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Antes de tudo, decidiu, encontraria Egwene e Nynaeve. Talvez elas tenham recobrado o bom senso. Talvez tenham desistido dessa bobagem de se tornarem Aes Sedai. Não acreditava que teriam, mas não podia partir sem vê-las. Ele partiria, isso era certo. Uma visita a elas, um dia para ver a cidade, talvez um jogo de dados para encher os bolsos, e ele partiria para algum lugar onde não houvesse Aes Sedai. Queria ver um pouco do mundo antes de voltar para casa — voltarei para casa um dia. Um dia, eu voltarei —, mas sem Aes Sedai para fazê-lo dançar conforme suas músicas.

Revirando a bandeja à procura de algo mais para comer, surpreendeu-se ao perceber que não havia nada além de algumas migalhas de pão e restos de queijo. As duas jarras estavam vazias. Ele encarou o estômago com os olhos apertados, atônito. Deveria estar se sentindo empanturrado até as orelhas, com toda aquela comida, mas parecia não ter comido quase nada. Juntou as últimas lascas de queijo entre o polegar e o indicador. Suas mãos pararam a meio caminho da boca.

Eu soei a Trombeta de Valere. Baixinho, ele assobiou uma nota, mas a interrompeu quando as palavras lhe ocorreram:

Estou no fundo do poço. É noite, e a chuva está caindo. As paredes estão desabando, e não há corda para escalar. Estou no fundo do poço.

— Bem que podia ter uma maldita corda para escalar — sussurrou. Deixou as lascas de queijo caírem na bandeja. Por um instante, sentiu-se mal outra vez. Determinado, tentou pensar, tentou penetrar a névoa que encobria todos os seus pensamentos.

Verin trouxera a Trombeta até Tar Valon, mas ele não conseguia lembrar se ela sabia que fora ele quem soara o instrumento. Em nenhum momento ela dissera algo que indicasse que sim. Tinha certeza. E daí se ela souber? E daí se todas souberem? A não ser que Verin tenha feito algo com aquilo que eu não saiba, elas estão com a Trombeta. Não precisam de mim. Mas quem poderia dizer o que Aes Sedai achavam que precisavam?

— Se elas perguntarem — disse, sombrio —, digo que nunca pus as mãos nela. Se elas souberem… se souberem, eu… vejo o que fazer na hora. Que me queime, elas não podem querer nada de mim. Não podem!

Uma batida suave na porta o fez ficar de pé, cambaleante, pronto para correr. Se houvesse para onde correr, e se ele fosse capaz de dar mais de três passos. Mas não havia, e ele não era capaz.

A porta se abriu.

20

Visitas

A mulher que entrou, toda vestida em renda branca e prata, fechou a porta atrás de si e recostou-se para examiná-lo com os olhos mais negros que Mat já vira. Era tão bonita que ele quase se esqueceu de respirar, os cabelos negros como a noite presos por uma fina faixa de lã prateada. Parecia tão graciosa parada quanto qualquer outra mulher dançando. Ele chegou a pensar que a conhecia, mas descartou a ideia sem pestanejar. Homem nenhum esqueceria uma mulher como aquela.

— Ficará mais apresentável, suponho, depois de recuperar o peso — disse —, mas, por ora, talvez possa vestir algo.

Por um instante, Mat continuou a encará-la. Então, de repente, percebeu que estava nu. Enrubescido, cambaleou até a cama, enrolou o cobertor no corpo como um manto e desabou, sentando no canto do colchão.

— Me desculpe por… quer dizer… hã… eu não esperava… eu… — Ele respirou fundo. — Peço desculpas por me encontrar desse jeito.

Ainda sentia as bochechas quentes. Por um instante, desejou que Rand, independentemente do que tivesse se tornado, ou até mesmo Perrin, estivessem ali para ajudá-lo. Os dois sempre se entenderam bem com as mulheres. Até as garotas que sabiam que Rand era quase prometido a Egwene olhavam para ele, e todas pareciam considerar gentil e atraente o jeito lento de Perrin. Por mais que se esforçasse, ele sempre conseguia fazer papel de bobo na frente das garotas. E acabava de repetir o feito.

— Eu não teria vindo visitá-lo desse jeito, Mat, mas estava aqui na… Torre Branca… — Ela sorriu, como se achasse o nome engraçado. — …Por outro motivo, e queria ver todos vocês. — O rosto de Mat enrubesceu outra vez, e ele apertou o cobertor em torno de si, mas ela não parecia estar de provocação. Mais graciosa que um cisne, ela deslizou até a mesa. — Você está com fome. Isso já era esperado, dada a forma como elas fazem as coisas. Coma tudo o que lhe derem. Ficará surpreso com a rapidez com que vai recuperar o peso e a resistência.

— Desculpe — disse Mat, tímido —, mas eu a conheço? Não quero ofender, mas você me é… familiar.

Ela o encarou até ele começar a se remexer, constrangido. Uma mulher como aquela esperava ser lembrada.

— Talvez você já tenha me visto — respondeu ela, por fim. — Em algum lugar. Meu nome é Selene. — Ela inclinou a cabeça de leve, parecia esperar que ele reconhecesse o nome.

O nome parecia querer despertar uma lembrança. Ele achava que já o ouvira antes, mas não sabia dizer quando ou onde.

— Você é Aes Sedai, Selene?

— Não. — A palavra saiu suave, mas com uma ênfase surpreendente.

Pela primeira vez, ele a examinou, agora em condições de enxergar além de sua beleza. Ela tinha quase a altura dele, era esguia e, ele suspeitou pelos movimentos, forte. Não soube dizer qual seria sua idade, talvez fosse um ano ou dois mais velha que ele, ou quem sabe dez, mas tinha o rosto liso. O colar de pedras brancas e prata trançada combinava com o cinturão, mas ela não usava o anel da Grande Serpente. A ausência não deveria tê-lo surpreendido, nenhuma Aes Sedai responderia que não era Aes Sedai, mas surpreendeu. Ela tinha certo ar, uma autoconfiança, uma segurança de que seu próprio poder fazia frente ao de qualquer rainha, e algo a mais que o fazia pensar em Aes Sedai.

— Você não é uma noviça, é? — Ele ouvira que as noviças vestiam branco, mas não acreditava que ela fosse uma. Ela faz Elayne parecer desprezível. Elayne. Outro nome que vagava em sua cabeça.

— Tampouco isso — respondeu Selene, contorcendo a boca. — Digamos que sou alguém cujos interesses coincidem com os seus. Essas… Aes Sedai querem usá-lo, mas no geral acho que você vai gostar. E aceitar. Você não precisa de convencimento para perseguir a glória.

— Me usar? — Ele lembrou que já havia pensado isso, mas a respeito de Rand, que as Aes Sedai pretendiam usar Rand, não ele. Não tenho serventia para elas. Luz, não posso ter! — O que está querendo dizer? Não sou importante. Não sirvo para ninguém além de mim mesmo. Que tipo de glória?

— Sabia que isso o atrairia. Você, acima de todos.

O sorriso da mulher deixou Mat tonto. Ele esfregou os cabelos com uma das mãos. O cobertor deslizou, e ele o recuperou depressa, antes que caísse.

— Escute, elas não têm interesse em mim. — E quanto a eu ter soado a Trombeta? — Sou só um fazendeiro. — Talvez elas pensem que estou atrelado a Rand de alguma forma. Não, Verin disse… Ele não tinha certeza do que Verin dissera, nem Moiraine, mas achava que a maioria das Aes Sedai não sabia absolutamente nada sobre Rand. Queria manter as coisas desse jeito, pelo menos até que já estivesse bem longe. — Um simples sujeito do interior. Só quero conhecer um pouco mais do mundo e voltar para a fazenda do meu pai. — O que ela quis dizer com glória?

Selene sacudiu a cabeça, como se tivesse ouvido os pensamentos dele.

— Você é mais importante do que sabe, por enquanto. Sem dúvida mais importante do que essas tais Aes Sedai sabem. Você pode obter glória, se souber o suficiente para não confiar nelas.