Выбрать главу

— Se ficar de brincadeiras comigo, garoto, farei você chorar pedindo pela mamãe. Não tenho tempo para brincadeiras, e nem você. Então… você… se lembra?

Ele agarrou o cobertor com força em volta do corpo. Precisou engolir antes de responder:

— Eu me lembro, Mãe.

Ela pareceu relaxar, pelo menos um pouco, e o rapaz encolheu os ombros, nauseado. Sentia como se acabasse de receber permissão para erguê-los de um cepo de decapitação.

— Bom. Muito bom, Mat. — Ela se sentou devagar, examinando-o. — Você sabia que está ligado à Trombeta? — Em choque, ele repetiu a palavra “ligado” apenas movendo os lábios, e ela assentiu. — Imaginei que não soubesse. Você foi o primeiro a soar a Trombeta de Valere, depois que ela foi encontrada. Por você, ela invocará heróis mortos de volta dos túmulos. Para qualquer outro, é apenas uma trombeta, enquanto você viver.

Ele respirou fundo.

— Enquanto eu viver — repetiu, com a voz inexpressiva, e a Amyrlin assentiu. — Vocês poderiam ter me deixado morrer. — Ela assentiu outra vez. — Então qualquer outro poderia soar a Trombeta. — Mais uma anuência. — Sangue e cinzas! Querem que eu soe a Trombeta para vocês. Quando a Última Batalha chegar, querem que eu invoque os heróis mortos das tumbas para lutar contra o Tenebroso. Sangue e malditas cinzas!

Ela pousou o cotovelo em um dos braços da cadeira e apoiou o queixo na mão. Não desviou os olhos dele.

— Preferia a outra opção?

Ele franziu a testa, depois lembrou qual era a outra opção. Se mais alguém tivesse que soar a Trombeta…

— Querem que eu soe a Trombeta? Então soarei a Trombeta. Nunca disse que não faria isso, disse?

A Amyrlin soltou um suspiro exasperado.

— Você me lembra do meu tio, Huan. Ele não se comprometia com nada. Também gostava de jogar e preferia a diversão ao trabalho. Morreu salvando crianças de uma casa em chamas. Não parou de retornar à casa até todas serem salvas. Será que você é como ele, Mat? Estará presente na hora do incêndio?

Ele não conseguia olhá-la nos olhos. Encarava os próprios dedos, que puxavam o cobertor com irritação.

— Não sou um herói. Farei o que for preciso, mas não sou um herói.

— Muitos a quem chamamos de heróis fizeram apenas o que tinham que fazer. Acho que já basta. Por enquanto. Não deve falar com ninguém a respeito da Trombeta, meu filho. Ou de sua ligação com ela.

Por enquanto?, pensou. Não vai conseguir mais nada, nem agora nem nunca.

— Não pretendo espalhar essa porcar… — Ela arqueou uma sobrancelha, e ele baixou a voz outra vez. — Não pretendo contar a ninguém. Queria que ninguém soubesse. Por que a senhora quer manter isso em segredo? Não confia nas suas Aes Sedai?

Por um instante ele pensou que fora longe demais. O rosto da mulher enrijeceu, e ela lançou um olhar capaz de decepar o cabo de machado.

— Se eu pudesse deixar isso somente entre nós dois — respondeu, com frieza —, deixaria. Quanto mais pessoas sabem de algo, mais a informação se espalha, mesmo com a melhor das intenções. A maioria acredita que a Trombeta de Valere não passa de uma lenda, e os que sabem a verdade creem que os Caçadores ainda não a encontraram. Mas Shayol Ghul sabe que ela foi encontrada, e isso significa que pelo menos alguns Amigos das Trevas também sabem. Mas eles não sabem onde ela está, e, se a Luz nos iluminar, também não sabem que você a soou. Quer ter Amigos das Trevas no seu encalço? Meios-homens ou outras criaturas da sombra? Eles querem a Trombeta. Você precisa estar ciente disso. Ela servirá tão bem para a Luz quanto para a Sombra. Mas, se for para servir a eles, precisam levá-lo ou matá-lo. Quer arriscar isso?

Mat desejou ter outro cobertor, e também um edredom de penas de ganso. O quarto de repente esfriara demais.

— Está dizendo que Amigos das Trevas podem me perseguir até aqui? Pensei que a Torre Branca fosse capaz de mantê-los longe. — Ele se lembrou do que Selene dissera sobre a Ajah Negra, e imaginou o que a Amyrlin diria a respeito.

— Excelente razão para ficar, não acha? — Ela se levantou, alisando a saia. — Descanse, meu filho. Logo estará se sentindo bem melhor. — Fechou a porta com delicadeza ao passar.

Por um bom tempo, Mat ficou deitado, encarando o teto. Mal notou quando uma serviçal entrou com a fatia de torta e outra jarra de leite, levando a bandeja com os pratos vazios ao sair. Seu estômago roncou alto com o aroma cálido de maçãs e especiarias, mas ele também não deu atenção. A Amyrlin pensava que o controlava como uma ovelha em um redil. E Selene… Pela Luz, quem é ela? O que será que ela quer? Selene tinha razão em relação a certas coisas, porém, a Amyrlin afirmara que pretendia usá-lo, e como. De certa forma. Ela deixara informações demais de fora para o gosto dele, informações que poderiam ser sobre algo mortal. A Amyrlin queria algo, Selene queria algo, e ele era a corda que cada uma puxava para si. Pensou que preferia enfrentar Trollocs a estar no meio daquelas duas.

Tinha de haver um meio de sair de Tar Valon sem que nenhuma das duas o agarrasse. Depois de atravessar o rio, estaria longe das mãos da Aes Sedai, de Selene e também dos Amigos das Trevas. Tinha certeza. Tinha de haver um meio. Ele só precisava pensar em todas as possibilidades.

A torta esfriou na mesa.

21

O Mundo dos Sonhos

Egwene cruzou, apressada, o corredor mal iluminado, ainda limpando as mãos em uma toalha. Já as lavara duas vezes, mas ainda as sentia engorduradas. Jamais imaginara que pudesse haver tantas panelas no mundo. E tinha sido dia de assado, por isso baldes de cinzas tiveram de ser removidos dos fornos. E os fogões, limpos. E as mesas, polidas com areia fina até ficarem brancas, o chão, esfregado, com Egwene ajoelhada no chão. Havia manchas de cinzas e de gordura em seu vestido branco. Sua cabeça doía, e ela queria estar na cama, mas Verin fora até as cozinhas, supostamente para solicitar uma refeição para levar para o quarto, e chamou-a com um sussurro ao passar.

Os aposentos de Verin ficavam acima da biblioteca, em corredores usados apenas por algumas outras irmãs Marrons. Havia um ar empoeirado naqueles corredores, como se as mulheres que vivessem ali fossem muito ocupadas para se preocupar em chamar as serviçais para limpar com frequência. As passagens faziam muitas curvas, às vezes com subidas e declives inesperados. Havia pouca tapeçaria, os tecidos coloridos, que pareciam ser limpos com a mesma frequência que todo o restante, estavam desbotados. Muitos lampiões estavam apagados, e a maior parte da ala ficava imersa na escuridão. Egwene pensava ter toda a ala para si, exceto por uma luz que piscava mais adiante, talvez de uma noviça ou serviçal em alguma tarefa. Seus sapatos estalavam nos azulejos brancos e pretos, produzindo ecos. Não era um lugar confortável para alguém cujos pensamentos giravam em torno da Ajah Negra.

Ela encontrou o que Verin a mandara procurar: uma porta com painéis no topo de uma rampa, ao lado da tapeçaria empoeirada de um rei montado em um cavalo enquanto recebia a rendição de outro rei. Verin dissera os nomes dos dois, mortos centenas de anos antes do nascimento de Artur Asa-de-gavião. A mulher sempre sabia essas coisas, mas Egwene não conseguia se lembrar dos nomes dos homens ou dos países havia muito extintos que eles governavam. Porém, aquela era a única tapeçaria de parede que correspondia à descrição de Verin.

Sem o som de seus próprios passos, o corredor parecia ainda mais vazio que antes, e mais ameaçador. Ela bateu à porta e entrou, apressada, assim que ouviu um distraído “Quem é? Pode entrar”.

Depois de um passo para dentro do quarto, ela parou e olhou em volta. Prateleiras preenchiam as paredes, exceto onde havia uma porta, que decerto levava aos cômodos internos, e nos pontos onde estavam pendurados mapas e gráficos que pareciam retratar o céu noturno. Ela reconheceu os nomes de algumas constelações, o Fazendeiro e a Carroça de Feno, o Arqueiro e as Cinco Irmãs, mas as outras eram um mistério. Livros, papéis e rolos de pergaminho cobriam quase todas as superfícies, e todo tipo de objetos estranhos se intercalavam entre as pilhas ou sobre elas. Tinham formatos estranhos, feitos de vidro ou metal. Esferas e tubos interligados e círculos dentro de outros círculos estavam largados em meio a ossos e crânios de todos os tamanhos e formas. O que parecia ser uma coruja marrom empalhada, não muito maior do que a mão de Egwene, estava sobre o que talvez fosse o crânio branco de um lagarto, mas poderia não ser, pois era maior que o braço dela e tinha dentes tortos maiores que seus dedos. Havia candelabros dispostos de forma caótica, o que deixava a iluminação irregular, parecendo a ponto de incendiar alguns papéis. A coruja piscou para ela, e Egwene sobressaltou-se.