Algo mais ocorrera entre as duas mulheres enquanto ela não estava ali. Nynaeve tentava demonstrar humildade, mas só conseguia parecer que estava com dor de estômago. Sheriam tinha as mãos na cintura e batia o pé, irritada. O olhar dela para Nynaeve, como uma pedra de moinho prestes a triturar farinha de cevada, também foi dirigido a Egwene.
— Peço perdão, Sheriam Sedai — disse, apressada, curvando-se em uma mesura e ajeitando o manto nos ombros ao mesmo tempo. — Isso… encontrar um homem morto… um Homem Cinza… me deu frio. Podemos ir agora?
Ao sinal contido de dispensa de Sheriam, Nynaeve fez uma mesura simples. Egwene puxou-a pelo braço e a levou embora, apressada.
— Está tentando criar mais problemas para nós? — perguntou, quando já estavam dois andares abaixo. E bem longe dos ouvidos de Sheriam, esperava. — O que mais disse a ela para fazê-la cravar os olhos em você daquele jeito? Mais perguntas, suponho? Espero que você tenha descoberto algo pelo qual tenha valido a pena irritá-la.
— Ela não disse nada — murmurou Nynaeve. — Precisamos fazer perguntas se quisermos fazer algo de bom, Egwene. Vamos ter que nos arriscar um pouco, senão nunca descobriremos nada.
Egwene deu um suspiro.
— Bem, seja um pouco mais cautelosa. — Pela rigidez no rosto de Nynaeve, ela não tinha intenção de pegar mais leve ou evitar riscos. Egwene soltou outro suspiro. — A flecha sumiu, Nynaeve. Algum outro Homem Cinza deve ter levado.
— Então foi isso que você… Luz! — Nynaeve fechou a cara e deu um puxão forte na trança.
Depois de um tempo, Egwene disse:
— O que ela fez para cobrir o… corpo? — Não queria pensar nele como um Homem Cinza, o que a fazia lembrar que havia outro à solta. Não queria pensar em nada na verdade.
— Ar — respondeu Nynaeve. — Ela usou ar. Um ótimo truque, e acho que sei como fazer algo útil com ele.
O uso do Poder Único era dividido entre os Cinco Poderes: Terra, Ar, Fogo, Água e Espírito. Talentos diferentes requeriam combinações diferente dos Cinco Poderes.
— Não consigo entender algumas combinações dos Cinco Poderes. A Cura, por exemplo. Entendo por que requer Espírito e talvez Ar, mas por que Água?
Nynaeve virou-se para ela.
— Que baboseira é essa? Esqueceu o que estamos fazendo? — Ela olhou em volta. Haviam chegado ao alojamento das Aceitas, um amontoado de corredores abaixo do alojamento das noviças, que rodeava um jardim em vez de um pátio. Não havia ninguém à vista além de uma Aceita que passava correndo por outro andar, mas ela baixou a voz. — Você se esqueceu da Ajah Negra?
— Estou tentando esquecer — retrucou Egwene, feroz. — Pelo menos por um tempo. Estou tentando esquecer que acabamos de ver um homem morto. Estou tentando esquecer que ele quase me matou e que tem um comparsa que provavelmente vai tentar de novo. — Ela tocou a orelha. O sangue havia secado, mas o corte ainda doía. — Nós duas temos sorte em não estarmos mortas.
A expressão de Nynaeve se abrandou, mas, ao falar, sua voz tinha algo do tempo em que fora a Sabedoria de Campo de Emond, quando dizia o que precisava ser dito pelo bem de alguém.
— Lembre-se daquele corpo, Egwene. Lembre-se de que ele tentou matar você. Matar nós duas. Lembre-se da Ajah Negra. Lembre-se de tudo o tempo inteiro. Porque, se você se esquecer, nem que seja por um instante, da próxima vez será seu o corpo estirado no chão.
— Eu sei. — Egwene suspirou. — Mas não preciso gostar de tudo isso.
— Você percebeu uma coisa que Sheriam não mencionou?
— Não. O quê?
— Ela nem questionou quem o teria esfaqueado. Agora, vamos. Meu quarto está logo aqui embaixo, e você pode descansar os pés enquanto conversamos.
16
Três Caçadoras
O quarto de Nynaeve era consideravelmente maior que os das noviças. Tinha uma cama de verdade, não uma embutida na parede, duas cadeiras de madeira com braço, em vez de um banquinho, e um guarda-roupas. A mobília era simples, apropriada para a casa de um fazendeiro mediano, mas, comparada às noviças, as Aceitas viviam no luxo. Havia até um pequeno tapete de tramas amarelas, vermelhas e azuis. Quando Egwene e Nynaeve entraram, o quarto não estava vazio.
Elayne estava parada diante da lareira, de braços cruzados e olhos vermelhos, pelo menos em parte por conta da raiva. Dois jovens estavam largados nas cadeiras, altos, pernas e braços compridos. Um deles usava o casaco verde-escuro desabotoado, revelando uma camisa branca como neve, tinha os mesmos olhos verdes e cabelos louros acobreados de Elayne, e o sorriso em seu rosto o denunciava como irmão da moça. O outro, da idade de Nynaeve, estava vestido com um casaco cinza muito bem abotoado, era esbelto, de cabelos e olhos escuros. Ele se levantou, seguro e elegante, quando Elayne e Nynaeve entraram. Era, pensou Egwene não pela primeira vez, o homem mais bonito que já vira. Seu nome era Galad.
— É bom ver você de novo — disse ele, tomando a mão dela. — Fiquei muito preocupado com você. Nós ficamos muito preocupados.
Seu pulso acelerou, e ela puxou de volta a mão antes que ele percebesse.
— Obrigada, Galad — murmurou. Luz, como ele é bonito. Ordenou a si mesma que parasse de pensar. Não era fácil. Percebeu que alisava o vestido, desejando que ele estivesse vendo-a vestida em seda, não naquela simples lã branca. Quem sabe até em um daqueles vestidos domaneses de que Min havia falado, aqueles justos e que até pareciam transparentes de tão finos, embora não fossem. Ela enrubesceu, furiosa, e afastou a imagem da cabeça, querendo que ele parasse de encará-la. Não ajudava que metade das mulheres da Torre, das empregadas às próprias Aes Sedai, olhassem para o rapaz como se pensassem as mesmas coisas. Não ajudava que ele parecesse sorrir só para ela. Na verdade, aquele sorriso piorava tudo. Luz, se ele sequer suspeitasse dos meus pensamentos, eu morreria!
O jovem de cabelos dourados se inclinou para a frente na cadeira.
— A questão é: onde é que vocês estavam? Elayne evita minhas perguntas como se tivesse a bolsa cheia de figos e não quisesse me dar nenhum.
— Eu já disse, Gawyn — retrucou Elayne, em um tom ríspido —, não é da conta de vocês. Eu vim para cá — acrescentou a Nynaeve — porque não queria ficar sozinha. Eles me viram e me seguiram. Não aceitaram “não” como resposta.
— Pois é — respondeu Nynaeve, impassível.
— Mas isso é da nossa conta, irmã — disse Galad. — A sua segurança é muito da nossa conta. — Ele olhou para Egwene, e ela sentiu o coração saltar. — A segurança de todas vocês é muito importante para mim. Para nós.
— Eu não sou sua irmã — rebateu Elayne, irritada.
— Se não queria ficar sozinha — disse Gawyn a Elayne, com um sorriso —, somos tão boa companhia quanto qualquer outra. Além do mais, depois do que passamos só para entrar aqui, merecemos uma explicação sobre onde vocês estavam. Prefiro apanhar de Galad o dia inteiro no pátio de treinamento do que encarar nossa mãe por mais um minuto. Prefiro ver Coulin furioso comigo.
Coulin era Mestre de Armas, e levava os rapazes que chegavam para treinar na Torre Branca na rédea curta, não importava se aspirassem a se tornar Guardiões ou apenas a aprender com eles.
— Negue a ligação, se quiser — disse Galad em um tom grave, para Elayne —, mas ela não vai deixar de existir. E nossa mãe colocou a sua segurança em nossas mãos.
Gawyn fez uma careta.
— Elayne, se alguma coisa acontecer com você, nossas cabeças vão rolar. Tivemos que ser rápidos, ou ela teria nos arrastado de volta para casa. Nunca ouvi falar em uma rainha que mandasse os próprios filhos para o carrasco, mas nossa mãe parecia pronta a abrir uma exceção se não levássemos você de volta para casa sã e salva.