— É bom que não falem — confirmou Sheriam. — Elas serão punidas, e fim da história. Sempre achei que, depois da aplicação de uma punição, a falta que a originou devesse ser apagada.
Por um longo instante, as duas Aes Sedai ficaram olhando uma para a outra, sem expressão nos rostos plácidos. Então, Elaida disse:
— Naturalmente. Quem sabe eu converse com elas outra hora. Sobre outros assuntos. — Ela lançou às três mulheres de branco um olhar que pareceu a Egwene conter um aviso, depois passou depressa por Sheriam.
Segurando a porta aberta, a Mestra das Noviças observou a outra Aes Sedai descer o corredor. Seu rosto ainda era indecifrável.
Egwene soltou uma respiração aliviada, que ecoou em Nynaeve e Elayne.
— Ela me ameaçou — disse Elayne, incrédula, meio para si mesma. — Ela ameaçou me estancar se eu não deixar de ser… teimosa!
— Foi um mal-entendido — disse Sheriam. — Se ser teimosa fosse uma ofensa que requeresse estancamento, a lista de estancadas seria maior do que você imagina. Poucas mulheres submissas conseguem obter anel e xale. Isso não significa, naturalmente, que você não deva aprender a agir de forma submissa quando for preciso.
— Sim, Sheriam Sedai — disseram as três em uma só voz, e Sheriam sorriu.
— Estão vendo? Vocês são capazes de aparentar submissão, pelo menos. E terão muitas oportunidades de praticar antes de conquistarem o direito de cair de volta nas graças da Amyrlin. E nas minhas. Da minha parte, será mais difícil.
— Sim, Sheriam Sedai — disse Egwene, mas dessa vez apenas Elayne a acompanhou.
— E o… corpo, Sheriam Sedai? — perguntou Nynaeve. O… Sem-alma? A senhora descobriu quem o matou? Ou por que ele entrou na Torre?
Sheriam contraiu os lábios.
— Você avança um passo, Nynaeve, e em seguida retrocede. Dada a falta de espanto de Elayne, presumo que tenha contado a ela, mesmo eu tendo mandado que não falasse sobre o assunto! Sendo assim, há exatamente sete pessoas na Torre que estão cientes de que um homem foi morto hoje no alojamento das noviças, e duas delas são rapazes que não sabem nada mais. Exceto que precisam manter as bocas caladas. Se uma ordem da Mestra das Noviças não tem peso algum para você, e se esse for o caso, eu corrigirei isso. E talvez você obedeça a uma do Trono de Amyrlin. Não deve falar sobre isso com ninguém exceto comigo ou a Mãe. A Amyrlin não aceitará mais rumores somados àqueles contra os quais já temos que lutar. Fui clara?
A firmeza da voz da mulher produziu um coro de “Sim, Sheriam Sedai”, mas Nynaeve recusou-se a parar por ali.
— A senhora disse sete, Sheriam Sedai. Mais a pessoa que o matou. E talvez o assassino tivera ajuda para entrar na Torre.
— Isso não é da sua conta. — O olhar firme de Sheriam incluía todas as três. — Eu farei todas as perguntas necessárias a respeito deste homem. Vocês devem esquecer que sabem qualquer coisa sobre o assunto. Se eu descobrir que estão fazendo algo diferente disso… bem, há afazeres piores que esfregar panelas para ocupar a cabeça de vocês. Não aceitarei nenhuma desculpa. Por acaso têm mais alguma pergunta?
— Não, Sheriam Sedai.
Dessa vez, para alívio de Egwene, Nynaeve juntou-se ao coro. Não que o alívio fosse grande. A vigilância de Sheriam tornaria ainda mais difícil a caça à Ajah Negra. Por um instante, Egwene sentiu vontade de rir de forma histérica. Se a Ajah Negra não nos pegar, Sheriam vai fazer isso. A ânsia de rir desapareceu. Isso se a própria Sheriam não for da Ajah Negra. Ela desejou afastar o pensamento.
Sheriam assentiu.
— Muito bem, então. Vocês vêm comigo.
— Aonde? — perguntou Nynaeve, acrescentando, um instante antes da Aes Sedai apertar os olhos: — Sheriam Sedai.
— Você esqueceu — retrucou Sheriam, em um tom áspero — que, na Torre, a Cura é sempre realizada na presença daqueles que trouxeram o doente?
Egwene pensou que o estoque de paciência da Mestra das Noviças com elas já estava esgotado, mas, antes que pudesse se conter, ela gritou:
— Então ela vai Curá-lo!
— O próprio Trono de Amyrlin, entre outras, cuidará dele. — O rosto de Sheriam era tão inexpressivo quanto a voz. — Vocês tinham alguma razão para duvidar disso? — Egwene conseguiu apenas balançar a cabeça. — Pois então estão desperdiçando o tempo do amigo de vocês, paradas aqui. O Trono de Amyrlin não pode ficar esperando.
Apesar das palavras da Aes Sedai, Egwene teve a sensação de que ela não tinha a menor pressa.
18
Cura
Lampiões em suportes de ferro presos às paredes iluminavam os subterrâneos da Torre, por onde Sheriam as conduzia. As poucas portas pelas quais passavam direto estavam fechadas. Algumas estavam trancadas, outras eram entalhadas de modo tão engenhoso que Egwene só reparava nelas quando passava bem em frente. Quase todos os cruzamentos entre corredores davam para passagens escuras, e, em algumas outras, via somente o brilho fraco de luzes espaçadas ao longe. Não havia ninguém por ali. Aquele local não era muito frequentado, nem mesmo pelas Aes Sedai. O ar não era frio nem quente, mas Egwene tremia, ao mesmo tempo que sentia um filete de suor escorrendo pelas costas.
Era ali, nas profundezas da Torre Branca, que as noviças passavam pelo último teste antes de serem elevadas a Aceitas. Ou expulsas da torre, caso falhassem. Ali, as Aceitas faziam os Três Juramentos após passarem pelo teste final. Egwene percebeu que ninguém jamais revelara o que acontecia a uma mulher que falhasse. Ali, em algum lugar, ficava a sala onde eram guardados os poucos angreal e sa’angreal da Torre, assim como os locais onde os ter’angreal eram armazenados. A Ajah Negra invadira aqueles depósitos. E se alguma delas estivesse à espreita, em um daqueles corredores escuros? E se Sheriam não estivesse levando-as até Mat, mas sim até…
Ela soltou um gritinho quando a Aes Sedai parou de repente, e ruborizou ao notar o olhar indagativo das outras.
— Estava pensando na Ajah Negra — explicou, sem forças.
— Não pense nisso — retrucou Sheriam, e dessa vez soou como a Mestra das Noviças de sempre: gentil, porém firme. — A Ajah Negra não deve ser uma preocupação de vocês pelos próximos anos. Vocês têm aquilo que o resto de nós não têm: tempo para se prepararem até que precisem enfrentar isso. Por ora, bastante tempo. Quando entrarmos, fiquem encostadas na parede e em silêncio. A presença de vocês é uma concessão, apenas para que possam observar, não para perturbar ou interferir. — Ela abriu uma porta de metal cinza, entalhada de modo a se assemelhar à pedra.
A sala quadrada era espaçosa, com paredes de pedra nuas e pálidas. A única peça de mobília era uma mesa comprida de pedra forrada com pano branco, bem no meio da sala. Mat estava deitado sobre ela, todo vestido, mas descalço e sem casacos, os olhos fechados e o rosto tão encovado que Egwene sentiu vontade de chorar. A respiração ofegante do rapaz produzia um chiado rouco. A adaga de Shadar Logoth pendia, embainhada no cinturão. O rubi da empunhadura parecia ter acumulado luz e brilhava intensamente, como um olho vermelho, sem sequer ser ofuscado pela luz de dez lampiões, que era ampliada pelas paredes claras e pelo chão de azulejos brancos.
O Trono de Amyrlin estava de pé diante da cabeça de Mat, e Leane, aos pés do rapaz. Quatro Aes Sedai estavam de um dos lados da mesa, e três, do outro. Sheriam se juntou às três. Uma delas era Verin. Egwene reconheceu Serafelle, outra irmã Marrom, Alanna Mosvani, da Ajah Verde, e Anaiya, da Azul, que era a Ajah de Moiraine.
Alanna e Anaiya tinham sido suas professoras em algumas aulas sobre como se abrir para a Fonte Verdadeira, se entregar a saidar e poder controlá-la. Além disso, entre a chegada e a partida da Torre Branca, Egwene fora testada cerca de cinquenta vezes por Anaiya, para descobrir se era uma Sonhadora. Os testes não foram conclusivos, mas a gentil Anaiya, cujo rosto comum carregava o sorriso terno que era sua única beleza, continuava a chamá-la para novos testes, implacável como um pedregulho a rolar colina abaixo.