agora a Mestra das Noviças precisa de motivos para vir até o alojamento das noviças, Aceita? — perguntou, em um tom delicado. — Aceitas agora questionam Aes Sedai? A Amyrlin pretende dar uma oportunidade a vocês, mas, independentemente disso, vou lhes ensinar boas maneiras, pelo menos. Agora saiam daqui antes que eu arraste as duas para o meu gabinete e as faça perder o compromisso que o Trono de Amyrlin já determinou para vocês.
De súbito, um pensamento ocorreu a Egwene.
— Peço perdão, Sheriam Sedai — disse, bem depressa —, mas preciso buscar meu manto. Estou com frio. — Antes que a Aes Sedai pudesse responder, ela disparou pelo corredor.
Se Sheriam encontrasse aquela flecha de besta diante da porta dela, faria um monte de perguntas. E aí, nada de fingir que elas somente haviam encontrado o homem, que não tinham qualquer ligação com ele. Porém, quando ela alcançou a porta do quarto, a pesada flecha havia desaparecido. A lasca pontuda na pedra, junto à porta, era o único indício de que estivera ali.
A pele de Egwene se arrepiou toda. Como é que alguém poderia ter levado sem que víssemos? … Outro Homem Cinza! Antes que percebesse, ela já abraçara saidar, e apenas o fluxo suave do Poder dentro dela informava o que acabara de fazer. Ainda assim, abrir aquela porta e entrar no quarto foi uma das coisas mais difíceis que já fizera. Não havia ninguém lá dentro. Ela puxou o manto de cima do pino, saiu correndo, descuidada, e não liberou saidar antes de chegar à metade do caminho de volta.