Elayne fungou, descrente.
— A maioria das pessoas pensa que as minhas punições são mais leves porque sou a Filha-herdeira de Andor. A verdade é que elas acabam sendo ainda piores por isso. Nenhuma de vocês duas fez nada que eu não tenha feito, e se as palavras da Amyrlin foram severas para vocês, teriam sido ainda piores para mim. Então, o que foi que ela disse?
— Isso tem que ficar entre nós três — disse Nynaeve. — A Ajah Negra…
— Nynaeve! — exclamou Egwene. — A Amyrlin disse para mantermos Elayne fora disso!
— A Ajah Negra! — Elayne quase gritou, pondo-se apressadamente de joelhos no meio da cama. — Vocês não podem me deixar de fora depois de falar uma coisa dessas. Eu não vou ficar de fora.
— Nunca tive a intenção de deixá-la de fora — assegurou Nynaeve. Egwene só conseguia olhar para ela, estupefata. — Egwene, fomos eu e você que Liandrin considerou uma ameaça. Fomos eu e você a quase morrer…
— Quase morrer? — sussurrou Elayne.
— …talvez porque ainda sejamos uma ameaça ou talvez porque elas já saibam que tivemos uma conversa a portas fechadas com a Amyrlin. Talvez saibam até o que ela disse. Precisamos nos unir a alguém de quem elas não tenham conhecimento, e, se a Amyrlin também não tomar conhecimento, melhor ainda. Não sei muito bem se podemos confiar muito mais na Amyrlin do que na Ajah Negra. Ela quer nos usar para os próprios objetivos. Eu quero que ela não nos use até nos matar. Você está entendendo?
Egwene assentiu com relutância. Ainda assim, disse:
— Vai ser perigoso, Elayne, tão perigoso quanto o que enfrentamos em Falme. Talvez até mais. Dessa vez, você não precisa fazer parte disso.
— Eu sei — respondeu Elayne, com calma. Fez uma pausa, depois prosseguiu: — Quando Andor entra em guerra, o Primeiro Príncipe da Espada comanda o exército, mas a Rainha também cavalga com eles. Há setecentos anos, na Batalha de Cuallin Dhen, os andorianos estavam sendo aniquilados quando a Rainha Modrellein saiu cavalgando, sozinha e desarmada, com o estandarte do Leão no braços, bem no meio do exército taireno. Os andorianos se mobilizaram, atacaram mais uma vez para salvá-la e venceram a batalha. Esse é o tipo de coragem que se espera da Rainha de Andor. Se ainda não aprendi a controlar meu medo, preciso fazer isso antes de ocupar o lugar de minha mãe no Trono do Leão. — De súbito, o tom sombrio deu lugar a uma risadinha. — Além disso, vocês acham mesmo que eu ia desistir de uma aventura para ficar esfregando panelas?
— Você vai esfregá-las mesmo assim — disse Nynaeve —, e vai torcer para todo mundo pensar que é a única coisa que está fazendo. Agora escute com atenção.
Elayne escutou, e foi ficando boquiaberta enquanto ouvia Nynaeve contar tudo o que o Trono de Amyrlin dissera a elas, a tarefa que receberam e o atentado contra as duas. Ela teve calafrios ao saber do Homem Cinza, leu, fascinada, o documento que a Amyrlin entregara a Nynaeve e o devolveu, murmurando:
— Queria poder ter esse papel na próxima vez que encarar mamãe. — Quando Nynaeve terminou o relato, no entanto, o rosto de Elayne era o retrato da indignação. — Ora, é como mandarem você subir a colina e encontrar leões, só que você não sabe se há leões. Mas, se houver, eles podem estar caçando você, e talvez estejam disfarçados de arbustos. Ah, e, se encontrar algum leão, tente não deixar que ele devore você antes de dizer onde ele está.
— Se estiver com medo — disse Nynaeve —, ainda há tempo de desistir. Depois de começarmos, vai ser tarde demais.
Elayne ergueu bem o queixo.
— É claro que estou com medo. Não sou boba. Mas não com tanto medo que me faça desistir antes mesmo de começar.
— Tem mais uma coisa — completou Nynaeve. — Estou achando que a Amyrlin pretende deixar Mat morrer.
— Mas uma Aes Sedai deve Curar qualquer um que peça. — A Filha-herdeira parecia dividida entre descrença e indignação. — Por que ela deixaria Mat morrer? Não posso acreditar nisso! Não vou acreditar!
— Nem eu! — exclamou Egwene. Ela não pode ter dito isso! A Amyrlin não pode deixar Mat morrer! — Durante todo o trajeto até aqui, Verin disse que a Amyrlin cuidaria para que ele fosse Curado.
Nynaeve balançou a cabeça.
— Verin disse que a Amyrlin iria “cuidar dele”. É diferente. E a Amyrlin evitou dizer que sim ou não quando perguntei a ela. Talvez ainda não tenha se decidido.
— Mas por quê? — perguntou Elayne.
— Porque a Torre Branca faz o que faz por suas próprias razões. — A voz de Nynaeve fez Egwene estremecer. — Não sei por quê. Ajudar Mat a viver ou deixá-lo morrer vai depender do que servir aos objetivos da Torre. Nenhum dos Três Juramentos diz que elas são obrigadas a Curá-lo. Mat é só um instrumento ao olhos da Amyrlin. E nós também. Ela vai nos usar para caçar a Ajah Negra, mas, quando alguém quebra uma ferramenta de forma irreparável, não fica lamentando a perda. Apenas arruma outra. É melhor que vocês duas se lembrem disso.
— O que faremos em relação a ele? — perguntou Egwene. — O que podemos fazer?
Nynaeve foi até o guarda-roupa e vasculhou o fundo. Quando voltou, segurava um saco de ervas de tecido listrado.
— Com os meus remédios e um pouco de sorte, talvez eu consiga Curá-lo sozinha.
— Verin não conseguiu — rebateu Elayne. — Moiraine e Verin juntas não conseguiram, e Moiraine tinha um angreal. Nynaeve, se você usar muito do Poder Único, pode acabar virando cinzas. Ou, só estancando a si mesma, se tiver sorte. Se é que podemos chamar isso de sorte.
Nynaeve deu de ombros.
— Vivem me dizendo que eu tenho potencial para ser a Aes Sedai mais poderosa dos últimos mil anos. Quem sabe não está na hora de descobrir se estão certas. — Ela deu um puxão na trança.
Por mais corajosas que fossem as palavras de Nynaeve, estava claro que ela sentia medo. Mas ela não vai deixar Mat morrer, mesmo que para isso precise arriscar a própria vida.
— Vivem dizendo que nós três somos tão poderosas, ou seremos. Talvez, se tentarmos todas juntas, possamos conseguir dividir o fluxo entre as três.
— Nunca tentamos trabalhar juntas — comentou Nynaeve, devagar. — Não sei ao certo como combinar nossas habilidades. Tentar isso pode acabar sendo tão perigoso quanto usar muito do Poder.
— Ah, se vamos fazer isso — resmungou Elayne, descendo da cama —, que seja de uma vez. Quanto mais conversarmos, mais assustada eu vou ficar. Mat está em um dos quartos de hóspedes. Não sei em qual deles, mas Sheriam disse que ele estava por lá.
Como se colocasse um ponto final naquela frase, a porta se abriu com um tranco, e uma Aes Sedai entrou como se aquele fosse seu próprio quarto, e elas, as intrusas.
Egwene se curvou em uma mesura profunda, tentando esconder o desânimo em seu rosto.
17
A Irmã Vermelha
Elaida era de uma beleza quase masculina, e a severidade de seu rosto acrescentava maturidade às feições de idade indefinida das Aes Sedai. Não parecia velha, mas Egwene não conseguia imaginar que ela algum dia fora jovem. Exceto em ocasiões mais formais, poucas Aes Sedai usavam o xale bordado de vinhas com a lágrima branca da Chama de Tar Valon nas costas, mas Elaida estava com o seu, a franja vermelha comprida anunciando sua Ajah. O vermelho também entrecortava o vestido de seda creme, e os calçados vermelhos despontaram sob a bainha da saia quando ela entrou no quarto. Os olhos negros fitaram as moças com a mesma expressão de um pássaro encarando uma lesma.
— Então estão todas juntas. De certa forma, não me surpreende. — A voz não ostentava mais que a postura: era uma mulher de autoridade, pronta para exercê-la se julgasse necessário, uma mulher que sabia mais do que aqueles com quem falava, quer fosse uma rainha ou uma noviça.