A Amyrlin ergueu as sobrancelhas ao vê-lo de pé ali, com o cobertor pendendo dos ombros e a bolsa e os copos de dados nas mãos.
— Creio que você não precisará disso por algum tempo, filho — disse, em um tom seco. — Guarde-os e volte para a cama antes que caia de cara no chão.
Ele hesitou. Tinha as costas rígidas, mas os joelhos escolheram aquele momento para fraquejar, e as duas Aes Sedai ficaram olhando para ele, olhos negros e azuis encarando-o do mesmo modo, como se parecessem ler cada um de seus pensamentos rebeldes. Ele obedeceu à ordem, envolvendo o cobertor no corpo com ambas as mãos. Deitou-se reto feito uma tábua, sem saber ao certo o que mais poderia fazer.
— Como está se sentindo? — perguntou a Amyrlin bruscamente, pondo uma das mãos na testa de Mat. Arrepios percorreram sua pele. Será que ela fizera algo com o Poder Único ou será que o mero toque de uma Aes Sedai provocava calafrios?
— Estou bem — respondeu. — Ora, já estou pronto para ir. Preciso só me despedir de Egwene e Nynaeve e depois paro de encher vocês. Quer dizer, depois eu me vou… hã… Mãe. — Moiraine e Verin nunca pareceram dar muita atenção ao palavreado dele, mas, de qualquer modo, aquela era o Trono de Amyrlin.
— Bobagem — retrucou a Amyrlin. Ela puxou a cadeira de espaldar alto para perto da cama, sentou-se e dirigiu-se a Leane. — Os homens sempre se recusam a admitir que estão doentes, até ficarem doentes o bastante para dar o dobro de trabalho às mulheres. Depois, afirmam que estão bem cedo demais, e o resultado é o mesmo.
A Curadora lançou um olhar a Mat e assentiu.
— Sim, Mãe, mas este aqui não pode alegar que está bem, já que mal consegue ficar de pé. Pelo menos comeu tudo o que tinha na bandeja.
— Eu ficaria surpresa se ele deixasse migalhas suficientes para atrair um tentilhão. E ainda sente fome, se eu não estiver enganada.
— Posso mandar alguém trazer uma torta, Mãe. Ou alguns bolos.
— Não, acho que ele já comeu bastante por ora. Colocar tudo para fora não lhe fará nada bem.
Mat fechou a cara. Parecia que ficar doente o tornava invisível às mulheres, a não ser que estivessem de fato falando com ele. E elas o tratavam como se fosse pelo menos dez anos mais novo. Nynaeve, sua mãe, suas irmãs, o Trono de Amyrlin, todas agiam assim.
— Não estou com a menor fome — anunciou. — Estou bem. Se me deixarem vestir minhas roupas, mostro a vocês como estou bem. Vou dar o fora daqui antes que percebam. — As duas olhavam para ele, que pigarreou. — Hã… Mãe.
A Amyrlin soltou um grunhido.
— Você comeu uma refeição para cinco, e comerá três ou quatro como essas por mais alguns dias, ou morrerá de fome. Acabou de ser Curado de um elo com o mal que matou todos os homens, mulheres e crianças em Aridhol, e esse mal não enfraqueceu durante os dois mil anos que passou aguardando pelo resgate. Estava matando você da mesma forma que os matou. Não é como prender uma espinha de peixe no dedo, garoto. Nós quase o matamos tentando salvá-lo.
— Não estou com fome — insistiu. Seu estômago roncou alto, denunciando-o.
— Eu compreendi você muito bem da primeira vez que o vi — disse a Amyrlin. — Soube desde o início que você fugiria feito um pássaro pescador assustado se pensasse que alguém está tentando prendê-lo. Por isso, tomei precauções.
Ele olhou as duas, desconfiado.
— Precauções?
Elas o encararam de volta com serenidade. Os olhares das mulheres eram como pregos cravando-o na cama.
— Seu nome e descrição estão a caminho dos guardas da ponte — disse a Amyrlin — e dos arrais. Não vou tentar prendê-lo dentro da Torre, mas você não poderá deixar Tar Valon até se recuperar. Se tentar se esconder na cidade, a fome eventualmente o trará de volta para cá, ou, se não trouxer, nós o encontraremos antes que morra de inanição.
— Por que querem tanto me manter aqui? — inquiriu. Ouviu a voz de Selene. Querem usar você. — Por que se importam se eu morrer de fome? Sou capaz de me alimentar.
A Amyrlin soltou um risinho pouco satisfeito.
— Com dois marcos de prata e um punhado de cobre, meu filho? Seria preciso de fato muita sorte nos dados para comprar toda a comida necessária pelos próximos dias. Não Curamos alguém para depois deixá-los jogar nosso trabalho fora, morrendo enquanto ainda precisam de cuidados. Além do mais, talvez você ainda precise de mais Cura.
— Mais? A senhora disse que havia me Curado. Por que eu precisaria de mais?
— Meu filho, você carregou aquela adaga por meses. Creio que conseguimos remover todos os traços, mas, se tivermos deixado escapar a menor partícula, ainda pode ser fatal. E quem é que sabe que efeitos esse objeto pode ter causado, por ficar em sua posse por tanto tempo? Daqui a seis meses ou um ano, pode ser que ainda deseje uma Aes Sedai por perto para Curá-lo de novo.
— Quer que eu passe um ano aqui? — perguntou, incrédulo, num tom alto.
Leane mexeu os pés e o olhou com rispidez, mas o rosto tranquilo da Amyrlin não se alterou.
— Talvez não tanto tempo, meu filho. Porém, o suficiente para termos certeza. Sem dúvida você quer o mesmo. Entraria num barco sem saber se a calafetagem é segura ou se o assoalho está firme?
— Nunca me interessei por barcos — resmungou Mat. Talvez fosse verdade. Aes Sedai nunca mentiam, mas havia “talvez” e “porém” demais naquelas promessas. — Estou longe de casa há muito tempo, Mãe. Meus pais provavelmente pensam que estou morto.
— Se quiser escrever uma carta para eles, posso garantir que chegue até Campo de Emond.
Mat esperou por algo mais, mas nada veio.
— Obrigado, Mãe. — Ele ensaiou uma pequena risada. — Estou bem surpreso por meu pai não ter vindo procurar por mim. Ele é o tipo de homem que faria isso. — Não tinha certeza, mas achou que a Amyrlin hesitou levemente antes de responder.
— Ele veio. Leane conversou com ele.
A Curadora se pronunciou no mesmo instante.
— Ainda não sabíamos onde você estava, Mat. Eu disse isso a ele, e ele foi embora antes das nevascas. Dei algum ouro para ajudar na viagem de volta para casa.
— Sem dúvida — prosseguiu a Amyrlin — ele ficará feliz em ter notícias suas. E sua mãe também, decerto. Pode me entregar a carta assim que escrevê-la, eu cuidarei dela.
Elas contaram, mas ele tivera que perguntar. E não mencionaram o pai de Rand. Talvez por pensarem que eu não me importaria, e talvez porque… Que me queime, não sei. Quem é que sabe, quando se trata das Aes Sedai?
— Eu estava viajando com um amigo, Mãe. Rand al’Thor. A senhora se lembra dele. Sabe se ele está bem? Aposto que o pai dele também está preocupado.
— Até onde sei — disse a Amyrlin, muito calma —, o rapaz está bem, mas quem pode garantir? Eu o vi apenas uma vez, quando encontrei vocês em Fal Dara. — Ela se virou para a Curadora. — Talvez seja bom trazer um pedaço de torta, Leane. E algo para a garganta, se o rapaz continuar falando assim. Pode providenciar isso?
A Aes Sedai alta saiu, murmurando:
— Como a senhora ordenar, Mãe.
Quando a Amyrlin se virou de volta para Mat, ela sorria, mas tinha os olhos azuis como gelo.
— Há certas coisas perigosas de se conversar, talvez mesmo na frente de Leane. Uma língua solta pode matar mais homens do que muitas tempestades.
— Perigosas, Mãe? — Ele de súbito sentiu a boca seca, mas resistiu ao impulso de lamber os lábios. Luz, quanto será que ela sabe sobre Rand? Se pelo menos Moiraine não guardasse tantos segredos. — Mãe, não sei de nada perigoso. Mal consigo me lembrar da metade do que sei.
— Você se lembra da Trombeta?
— Que trombeta é essa, Mãe?
Ela levantou-se e partiu para cima dele tão depressa que Mat mal a viu se mover.