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— Me desculpe, Verin Sedai, mas se isso — Egwene indicou as linhas traçadas na poeira — não tem nada a ver com ser uma Sonhadora, por que a senhora está me dizendo todas essas coisas?

Verin a encarou, como se a burrice da garota fosse proposital.

— Nada? É claro que tem algo a ver, criança. A questão é que há uma terceira constante além do Criador e do Tenebroso. Existe um mundo que se encontra dentro de cada um desses outros, dentro de todos eles ao mesmo tempo. Ou talvez ao redor deles. Os escritores da Era das Lendas o chamavam de Tel’aran’rhiod, “o Mundo Invisível”. Talvez “o Mundo dos Sonhos” seja uma tradução melhor. Muitas pessoas, gente comum que sequer pensaria em canalizar, às vezes vislumbram Tel’aran’rhiod em seus sonhos e até veem uma centelha desses outros mundos através dele. Pense em algumas das coisas peculiares que seus sonhos já lhe mostraram. No entanto, criança, uma Sonhadora, uma verdadeira Sonhadora, é capaz de adentrar Tel’aran’rhiod.

Egwene engoliu em seco.

— Eu… acho que não sou uma Sonhadora, Verin Sedai. Os testes de Anaiya Sedai…

Verin a interrompeu:

— Não provam nada, nem que sim nem que não. E Anaiya ainda acredita que você pode muito bem ser uma.

— Acho que vou acabar descobrindo se sou ou não — murmurou Egwene. Luz, eu quero ser, não quero? Quero aprender! Quero tudo.

— Não há tempo a perder, criança. A Amyrlin confiou uma grande tarefa a você e Nynaeve. Vocês precisam buscar quaisquer ferramentas que sejam capazes de usar. — Verin desenterrou uma caixa de madeira vermelha da bagunça na mesa. A caixa era grande o bastante para conter folhas de papel, mas, quando a Aes Sedai abriu a tampa, puxou apenas um anel de pedra entalhada, todo pontilhado e listrado de azul, marrom e vermelho, grande demais para caber em qualquer dedo. — Tome, criança.

Egwene largou os papéis para pegá-lo e arregalou os olhos, surpresa. O anel sem dúvida parecia de pedra, mas era mais duro que aço e mais pesado que chumbo. E o aro era todo retorcido. Se ela passasse o dedo pela borda, percorreria o anel inteiro, dentro e fora, sem deixar de tocá-la. Parecia que ele era todo feito de uma mesma superfície, de um só lado. Ela passou o dedo por ele duas vezes, só para se convencer.

— Corianin Nedeal manteve a posse desse ter’angreal por quase toda a vida — explicou Verin. — Agora, ele será seu.

Egwene quase deixou o objeto cair. Um ter’angreal? Eu terei um ter’angreal?

Verin pareceu não ter percebido o choque.

— Segundo Corianin, ele facilita a passagem para Tel’aran’rhiod. Ela afirmava que funcionava tanto para os sem Talento quanto para Aes Sedai, desde que a pessoa o tocasse durante o sono. Naturalmente, existem riscos. Tel’aran’rhiod não é como outros sonhos. O que acontece por lá é reaclass="underline" em vez de apenas vislumbrar, você estará de fato presente. — Ela puxou a manga do vestido, revelando uma cicatriz fraca, da extensão de seu antebraço. — Eu já tentei uma vez, há alguns anos. A cura de Anaiya não funcionou tão bem quanto deveria. Lembre-se disso. — A Aes Sedai voltou a cobrir a cicatriz com a manga.

— Vou tomar cuidado, Verin Sedai. — Real? Meus sonhos já são ruins o bastante. Não quero sonhos que deixem cicatrizes! Vou guardar esse anel em um saco, enfiar em um canto escuro e deixá-lo por lá. Vou… Mas ela queria aprender. Queria ser uma Aes Sedai, e não existiam Sonhadoras havia quase quinhentos anos. — Vou tomar muito cuidado. — Ela guardou o anel dentro da bolsa e puxou a corda com força, depois recolheu os papéis que Verin havia lhe entregado.

— Lembre-se de escondê-lo, criança. Nenhuma noviça, nem sequer uma Aceita, deve ter um objeto como esse em sua posse. No entanto, ele pode se provar útil para você. Esconda-o.

— Está bem, Verin Sedai. — Ao se lembrar da cicatriz da mulher, quase desejou que outra Aes Sedai chegasse naquele instante e tomasse o anel dela.

— Muito bem, criança. Agora saia daqui. Já está tarde, e você precisa se levantar cedo para ajudar com o café da manhã. Durma bem.

Depois que a porta se fechou ao Egwene passar, Verin permaneceu sentada, encarando-a, por algum tempo. A coruja piou baixinho atrás dela, que puxou a caixa vermelha, abriu a tampa e franziu a testa para o que preenchia quase todo o espaço.

Página e mais páginas, cheias de palavras escritas em uma caligrafia precisa, e a tinta preta quase não desbotara depois de quase quinhentos anos. As anotações de Corianin Nedeal, tudo o que ela havia aprendido durante os cinquenta anos que estudou aquele ter’angreal peculiar. Uma mulher misteriosa, Corianin. Escondia dos outros a maior parte de seu conhecimento, confiando-o apenas àquelas páginas. Apenas a sorte e o hábito de revirar papéis antigos da biblioteca haviam levado Verin até elas. Até onde ela descobrira, nenhuma Aes Sedai além da própria Corianin sabia do ter’angreal: a mulher conseguira apagar todos os registros de sua existência.

Mais uma vez, Verin considerou queimar o manuscrito, da mesma forma que havia considerado entregá-lo a Egwene. Entretanto, destruir conhecimento, qualquer conhecimento, era inconcebível para ela. E dá-lo… Não. É muito melhor deixar as coisas como estão. O que tiver de acontecer acontecerá. Ela fechou a tampa. Agora… onde foi que deixei aquela folha?

Franzindo a testa, começou a revirar as pilhas de livros e papéis à procura da pasta de couro. Egwene já não ocupava mais seus pensamentos.

22

O Preço do Anel

Egwene mal havia saído dos aposentos de Verin quando Sheriam a encontrou. A Mestra das Noviças estava de testa franzida, preocupada.

— Se alguém não tivesse se lembrado de vê-la conversando com Verin, eu não a teria encontrado. — A Aes Sedai parecia um pouco irritada. — Venha, criança. Só estamos esperando você! Que papéis são esses?

Egwene os agarrou com um pouco mais de força. Tentou soar ao mesmo tempo submissa e respeitosa.

— Verin Sedai acha que eu devo estudá-los, Aes Sedai.

O que faria se Sheriam pedisse para vê-los? Que desculpa daria para se recusar a entregá-los, que explicação teria para as páginas que mencionavam as treze mulheres da Ajah Negra e os ter’angreal roubados?

Sheriam, no entanto, pareceu se esquecer dos papéis no instante em que perguntou por eles.

— Deixe isso para lá. Você está sendo chamada, todas estão aguardando. — Ela puxou Egwene pelo braço e a forçou a caminhar mais depressa.

— Chamada, Sheriam Sedai? Estão me esperando para quê?

Sheriam balançou a cabeça, exasperada.

— Você esqueceu que será elevada a Aceita? Quando for ao meu gabinete, amanhã, já estará usando o anel, embora eu duvide que isso vá torná-la mais mansa.

Egwene tentou parar de andar, mas a Aes Sedai a mandou seguir, entrando em um lance de escadas estreitas, que conduziam abaixo em espiral pelas paredes da biblioteca.

— Hoje à noite? Já? Mas estou morrendo de sono, Aes Sedai, e suja, e… pensei que ainda teria alguns dias. Para ficar pronta. Para me preparar.

— O tempo não espera por mulher alguma — retrucou Sheriam. — Há de ser o que a Roda tecer, quando a Roda tecer. Além do mais, como é que você iria se preparar? Já sabe tudo de que precisa. Mais do que sua amiga, Nynaeve, sabia. — Ela empurrou Egwene por uma porta minúscula ao pé da escadaria e a conduziu apressadamente por outro corredor, até uma rampa que descia em curva.