— Brendas — disse a Amyrlin —, leve-o de volta ao quarto.
— Como a senhora ordenar, Mãe — respondeu a mulher de olhos frios, com uma mesura tão indiferente quanto ela própria. Quando ela saiu para convocar os carregadores, várias das outras Aes Sedai também se foram, incluindo Anaiya. Verin e Serafelle a seguiram, ainda conversando em um tom baixo demais para que Egwene entendesse o que diziam.
— Mat está bem? — inquiriu Nynaeve.
Sheriam ergueu as sobrancelhas. O Trono de Amyrlin virou-se para elas.
— Na medida do possível — respondeu friamente. — Apenas o tempo pode dizer. Carregar algo com a mácula de Shadar Logoth por um período tão longo… quem sabe que efeitos isso pode ter causado? Talvez nenhum, talvez muitos. Veremos. Mas o elo com a adaga está desfeito. Agora ele precisa de descanso e do máximo de comida possível. E deve viver.
— O que ele estava gritando, Mãe? — perguntou Elayne, acrescentando depressa: — Se me permite a pergunta.
— Estava comandando soldados. — A Amyrlin lançou um olhar intrigado ao jovem na mesa. Ele não se movia desde o desmaio, mas Egwene achou a respiração mais tranquila e regular. — Em uma batalha de dois mil anos atrás, eu diria. O sangue antigo está voltando.
— Ele não falou só da batalha — retrucou Nynaeve. — Ouvi as palavras “Aes Sedai”. Isso não era de uma batalha… Mãe — acrescentou, um pouco tarde.
A Amyrlin refletiu por um instante. Talvez pensando no que dizer, talvez considerando se deveria dizer algo.
— Creio que, durante alguns momentos — começou, por fim —, o passado e o presente tenham sido um só. Ele estava lá e aqui, e sabia quem éramos. Ordenou que o libertássemos. — Ela fez outra pausa. — “Sou um homem livre, Aes Sedai. Não sou comida de Aes Sedai.” Foi o que disse.
Leane fungou alto, e algumas das outras Aes Sedai murmuraram entre dentes, irritadas.
— Mas, Mãe — retrucou Egwene —, não deve ter sido intenção dele dizer isso. Manetheren era aliada de Tar Valon.
— Manetheren era aliada, criança — respondeu a Amyrlin —, mas quem é que compreende o coração de um homem? Nem ele próprio, imagino. O homem é o animal mais fácil de prender a uma corrente, mas o mais difícil de controlar. Mesmo quando ele próprio decide ser preso.
— Mãe — disse Sheriam —, está tarde. As cozinheiras devem estar esperando as ajudantes.
— Mãe — perguntou Egwene, ansiosa —, será que podemos ficar com Mat? Se ele ainda tem chances de morrer…
O olhar da Amyrlin era firme, e o rosto, inexpressivo.
— Vocês têm trabalho a fazer, criança.
Ela não se referia a esfregar panelas. Egwene tinha certeza.
— Sim, Mãe. — Ela fez uma mesura, e suas saias roçaram as de Nynaeve e Elayne, que também se curvavam. Lançou um último olhar a Mat e saiu atrás de Sheriam. O rapaz ainda não se movera.
19
Despertar
Mat abriu os olhos bem devagar e encarou o teto de gesso branco, perguntando-se onde estava e como chegara até ali. Ornamentos de folhas douradas margeavam o teto, e o colchão sob suas costas parecia feito de penas. Estava em um lugar rico, portanto. Um lugar com dinheiro. Mas não se lembrava de “onde” e “como”, nem de muitas outras coisas.
Ele andara sonhando, e partes do sonho ainda se misturavam às lembranças em sua cabeça. Ele não conseguia distinguir o que era real do que não era. Fugas e lutas violentas, pessoas estranhas do outro lado do oceano, Caminhos, Pedras-portais e fragmentos de outras vidas saídos direto dos contos de um menestrel… essa parte tinha que ser sonho. Pelo menos era o que ele achava. Mas Loial não era parte de um sonho, e era um Ogier. Trechos de conversas lhe voltaram à memória, conversas com o pai, os amigos, Moiraine, uma bela mulher, o capitão de um navio e um homem bem-vestido que falava como um pai que dá sábios conselhos. Aquilo provavelmente era real. Mas não passavam de fragmentos. À deriva.
— Muad’drin tia dar allende caba’drin rhadiem — murmurou. As palavras eram apenas sons, mas o fizeram se lembrar de… algo.
As fileiras abarrotadas de lanceiros estendiam-se por mais de uma milha de cada lado abaixo dele, pontilhadas com as bandeiras e os estandartes das cidades, vilarejos e Casas menores. O rio protegia o flanco da esquerda, e os pântanos e atoleiros, o da direita. Do alto da colina, ele observava os lanceiros lutarem contra a massa de Trollocs que tentava invadir, em um número dez vezes maior que os humanos. Lanças penetravam as armaduras negras dos Trollocs, e machados de guerra abriam buracos sangrentos entre as fileiras de humanos. Gritos e urros varavam o ar. O sol ardia alto no céu límpido, o calor tremeluzia sobre as linhas de batalha. Flechas ainda choviam sobre os inimigos, dilacerando Trollocs e humanos indiscriminadamente. Ele suspendera o ataque dos arqueiros, mas os Senhores do Medo não se importavam com o próprio exército, contanto que destruíssem a linha. No cume atrás dele, a Guarda Cardial aguardava seu comando, e os cavalos pisoteavam o chão, impacientes. As armaduras de homens e cavalos brilhavam prateadas sob a luz do sol. Nenhum deles aguentaria aquele calor por muito mais tempo.
Precisavam vencer ou morreriam. Sua fama de jogador era notória, e chegara a hora de rolar os dados. Com uma voz que podia ser ouvida mesmo com o tumulto abaixo, ele emitiu a ordem enquanto subia na sela.
— Soldados de infantaria, preparem-se para passar adiante da cavalaria!
O porta-estandarte pôs-se ao seu lado, a Águia Vermelha drapejando acima da cabeça, e o comando foi repetido de um extremo a outro da fila.
Abaixo, os lanceiros se moveram de repente, desviando-se com muita disciplina, estreitando a formação e abrindo largos espaços entre as fileiras, para onde os Trollocs correram, com urros bestiais, avançando como uma onda negra e mortal.
Ele desembainhou a espada e a ergueu bem alto.
— Avante a Guarda Cardial! — Fincou os calcanhares no cavalo, que saiu trotando encosta abaixo. Atrás dele, cascos estrondearam ao seu comando. — Avante! — Ele foi o primeiro a atacar os Trollocs, a espada subindo e descendo, o porta-estandarte logo atrás. — Pela honra da Águia Vermelha! — A Guarda Cardial avançou para os espaços entre os lanceiros, esmagando a onda, fazendo-a recuar. — A Águia Vermelha! — Rostos semi-humanos rosnavam para ele, espadas com curvaturas estranhas o acossavam, mas ele forçou a passagem ainda mais. Vencer ou morrer. — Manetheren!
Mat levou as mãos trêmulas à testa.
— Los Valdar Cuebiyari — murmurou. Ele tinha quase certeza do que significava: “Avante a Guarda Cardial” ou talvez “A Guarda Cardial avançará”. Mas não podia ser isso. Moiraine lhe ensinara algumas palavras da Língua Antiga, e era tudo o que ele sabia. O restante poderia muito bem ser inventado. — Besteira — disse asperamente. — Nem deve ser a Língua Antiga. Só baboseiras. Aquela Aes Sedai é louca. Foi só um sonho.
Aes Sedai. Moiraine. Ele de repente se deu conta de que estava com o pulso fino e as mãos ossudas, e os encarou. Estivera doente. Algo a ver com uma adaga. Uma adaga com um rubi no punho, e uma cidade, havia muito morta e corrompida, chamada Shadar Logoth. Tudo era distante e nebuloso, e nada fazia sentido, mas ele sabia que não era sonho. Egwene e Nynaeve haviam trazido-o a Tar Valon para ser Curado. Pelo menos daquilo ele se lembrava.
Tentou se sentar e caiu de volta, fraco como um cordeiro recém-nascido. Com dificuldade, conseguiu se levantar e jogou para longe o cobertor de lã. Não usava roupas. Talvez estivessem no armário de videiras esculpidas encostado na parede. Por um instante, não se preocupou com aquilo. Lutou para ficar de pé, cruzou o carpete florido, cambaleando, agarrou-se a uma poltrona de espaldar alto e lançou-se com uma guinada até a mesa com volutas douradas nos pés e bordas.