— Ah, sim — disse Verin. A mulher estava sentada atrás de uma mesa tão atulhada quanto tudo o mais que havia no quarto, segurando com muito cuidado uma folha rasgada. — É você. Sim. — Ela notou o olhar de esguelha que Egwene lançou à coruja e disse, distraída: — Afugenta os ratos. Eles comem papel. — Ela fez um gesto que abrangeu o quarto inteiro, então lembrou-se da folha que segurava. — Fascinante, isso aqui. Rosel de Essam afirmou que mais de cem páginas sobreviveram à Ruptura, e ela devia estar certa, já que escreveu apenas uns duzentos anos depois, mas, até onde sei, hoje em dia só existe este pedaço. Talvez apenas esta cópia. Rosel escreveu que elas guardavam segredos que o mundo não teria condições de encarar, sobre os quais não falaria abertamente. Li esta página mil vezes, tentando decifrar o que ela quis dizer.
A pequena coruja piscou para Egwene outra vez. Ela tentou não olhar.
— O que a página diz, Verin Sedai?
A mulher piscou, quase como a coruja.
— O que diz? É uma tradução direta, veja bem, e lê-se quase como o recital de um bardo em Alto Canto. Escute: “Coração das Trevas. Ba’alzamon. Nome encoberto por nome oculto por nome. Segredo sepultado sobre segredo escondido por segredo. Traidor da Esperança. Ishamael trai toda a esperança. A verdade arde e queima. A esperança diante da verdade. Uma mentira é nosso escudo. Quem pode se opor ao Coração das Trevas? Quem pode enfrentar o Traidor da Esperança? Alma da Sombra, Alma da Sombra, ele é…” — Ela parou, com um suspiro. — Termina aqui. O que acha?
— Não sei — respondeu Egwene. — Não gostei.
— Ora, e por que deveria, criança? Gostar ou compreender? Eu o estudei por quase quarenta anos e também não gosto nem entendo. — Verin guardou a folha com cuidado em uma pasta de couro rígida forrada de seda, depois a jogou com displicência em uma pilha de papéis. — Mas você não veio aqui para isso. — Ela revirou a mesa, resmungando sozinha, e várias vezes mal conseguiu conter o desabamento de uma pilha de livros ou manuscritos. Enfim, pegou um punhado de folhas escritas em caligrafia fina e ininteligível e presas com um barbante espesso. — Tome, criança. Tudo o que se sabe sobre Liandrin e as mulheres que fugiram com ela. Nomes, idades, Ajahs, locais de nascimento. Tudo o que encontrei nos registros. Até como se saíram nos estudos. E também tudo o que sabemos sobre os ter’angreal que levaram, o que não é muito. A maior parte é apenas de descrições. Não sei se alguma dessas coisas pode ajudar. Não encontrei nada de útil.
— Talvez uma de nós encontre alguma coisa. — Uma súbita onda de desconfiança tomou Egwene de surpresa. Se ela não tiver deixado nada de fora. A Amyrlin parecia confiar em Verin apenas porque precisava. E se a própria Verin fosse da Ajah Negra? Ela se obrigou a parar aquela linha de raciocínio. Viajara da Ponta de Toman até Tar Valon com Verin, e se recusava a acreditar que a estudiosa roliça pudesse ser uma Amiga das Trevas. — Eu confio na senhora, Verin Sedai. — Será que posso, mesmo?
A Aes Sedai piscou para ela mais uma vez, depois afastou qualquer pensamento que houvesse lhe ocorrido sacudindo a cabeça.
— Essa lista que lhe entreguei pode ser importante, e também pode ser um desperdício de papel, mas não é a única razão pela qual a chamei aqui. — Ela começou a mover os objetos na mesa para liberar espaço, aumentando ainda mais algumas pilhas já instáveis. — Soube por Anaiya que você pode se revelar uma Sonhadora. A última foi Corianin Nedeal, há quatrocentos e setenta e três anos, e, pelo que entendi dos registros, ela mal merecia o título. Seria muito interessante se você se tornasse uma.
— Ela me testou, Verin Sedai, mas não soube dizer se meus sonhos preveem o futuro.
— Isso é apenas parte do que faz uma Sonhadora, criança. Talvez a menor parte. A educação que Anaiya acredita que seja melhor para as garotas é muito lenta, na minha opinião. Olhe aqui. — Com um dedo, Verin traçou um número de linhas paralelas ao longo da área que havia liberado, linhas sobre a poeira que cobria a cera de abelha velha. — Digamos que isso represente mundos que poderiam existir se escolhas diferentes tivessem sido feitas, se os grandes momentos decisivos do Padrão tivessem conduzido a outros caminhos.
— Os mundos alcançados pelas Pedras-portais — disse Egwene, para mostrar que havia prestado atenção às lições de Verin no caminho desde a Ponta de Toman. O que aquilo tinha a ver com ela ser ou não uma Sonhadora?
— Muito bem. Mas o Padrão pode ser ainda mais complexo que isso, criança. A Roda tece nossas vidas para formar o Padrão de uma Era, mas as próprias Eras são tecidas na Renda da Era, no Grande Padrão. No entanto, quem é que pode afirmar se essa é sequer a décima parte da trama? Parece que algumas pessoas da Era das Lendas acreditavam que havia ainda outros mundos, até mais difíceis de alcançar do que os mundos das Pedras-portais, se é que se pode acreditar nisso. Eles ficam dispostos dessa forma. — Ela desenhou outras linhas, entrecruzando as primeiras. Por um instante, observou-as. — O fuso e a urdidura da trama. Talvez a Roda do Tempo teça um Padrão ainda maior para os mundos. — Ela se endireitou e espanou a poeira das mãos. — Bem, não importa. Em todos esses mundos, ou em qualquer uma de suas variações, poucas coisas são constantes. Uma delas é que o Tenebroso está preso em todos os mundos.
Involuntariamente, Egwene deu um passo à frente para espiar as linhas que Verin havia traçado.
— Em todos eles? Como pode? Quer dizer que existe um Pai das Mentiras para cada mundo? — A ideia de haver tantos Tenebrosos a fez estremecer.
— Não, criança. Há apenas um Criador, que existe em todos os lugares ao mesmo tempo, em todos esses mundos. Da mesma forma, há apenas um Tenebroso, que também existe em todos os mundos ao mesmo tempo. Se ele for libertado da prisão que o Criador construiu em um dos mundos, será libertado em todos os outros. Enquanto permanecer preso em um, permanecerá preso em todos.
— Isso não parece fazer muito sentido — protestou Egwene.
— É um paradoxo, criança. O Tenebroso é a personificação do paradoxo e do caos, o exterminador da razão e da lógica, o destruidor do equilíbrio, o desmantelador da ordem.
De repente, a coruja levantou voo com as asas silenciosas e pousou em um grande crânio branco que havia em uma prateleira atrás da Aes Sedai. Encarou as duas mulheres, piscando. Egwene havia notado o crânio ao entrar no quarto, com chifres torcidos e focinho, e se perguntou que tipo de carneiro teria uma cabeça tão grande. Agora, percebia como a cabeça era redonda, e a testa, alta. Não era um crânio de carneiro. Era de um Trolloc.
Ela ofegou, trêmula.
— Verin Sedai, o que isso tem a ver com ser uma Sonhadora? O Tenebroso está preso em Shayol Ghul, e não quero nem imaginá-lo escapando. — Mas os selos da prisão estão enfraquecendo. Até as noviças já sabem disso.
— O que tem a ver com ser uma Sonhadora? Ora, nada, criança. Exceto que todos nós precisamos enfrentar o Tenebroso, de uma forma ou de outra. Ele está preso agora, mas o Padrão não trouxe Rand al’Thor ao mundo à toa. O Dragão Renascido enfrentará o Senhor do Túmulo, disso não há dúvidas. Se Rand sobreviver até lá, é claro. O Tenebroso tentará distorcer o Padrão, se puder. Bem, até que já avançamos bastante, não é?